Um sonho chamado Dinamarca

Ágata não queria mais pegar em armas para fazer revoluções. Em alguns momentos acreditava que tinha ido longe demais com tudo aquilo. Mas o passado tinha que ficar no passado. Agora era uma pessoa procurada no mundo todo. Trocou um pouco de visual novamente, pintando o seu cabelo de azul. Os dinamarqueses acharam aquilo um pouco exótico e estranho, mas se ela estava feliz com aquele visual era isso que importava, pensava alguns eles.

A grande pergunta que ficava em sua cabeça era a seguinte: Se ela tivesse ficado só no campo da escrita será que aconteceria aqueles revoluções todas no mundo?… Talvez sim, talves não, Mas quem aqui iria lhe dizer sobre isso? Ninguém!

O mundo agora parecia estar mais seguro com todas aquelas mortes ocasionadas por seu pessoal. A democracia imperava novamente, pois os seus mercenários fizeram questão de devolver o poder para o povo. Mas Ágata estava diferente agora. Tinha percorrido uma grande jornada e não sabia ao certo se poderia manter sua arte viva, depois que teve que surjar as suas mãos com o sangue de ditadores.

A Dinamarca era um local prazeroso de se estar. Dava para levar uma vida tranquila e sossegada no meio de todos aqueles livros em idiomas diferentes. Tendo em vista que as escolas de lá ensinavam seus alunos a dominar a maior quantidade de idiomas possíveis para que pudessem se virar no futuro. Ou seja, preparavam suas crianças para as desventuras que podessem vir à enfrentar na vida. E isso Ágata achava fabuloso.

Já pensou vir à enfrentar problemas em Alemão, Inglês, Francês, Italiano ou até mesmo em Espanhol?… Seria um desafio. Ter que solucionar os problemas no próprio dialeto local. Já pensou em como seria isso?

Ágata logo se candidatou à uma vaga na catedra de português em uma escola local. Os dinamarqueses queriam muito saber sobre a vida em Portugal, no Brasil e na África do Sul também. Mas Ágata só teve a oportunidade de estar em dois desse locais, pois o último, ela teve que inventar tudo de cabeça. Mas não viu problema nenhum em ter que mentir sobre a África do Sul. Pois a literatura à ajudava com isso. Na arte de mentir para ter que sobreviver ao caos da fome e das guerras sem sentido que aconteciam na África do Sul. Então foi fácil construir uma mitologia sobre aquele país dos leopardos.

Depois de algumas semanas Ágata já estava bem adaptada. Falava bem o inglês novamente. Mas tentava só se comunicar em português com as crianças. E elas por sua vez já estavam bem fluentes no idioma, e depois que foram mudando de fase, logo entraram na vida adulta querendo trabalhar no Médico sem fronterias para que pudessem ajudar os países mais desfavorecidos. E isso criou um problemão na Dinamarca. Pois as famílias desses novos adultos não estavam preparados para ver seus filhos fora da linha europeia. Mas não teve jeito. Aquela turma que Ágata acompanhou até a fase adulta, acabou migrando para os países com menor poder financeiro, para desespero de suas famílias abastadas, que nunca tiveram que ver à pobreza mais de perto.

A escola em que Ágata era professora logo teve atenção dos noticiários mundo afora. Mas ela não estava preocupada com isso. Tinha abandonado para sempre a guerra armada para enfrentar uma outra. Ela agora ansiava em exportar mão de obra cada vez mais qualificada para os países mais pobres. E assim, aquela escola acabou sendo reconhecida por seus planos pedagógicos, onde a maioria dos catedráticos mundo afora, disputavam com unhas e dentes, por uma vaga que dificilmente era cedida sem qualificações extra curriculares.

Ágata acabou sendo diretora da escola dinamarquesa. E ganhou o Global Teacher Prize, considerado o Prêmio Nobel de Educação, por seus serviços prestados de forma inteiramente gratuita ao mundo.

Dizia que só precisava de comida e de um canto para morar, mas se também tivesse bastantes livros em volta para que ela pudesse nutrir o seu espírito ela não iria reclamar em hipótese alguma.

Sua casa na Dinamarca era modesta. Era tudo integrado para economizar espaço. A cozinha era a sala que era o quarto e por fim se transformava em um modesto banheiro. Seus livros ficavam no meio disso tudo. Desde poesias celtas até mitologias nórdicas. Sua desenvoltura com os idiomas estava em outro patamar agora. Pois Ágata já era reconhecida como uma políglota ambulante, mas desde que tinha fixado sua residência na Dinamarca, isso já estava em outro nível. Pois agora queria aprender inglês médio e antigo. E isso acabava ocupando a maior parte de seu tempo livre. Mais aos poucos, estava progredindo.

Ela ainda sentia saudades de Portugal. Dos cafés acolhedores e dos amigos e colegas que tinha feito na redação do jornal e nas Universidades em que dava aulas e palestras. Mas aquilo também tinha ficado para trás. Ela tinha guardado todas aquelas memórias e lembranças em sua mente e de alguma maneira estava tentando pintar um quadro novo e mais sofisticado.

Ninguém poderia dizer se sua vida tinha realmente valido à pena. Mas só de olhar os seus alunos progredindo, com ideias revolucionárias que levavam para a casa, para estudar ou delirar já valia todo o seu esforço.

E ela estava gostando de ser uma professora novamente. Corrigia diversas provas que à lembravam do tempo em que estava em Portugal, mas não tinha coragem de reprovar ninguém por suas tarefas. Achava isso hipócrita demais. E assim, ela mesma escrevia a resposta certa para os seus alunos mais problemáticos e dizia-lhes para não falarem com os seus responsáveis.

Ágata gostava de cuidar de seus alunos como se fossem seus filhos. Ensinava-lhes diversas correntes filosóficas que eles sozinhos em casa estudavam até tarde da noite. Deixando seus responsáveis um pouco preocupados com aquela enxurrada de teórias filosóficas que ensinavam o caminho para os mais libertários. Mas no fim, ela sabia que estava educando futuros antropológos, filósofos, poetas e artistas que iriam transformar o futuro em presente e em presente o futuro.


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