A fuga do cárcere

Depois do julgamento, Ágata enfim, foi levada pelo camburão até a cadeia mais próxima da cidade. Ela trajava aquele habitual macacão laranja, enquanto os guardas colocavam correntes em seus pés, para que as outras pessoas da cidade pudessem identificá-la como uma criminosa de guerra.

Sua pele foi imediatamente marcada com um número de identificação que Ágata não fazia questão nenhuma de memorizá-lo. Os carcereiros de plantão lhe deram uma muda de roupa limpa, um travesseiro, uma escova dental com fio dental incluso, um rolo de papel higiênico e uma coberta caso ela viesse à sentir frio em sua cela compartilhada.

Ágata logo conheceu sua companheira de cárcere. Ficaram amigas íntimas e logo estavam contando todos os seus segredos de vida uma para à outra.

Nívea estava presa há 4 anos. Tinha matado um rapaz que tinha lhe estrupado em uma floresta afastada da cidade. Na maioria das vezes, era bem gentil com suas companheiras, mas as vezes tinha crises de choro terríveis que acordavam as outras detentas em plena madrugada. E era por isso que ela sempre vivia cheia de hematomas pelo rosto e pelo corpo todo também. Alegavam que ela precisava se controlar a uma hora daquelas.

Ágata para sobreviver teve logo que se juntar a gangue mais forte da prisão, caso não quisesse ser violada como a sua amiga tinha sido na floresta. E assim, oferecia qualquer tipo de serviços às suas companheiras em troca de segurança perpétua. Mas sabia que não poderia levar aquela vida por muito mais tempo e já planejava com algumas detentas à fuga daquele ambiente inóspito.

Ela até tinha tentado ler o máximo de livros que conseguia para que assim, conseguisse reduzir os seus anos de prisão, mas logo viu que aquela tarefa seria impossível, pois os carcereiros também exigiam que ela fizesse novas resenhas, contos, crônicas e artigos sobre tudo aquilo que ela tinha experienciado em sua vida, para que depois eles conseguissem vender à fortunas no mercado negro.

Somente algumas detentas sabiam do plano de Ágata em escapar daquela prisão de segurança máxima do condado da cidade. Achavam aquilo muito perigoso, pois se alguma fosse pega em flagrante, os juízes do comitê poderiam decretar pena de morte à qualquer uma. E assim, algumas desertaram daquela ideia, deixando-a totalmente à deriva.

Porém, um dia antes do plano ser colocado em prática, Nívea aceitou ajudá-la, mesmo tendo consciência de todos os riscos envolvidos. E assim, na calada da madrugada, as duas enfim, conseguiram fugir sem fazer nenhum estardalhaço na prisão.

Porém, o que Ágata não tinha como prever, era que as outras detentas depois do ocorrido, também se encheriam de coragem para segui-las; deixando a prisão completamente vazia no amanhecer, quando os carcereiros abriam as celas e colocavam todas para tomar banho de sol.

O sistema de segurança foi inteiramente trocado e aquelas detentas nunca mais foram vistas novamente. Muitas trocaram suas identidades por documentos falsos e aproveitaram a oportunidade para fugir daquela cidade que tinha como a atração principal o serviço forçado daquelas detentas.

Ninguém sabe ate hoje como todas conseguiram fugir, mas Ágata tinha alguns palpites, pois tinha encontrado diversas falhas nas trocas de plantão dos carcereiros, que geralmente nunca estavam usando armas; sem contar no sistema de cameras também, que volte e meia saia do ar devido ao gerador antigo que o governo mantinha do lado de fora da prisão pegando chuva e sol o dia inteiro. Só de citar esses exemplos, já dá para imaginar que uma possível rebelião ou insurgência era bem possível de acontecer. Porém, a única pergunta em que Ágata mantinha em sua cabeça na hora da fuga era o por que da demora?

Por que elas não tinham feito isso antes dela chegar naquela prisão?

Era isso em que Ágata as vezes se pegava pensando em seu veleiro de fuga. Talvez estivessem esperando uma mulher corajosa o suficiente para iniciar o processo. Para que depois as outras pudessem seguir os seus rastros pela liberdade. Ou talvez estavam lhe testando para ver se ela teria culhões de fazer aquilo, mesmo que ninguém lhe acompanhasse na jornada para o abismo.

Ágata acompanhou tudo pelo seu rádio antigo do veleiro. E dentro de sí vibrava por ter conseguido fazer mais aquela façanha em seu currículo. Pois sabia que eram bem poucos os que tinham conseguido fugir de uma prisão de segurança máxima como aquela.

O que o destino lhe reservava agora?

Pensava ela, olhando novamente para o seu mapa mundi do veleiro. Tentava indicar com os dedos um destino para se embrenhar, mas de nada adiantava. Gostava de velejar pelo mar calmo e violento. Levando consigo apenas lembranças de quem já tinha sido e era. As vezes o nome de todas eram faladas no rádio novamente, mas o mundo logo se esqueceu daquelas presidiárias que agora tinham outros nomes, identidades, cabelos e perfumes totalmente diferentes umas das outras.

Ágata agora tinha medo da Terra à vista. Preferia sempre ancorar por perto, mas nunca chegar totalmente à costa para que as pessoas ficassem lhe perguntando de onde estava vindo e para onde queria ir. Dizia sempre que a viagem era o seu destino e as ondas sua estrada.


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