Ágata estava mais leve e desimpedida. Como ela sentiu falta de suas amigas de Portugal que à faziam pensar na infância deixada no Brasil. Todo dia, pontualmente, todas elas se reuniam em seus cafés preferidos para falar sobre a vida deixada para trás. Tomavam café e comiam croissant no Rio Douro no Porto, enquanto observavam os barquinhos que passavam anunciando o vinho Taylor’s de fabricação própria.
Ágata as vezes confessava que não estava prestando muita atenção à conversa corriqueira, pois alegava que gostava de escutar as línguas dos turistas. Aquele palavreado estranho e sem nenhum significado aparente que lhe remetiam ao estado de eterna turista lusa.
Observava aqueles pessoas tentando captar o máximo de informações que podiam com o que viam e liam em museus por ali perto. Como se não quisesem esquecer daquele momento em suas memórias frágeis. E para isso, tiravam fotos de cada passo para não perder o rastreio.
Ficavam suspresos com a acolhida daquela bela cidade e logo viam as filas enormes para entrar na Livraria Lello. A livraria mais bonita del mundo como diziam os espanhóis.
Eles rapidamente tentavam comprar os ingressos – já esgotados – no site da livraria sem muito êxito. Dava para ver as reações de decepção nos rostos daquelas espanholas. Ágata achava graça e logo ia informá-las que elas poderiam tentar em um outro dia que tivesse vaga. Mas elas normalmente diziam que não dava tempo. Que a estadia delas era curta e rápida.
Porém, conforme Ágata ia conversando em outras línguas com os diversos turistas que estavam frustrados, ela logo era reconhecida e instantaneamente aparecia em diversas contas de redes sociais pelo mundo afora. Como sinal de gratidão e gentileza – por escutar elogios à suas obras – Ágata acabava por ela mesma, entrando pela Livraria Lello – que sempre deixava-a com passe livre – e acabava fazendo um tour com os turistas antes tristes e agora alegres.
Era uma celebração à vida! Diziam eles em muitas línguas e dialetos diferentes.
Enquanto isso, as amigas de Ágata ficavam a ver os barquinhos à passar, pois já sabiam que aquele dia estava perdido de fofocas. Algumas até pensavam, bem rapidamente, que às vezes, era muito chato ter uma amiga muito famosa daquele jeito. Mas enfim, era a vida em pura desilusão.
Quando Ágata se dava por si, suas amigas já não estavam mais lá naquele café das redondezas, e assim, resolvia dar uma última volta para pensar melhor antes de ir para a casa trabalhar em textos novamente.
Alguns até poderiam pensar que era uma vida solitária e sem sentido algum. Mas Ágata à adorava e muitas das vezes até à idolatrava.
Em casa, normalmente escovava os seus dentes bem cedo para se dedicar exclusivamente às diversas leituras sobre o Brasil e o mundo. Ficava bem chateada por não conseguir ler alguns poemas de seus autores prediletos, mas depois com uma certa insistência, retornava à eles e acabava irrigando bem o seu espírito, com a arte misteriosa e secreta de poemas que ainda não foram escritos, para serem decifrados em um curso de anatomia.

