O país que nunca se inventou

Ítalo tinha cuidado dos pais até o obituário de ambos. Era essa a sua função? Perguntavam alguns nos bares da cidade. Pois ele sempre tinha se anulado a vida inteira. Mas agora era hora de cuidar de si. Por isso, resolveu empacotar a biblioteca dos seus pais em que rotineiramente vivia de cabeça baixa, se passando por aqueles montes de personagens sem sentido algum.

A universidade local veio até a sua casa e levou tudo para que outros estudantes também pudessem beber naquela sabedoria empacotada e que momentaneamente, também estava sem uma estante que pudessem acolhe-los de uma melhor forma, como somente um lar era capaz de fazer.

Assim, logo na sequência daqueles fatos, Ítalo decidiu ir até uma imobiliária com a intenção de colocar a sua única casa à venda. Ele estava planejando viajar com o dinheiro que ganharia com aquilo. E para a sua surpresa, vendeu-a rapidamente.

Em seu closet, Ítalo decidiu colocar em sua mala somente coisas essenciais, como um par de tênis e roupas confortáveis, que poderiam ser usadas em casa ou nas ruas de Londres. Pois como seus pais eram britânicos, Ítalo tinha dupla nacionalidada, tanto brasileira como britânica.

Chegando no aeroporto, Ítalo já se deparou com outras línguas, mas se sentia muito aliviado por ter sido educado na língua inglesa que era universal. Sua assessora Denise lhe orientou a ficar na sala Vip até que o seu avião pudesse chegar às oito em ponto, sem atrasos.

Os noticiários não eram dos melhores para o Brasil. O país estava prestes a entrar numa taxação de 50% sobre os produtos brasileiros que entrassem em território americano. Além da maior parte dos juízes que trabalhavam no Supremo Tribunal Federal não poderem entrar em solo americano por tempo indeterminado também.

Ítalo achava aquilo tudo muito injusto, mas por outro lado, se considerava um homem de sorte por sair daquele país no momento certo. Ele tinha conseguido uma boa quantia pela casa de seus pais e agora só queria saber de morar no apartamento deles em Londres.

Chegando em Londres, rapidamente se adaptou à comida local. Leu rapidamente os noticiários para se atualizar como cidadão e em questão de semanas já era um britânico vitoriano.

Sua assessora Denise cuidava muito bem de sua finanças e ele gostava muito de administrar a empresa de seus pais na Inglaterra. Os boatos diziam-lhe que ele não iria conseguir gerir o patrimônio dos pais e em questão de anos iria colocar a empresa em falência. Mas os boatos estavam totalmente errados.

Ítalo conseguiu administrar tudo muito bem e até foi congratulado com a ordem dos cavaleiros pelo Príncipe da Inglaterra. E agora seus empregados tinham que lhe dirigir como Sir antes de iniciar qualquer conversa formal ou até mesmo informal.

O herdeiro da tecnologia tinha passado no teste. Ítalo agora era um dos principais CEOs da área que eram respeitados mundialmente. Ele era chamado para qualquer tipo de evento, seja ele festas de casamento em Veneza ou até mesmo apresentações de novos presidentes que se elegiam nas principais potências mundiais. E as pessoas até ficavam surpresas quando descobriam que Ítalo era brasileiro. Como se naquele país só saíssem jogadores de futebol bem remunerados e nada mais além disso.

Ítalo adorava passear por Londres e ver diversas nacionalidades andando pelas ruas vestindo o que bem entendessem como se o mundo fosse livre de preconceitos e amarras sociais. O tempo dificilmente ficava ensolarado, mas no verão, todos iam à parques ler e conversar embaixo daquele sol escaldante. Dava para ver que a maioria tinha a pele muito clara. Livre de qualquer insolação que pudesse ter pegado na infância.

Ele nunca mais voltou para o Brasil. Porque de alguma maneira, não tinha criado laços afetivos com aquela cultura onde poucos liam e muitos se viam na obrigação de opinar sobre qualquer assunto, por terem lido apenas pequenas manchetes de jornais que tentavam controlar as cabeças de quem as liam.

Na Inglaterra era tudo diferente. As conversas eram muito mais profundas e frias ao mesmo tempo. Pois por aqui o toque era só para os mais íntimos, ao contrário do Brasil, que se amava um amigo do mesmo jeito que se amava uma mulher e vice e versa. Mas algo ligava os dois países. E era paixão pelo futebol, onde todos cantavam enquanto os jogadores se digladiavam no campo para ver quem iria marcar o tão sonhado gol. Fazendo a torcida vibrar a plenos pulmões aquele gol que tinha acabado de ser anulado pelo bandeirinha de plantão ao lado do campo.

Ítalo conseguiu formar uma família feliz onde o toque era essencial em qualquer conversa ou brincadeira. Mas seus filhos recebiam diversas advertências na escola, onde a diretora estranhava aqueles gestos de ternura que não poderiam ter saído da Inglaterra, mas ela nunca conseguiu descobrir a descendência daquela família que falava o inglês britânico perfeitamente.

O importante era tratar todos iguais. Pensava Ítalo que jamais revelou que era brasileiro também. Mas o que isso importava? Para Ítalo, tudo, pois com o passar dos anos ele começou a comparar as atitudes que encontrava pela vida, sempre pensando, se no Brasil a pessoa iria agir da mesma maneira que os ingleses. E a resposta era sempre à mesma: Não! Em hipótese nenhuma.

Pois o Brasil poderia ter diversas anomalias em sua estrutura social, mas existia algo de acolhimento entre aquelas pessoas que causava muito estranheza dos europeus, que sempre se sentiram superiores em raça e em etiqueta social também. Mas nunca foram capazes de amar e de aceitar outras culturas dentro da sua, como era o caso dos brasileiros, que sempre foram um povo multicultural e aberto a entrada de imigrantes em sua árvore geneálogica.


Deixe um comentário