Ágata gostava de ficar observando o fluxo de pessoas indo e vindo, na rua lá embaixo, cercada por policiais de plantão, por causa de sua prisão domiciliar. Mas dentro de seu apartamento era uma pessoa inteiramente livre. Escrevia, lia, dava aulas e palestras sobre um determinado assunto em específico que ela normalmente dominava com muita aptidão.
Para receber algum convidado, de seu agrado, normalmente tinha que passar pelo crivo dos policiais lá embaixo. Mas dificilmente eram barrados. Dentro daquele apartamento, estavam todos liberados para pensar sobre o que quisessem; e assim, faziam planos para possíveis artigos ou simplesmente, resolviam escrever algum conto ou crônica em parceria.
Ágata dificilmente acordava indisposta com algum assunto em específico. Ela simplesmente adorava ter algo para pensar profundamente, para que assim, pudesse escrever sobre. Sempre de uma maneira leve e divertida para quem lesse, mas jamais para quem escrevia.
Os dias passavam muito depressa. E muitas das vezes, Ágata se esquecia de manter uma alimentação saudável, pois sempre pulava as refeições essenciais e só pensava em comida quando não tivesse mais nada para escrever ou discursar.
Um belo dia, se reuniu com alguns estudantes que estavam lendo a sua obra para concluir seus cursos de mestrado e doutorado e ela simplesmente adorou como eles se expressavam diante da autora. E muitas das vezes, ela ficava sem entender nada sobre o que estavam dizendo, pois quem escreve nunca imagina que alguém possa estar tentando decifrar todos os segredos deixados em frases e parágrafos soltos no meio de um texto em questão.
Muitos saiam de lá não conseguindo decifrar direito o que aquela autora queria dizer em certas partes de seu texto, mas a própria autora ficava muito intrigada com aquilo, pois alguns leitores com muito menos estudos que aqueles acadêmicos, acabavam entendendo tudo o que era escrito e dito de uma forma muito mais clara e objetiva do que aqueles estudantes universitários. Talvez, pensava ela, fosse esse o próprio problema da contemporaneidade. Pois quanto mais estudos uma pessoa tivesse, mais pensamentos complexos elas tinham. E as vezes, um escritor só queira falar com a massa da maneira mais natural possível. Enquanto os catedráticos só querem filosofar sobre algum texto ou livro que foi lido para os seus semelhantes, se distanciando assim, do povo e da sociedade de uma maneira geral.
Ágata não queria que os seus textos e livros fossem discutidos na universidade, e sim, nos cafés e bares ao redor do globo. Mas sempre se disponibilizava para conversar com a safra da sociedade que se achava mais intelectualizada, explicando para eles que as vezes um escritor só queria ser lido como entretenimento depois de um longo dia de trabalho apenas e nada mais.
Os anos foram se passando e enfim, Ágata foi liberada de sua prisão domiciliar. Na manhã daquele dia em específico ela não teve vontade de sair de seu apartamento aconchegante. Pois já estava adaptada a vida em total reclusão. Dizia que pensava e escrevia melhor daquele jeito, sem ter contato algum com o mundo exterior. Mas com a liberdade recém concedida, a tarde resolveu dar uma volta pelo Porto para ver os turistas e ao mesmo tempo, entrar em contato com aqueles línguas estrangeiras que eram sussurradas em seus ouvidos novamente.
Avistou algumas amigas que lhes deram os parabéns e foram logo almoçar em um restaurante local para colocar o papo em dia. Pediram carne de vitela e um bom vinho branco para o acompanhamento e assim, passaram à tarde toda jogando conversa fora.
Ao término da tarde, Ágata já estava pronta para escrever novamente. Era como se toda aquela adrenalina acumulada em anos de reclusão agora estivesse livre para que ela pudesse acumular outras experiências artísticas. E assim o fez.
Religiosamente escrevia pela manhã indo até a hora do almoço. Depois ia sempre visitar a Livraria Lello para ver as novidades no mundo literário, onde normalmente era reconhecida na hora em que entrava por lá. Dava alguns autógrafos em seus livros sempre reeditados e tirava algumas fotos como se fosse ainda uma voz à ser seguida por aquela nova geração.
Ágata sempre pensava em seu sucesso com muito carinho. Pois sempre pensou que talvez ainda pudesse ter vozes que talvez jamais seriam ouvidas no mundo da literatura. E por essa razão, sempre estava lendo os livros mais atuais para que assim, pudesse econtrar novas vozes para dialogar com o seu pensamento.
Gostava de conhecer novos escritores que traziam um certo brilho em seus olhos, como se aquela profissão fosse a melhor do mundo. E talvez, realmente fosse. Pois podia-se imaginar de tudo, porque no campo da literatura tudo era permitido e nada era negado à ninguém.
Bastava você pensar em personagens complexos ou simples, com diálogos profundos ou rasos que lá estava uma história que valeira muito à pena ser contada e digerida pela sociedade que sempre precisaria de arte para poder sobreviver a tanta realidade desgastada.