
O que faz alguém ser considerado um gênio?… Seu trabalho?… Sua persona?… Ou ambos?…
Nesse filme de 1996, o diretor James Ivory, nos leva na contramão da análise da persona de Picasso, e nos direciona direto para a vida das mulheres que perpassaram por sua vida. Françoise Gilot (1921-2023), Dora Maar (1907-1997), citando apenas algumas. Foram mulheres que abdicaram de suas vidas, para servir à Picasso. Pois não existia nada melhor do que ele, pensava Picasso, no auge de seu Narciso.
Viver com alguém tão prestigiado no mundo da arte tinha um preço, que todas acabaram pagando. Pois Picasso dificilmente conseguia ficar em casa cuidando de seus filhos e afazeres domésticos. Cargo esse cedido com muitas honras artísticas às suas mulheres de plantão. Que eram tratadas como escravas do ego do artista. Que se propunha apenas à trabalhar em tempo integral. E quando não, dificilmente tinha hora para voltar de sua boêmia.
Carl Gustav Jung (1875-1961) disse uma vez ao filho de Albert Einstein (1879-1955), Eduard Einstein (1910-1965), que enquanto ele afundada em alto mar, muitos artistas nadavam de braçada. O que ele quis dizer com isso, afinal?… O significado mais explícito é que os doentes mentais acabam confundindo a realidade com suas próprias fantasias, enquanto os artistas conseguem habilmente passar de um polo à outro, sem que precisem de algum auxílio medicamentoso. Ou seja, o artista tem uma hora adequada em sua loucura para que possa criar livremente; enquanto que os loucos, não tem uma hora pré-definida para sair da realidade e entrarem em sua fantasias. Pois à todo instante, podem confundir à realidade com suas fantasias e vice versa também.
Assim sendo, presenciamos no filme que Picasso didicilmente se deixa levar por sentimentos irracionais que atrapalhem à sua arte, mesmo que seu pensamento esteja livre para criar o que quer que fosse. Porém, suas mulheres acabavam sentindo sua eterna ausência em casa, pois quase nunca tinha tempo livre para poder ser somente o Pablo, e não o tão conhecido pintor mundial.
Logo, vemos uma inversão de valores entre o ser público e o privado. Onde Pablo não queria ser apenas Pablo; enquanto Picasso só queria ser o reconhecido artista internacional. E isso acabou gerando profundos conflitos existenciais, onde no final de sua vida, Picasso se deparou com sua eterna mortalidade de ser apenas um homem de carne e osso.
Porque por mais que ele tivesse o mundo aos seus pés, ao fim, ele se viu encurralado pelo dor emocional de ter tudo o que quisesse financeiramente; porém, por outro lado, seus laços afetivos estavam completamente destruídos, pois todos à sua volta só queriam um pedaço de sua fama, e não daquele homem arrongante e cheio de si que uma vez tinha se chamado somente Pablo.
A lição que fica ao final do filme é a seguinte: Até que ponto queremos ser reconhecidos por nosso trabalho, se ao final dele, poderemos ser engolidos completamente pelo que fazemos?
Todas as suas mulheres sentiram muito isso na pele, pois ao final de seus relacionamentos com o pintor espanhol, elas perceberam como tinham sido sugadas para o atelier do artista, que só exigia delas amor e compaixão, pois no fundo, o grande Picasso, só queria alguém que o entendesse na sua loucura de alto mar.