
O mundo como o qual o conhecemos, chamado por alguns de Pós-Modernidade, está impregnado de especializações de todos os tipos. Começando desde à escola e indo até a nossa profissão. Os professores que perpassam por nossas vidas, sempre nos aconselham à escolher desde cedo uma área, para qual nós vamos nos especializar ao longo de nossas vidas.
Pórem, isso acaba gerando um mundo onde ninguém mais tem a devida condição de olhar para todos os hemisférios de um mesmo problema, por exemplo. E logo, cabe a cada um de nós, fazer o serviço, ao qual, ninguém nos ensina o caminho.
E no ramo da história, isso não é diferente, pois temos uma diversidade de correntes historiográficas, onde o historiador irá usar, aquela em que é mais adequeda para o seu ponto em estudo, ao qual ele está problematizando no devido momento presente, por exemplo.
Pois assim como na área da medicina, em que também temos o clínico geral e o especialista em alguma área em específico. Na história isso também não é diferente. Porque por aqui, temos a história cultural, a econômica, a social e a política; para citar apenas algumas. E caberá ao historiador de plantão determinar qual irá usar, não é mesmo?
Errado! Pois o que o historiador Barros tenta esclarecer em seu livro é que todo o historiador deverá caminhar por todas essas correntes teóricas e somente no final de seu estudo em questão, optar por se centralizar em alguma ou não.
Errado novamente! Porque de acordo com os seus estudos, não poderemos enquadrar um historiador em um determinado campo apenas. Pois ele terá o dever de auxiliar o leitor para a maior quantidade de visões possíveis para que o estudioso consiga formular sua própria consciência intelectual, onde ele poderá até mesmo indagar o próprio autor do estudo em questão, por exemplo.
Porém, é claro que teremos historiadores que irão estudar somente um recorte temporal em específico, para que o seu trabalho não se perca no tempo. Mas por outro lado, veremos diversos historiadores se apropriando de determinadas filosofias para narrar suas histórias. Tomando sempre o devido cuidado para que o estudioso não julgue com a mentalidade do presente à civilização do passado. Cometendo o que chamamos de Anacronismo Histórico.
Mas com esse devido cuidado em mente, o historiador poderá se apropriar de outros campos de estudo, como a literatura, por exemplo. Utilizando livros como os de Victor Hugo (1802-1885) — Os Miseráveis (1862) — onde o escritor em questão, utiliza alguns personagens comuns, inseridos em uma sociedade, para falar das injustiças que foram cometidas contra elas; e não vidas de reis, por exemplo, onde o glamour imperava no interesse popular, antes da divulgação da dita obra em questão.
Ou seja, depois da publicação dos Miseráveis, vemos um crescente interesse da sociedade em consumir histórias de pessoas comuns, que estavam inseridas em culturas onde elas eram diretamente afetadas em menor ou em maior grau. Dependendo das mudanças políticas, econômicas, culturais e sociais que elas vinham à enfrentar.
Com isso em mente, os historiadores começaram à explorar a vida dessas pessoas, ditas comuns, para ver como elas agiam em circunstâncias adversas, por exemplo. E assim, vemos um interesse cada vez mais acentuado na pesquisa de diários, por exemplo; pois assim, os historiadores conseguiam avaliar como aquela determinada pessoa pensava diante das movimentações políticas que afetavam diretamente a sua vida.
Para citar outro exemplo, temos os diários de Anne Frank, onde ela escreveu sobre à esperança de sobreviver ao perigo eminente dos nazistas, que acabaram descobrindo o seu esconderijo e à levaram até o campo de concentração para morrer. Nesse caso, muitos historiadores especializados na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), utilizaram seus diários para que pudessem estudar o fascismo por um outro viés, à de uma garota assustada pelo regime ditatorial de Adolf Hitler (1889-1945) e sua polícia da Gestapo.
Outro exemplo bem enfático é o estudo que o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) fez dos diversos tipos de discursos que temos para contar ou narrar uma história, por exemplo. Seja ela completamente fictícia ou não. Foucault enfatiza que todo conhecimento é pautado pelo poder de narrar uma história. Levando com isso, à que tenhamos interpretações diversas sobre o mesmo período em questão. Dependendo do estudioso que conte a história para nós, é claro.
Tendo isso em mente, precisamos sempre tomar muito cuidado para o tipo de informação que estamos consumindo no tempo presente. Pois a cultura como à conhecemos, pode estar impregnada de vieses ideológicos, onde acabamos ficando completamente cegos em ver o mesmo problema social, através de uma única lente apenas.
O que o historiador Barros propõe é que está tudo bem em se especializar em uma determinada área em específico; porém, precisamos reavaliar outras fontes de conhecimento, para contrapor sempre com à que nós temos e carregamos inconscientemente. Pois só assim, poderemos ver o problema de vários ângulos diferentes. E no fim, poder colocar uma palavra em nosso dicionário que seja o: talvez. Pois jamais teremos a resposta certa de cada época na história, somente especulações com bases teóricas cada vez mais refinadas ou apodrecidas, dependendo daqueles que não aprimoram o seu ofício, adequadamente, para o leitor em questão. Que é a base e o sentido do fazer historiográfico.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
BARROS, José DÁssunção Barros. O campo da História: especialidades e abordagens, 8. ed. — Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.