
O filme retrata a vida do comandante de Auschwitz, Rudolf Höss e sua esposa, Hedwig, em uma bonita casa ao lado do campo de concentração. Onde seus filhos tem uma rotina aparentemente normal, onde o ir e vir da escola; ou o simples brincar na psicina da casa, lhes tornam seres felizes, diante da morte que está do outro lado dos muros.
O diretor inglês, Jonathan Glazer, quis mostrar aos telespectadores, a banalidade do mal, onde o comandante Höss vai e vem de seu trabalho no campo ao lado de sua casa, como se o ato de comanadar pessoas para as câmaras de gás, fosse algo extremamente comum entre os alemães daquela época.
Ao longo do filme, sua esposa, Hedwig, acaba chamando a sua mãe para passar uma temporada em sua casa, para mostrar-lhe como estão bem instalados naquele ambiente “harmonioso”. Levando a sua mãe, à lhe dizer que ela estava muito bem instalada naquele lugar e que ainda por cima, tinha tirado a sorte grande.
Porém, passados apenas alguns dias, sua mãe acaba vendo de madrugada, uma das chaminés do campo de concentração, saindo fumaça dos possíveis corpos que estavam sendo queimados naquele instante, e assim, decidi ir embora daquele lugar o quanto antes. No outro dia, todos à procuram pela casa, mas já era tarde demais. Sua mãe tinha ido embora daquele lugar inóspito, ao qual sua filha, netos, e seu próprio genro, conseguiam viver normalmente, na mais perfeita harmonia, independente do número de mortos que crescia do outro lado dos muros.
O diretor Glaze, não mostra em nenhum momento, as atrocidades que se faziam nos campos, preferindo sempre mostrar a normalidade daqueles que faziam o mal contra à humanidade. E assim, há cenas onde outros generais do Reich — mais precisamente falando, possíveis engenheiros do Holocausto —adentravam por aquela bela casa, para falar de câmaras de gás cada vez mais potentes. Tendo como meta, sempre, o aumento da capacidade do número de pessoas, dentro desses novos ambientes que seriam projetados muito em breve, pelo partido, por exemplo.
E assim, notamos ao longo do filme, que as mulheres do Reich, tinham tudo. Comida em abundância, roupa lavada e casa arrumada também. Tudo feito por mulheres judias que eram tratadas como escravas do partido. Enquanto no outro lado dos muros, existia racionamento de comida, onde apenas um pão, era dividido em várias porções, para os judeus, que tinham que trabalhar para o Reich até a exaustão física e mental.
Outra cena bem marcante do filme, foi quando Rudolf Höss, levou seus filhos para nadar em um lago próximo ao campo, onde inesperadamente, o comandante acabou encontrando um dedo na água, e assim, vemos ele ordenar aos filhos, para que saíssem daquele lugar, o quanto antes. Pois todos podiam se infectar com o sangue dos judeus. Na sequência, todos se banham em casa, para tirar aquele possível malefício idológico do partido. Onde apenas o toque em outra raça, poderia muito bem infectá-los.
A pergunta que fica é a seguinte:
Como a maioria dos alemães conseguiam alcançar a sanidade mental, fazendo as atrocidades que eles faziam diariamente?
Para responder à isso, teremos que nos utilizar da teoria da filósofa alemã, Hannah Arendt (1906-1975), onde ela em seu livro — As Origens do Totalitarismo: Antissemetismo, Imperialismo, Totalitarismo — Descreve que a normalidade em fazer o mal repetidamente, gera como consequência, sua banalidade, onde o indivíduo, acaba perdendo completamente a sua capacidade de refletir sobre os seus próprios atos, levando-os a algo banal e até mesmo normal de se fazer.
A filósofa, cita como exemplo, um alemão que era orientado a colocar todos os judeus em vagões de trens, com destino final, aos campos de concentração que estavam espalhados pela Europa; e que ele não tinha mais a capacidade de refletir sobre o por quê, que aqueles vagões voltavam vazios para a estação inicial, muito menos se preocupava com o que era feito com todas aquelas pessoas. Alegando que aquele era somente o seu trabalho, e nada mais além do que isso.
Portanto, vemos no filme, que Hedwig, esposa do comandante Höss, só se preocupava em cuidar de seus filhos e do marido. Que estava prestes a ser transferido, para outro lugar. Mas ela não queria sair dali, pois lá tinha tudo o que ela sempre tinha almejado em sua vida. Uma casa grande, confortável e que ainda por cima, tinha uma piscina, para que seus filhos pudessem brincar e trazer seus amigos da escola também. Porém, Höss não sabia ao certo se conseguiria deixá-los naquele lugar e somente ele, ser transferido. Por isso, pediu aos seus superiores que avaliassem com carinho aquela contra proposta. Ao qual não sabemos à resposta no final do filme.
Com o som sempre presente de tiros e gritos, que dava para se escutar na ídilica casa do comandante, vemos a angustiante normalidade de sua esposa, que sabia o que era feito naqueles lugares e mesmo assim, agia como se nada estivesse acontecendo. Preferindo mostrar aos seus filhos os avanços que tinha feito em seus jardins, com a ajuda de uma judia, é claro, que se responsabilizava por guardar os mantimentos de comida no estoque da dispensa e até mesmo, passava as roupas de todos os integrantes da casa, sem fazer barulho nenhum, pois o seu coração, também tinha sido arrancado dela em vida.
Cenas finais, mostram diversos funcionários cuidando do que é hoje o Museu do Holocausto, onde nos deparamos com as roupas e sapatos de milhares de judeus que foram brutalmente mortos nas câmaras de gás. Como se isso fosse algo para ser colocado em Museu. Lugar onde entramos para apreciar a arte e usufruir um pouco sobre o que cada artista imaginou pra a sua história, ao qual, nenhum teve a capacidade de adivinhar o que a Europa, o berço da civilização, iria se tornar no pós-guerra. Um lugar de falência ideológica e moral, onde a felicidade não estava mais presente em nenhum lugar.
