
Minha mãe Lisa é uma francesa fugida da Segunda Guerra Mundial; enquanto meu pai, Fabrício é um português que também veio no mesmo barco que ela para o Brasil. Antigamente era desse jeito que os imigrantes vinham para o chamado: país do futuro. Pois com a Europa em frangalhos, era de extrema importância, que os europeus conseguissem morar em lugares que lhes possibilitassem melhores condições de vida. E o Brasil era a porta de entrada para recebê-los bem. Por mais que fossem tratados como uma mão de obra substituta às dos escravos de então.
Meus pais se conheceram por acaso dentro do barco, e foi amor à primeira vista. Fabrício, meu pai, dominava o francês como ninguém; e minha mãe Lisa, logo ficou aos seus pés por isso. Ele tratou de sempre alimentá-la bem para que não viesse à adoecer na terceira classe. Aquele lugar inóspito que nem um porco ficaria à salvo de doenças. Mas que por sorte do destino, os dois foram os únicos que não foram infectados, e assim, quando o navio atracou no porto do Rio de Janeiro, se viram diante daquele outro mundo com novas possibilidades de emprego.
Lisa foi trabalhar em uma papelaria, enquanto Fabrício conseguiu um emprego de mecânico. Mas sempre que dava, os dois se viam nos cinemas e teatros locais, algo que dava muito prazer em ambos. Assistiam à diversos filmes estrangeiros e sabiam de cor todos os atores e atrizes que trabalhavam neles e nas peças semanais também.
Com muito esforço, Fabrício se endividou para abrir a sua própria mecânica no Brasil, junto à um sócio que também era português como ele. Lisa ficou muito contente pois sabia que não precisaria mais viver em albergues. E assim, no outono, os namorados se mudaram para um pequeno apartamento na zona norte do Rio de Janeiro. Mobiliaram-no todo e no final do ano, casaram na Igreja de véu e grinalda. Fabrício logo comunicou à sua família em Portugal; enquanto sua agora mulher, Lisa, fez o mesmo diante de seus parentes na França.
Eles até receberam diversos presentes de suas respectivas famílias, que estavam muito felizes de não terem se casado com os brasileiros. Que ainda era uma ameaçada à xenofobia que eles nutriam sem perceber.
Lisa assim, comunicou ao marido que estava grávida de duas semanas. Fabrício ficou tão feliz com a notícia, que deu uma linda festa em sua mecânica para comemorar junto de seu sócio, que secretamente também já tinha casado e estava à espera de um filho homem, que num futuro não tão distante, talvez poderia gerir aquele negócio lucrativo junto com eles.
No hospital, Lisa deu a luz à mim. Elisa Leblanc de Freitas, mas infelizmente meu pai, Fabrício, ficou muito descontente com aquela notícia. Pois ele tinha acabado de saber que o seu sócio, O Damião, tinha se tornado pai de um belo menino gorducho e cheio de saúde.
Lisa ficou extremamente chateada com a reação de seu marido, que queria ter um filho homem, que herdasse os negócios da família, e não uma mulher, que possivelmente se tornaria uma simples dona de casa, num futuro não tão distante. E assim, Fabrício obrigou-a a ter um novo filho, na esperança de que esse talves pudesse ser o tão aguardado filho homem. E assim se concretizou.
No dia do parto, Lisa logo foi comunicada pelas enfermeiras, que tinha dado à luz a um belo menino, cheio de vida. Com quatro quilos e oitocentas gramas. Dois quilos à mais que eu. Ao nascer pelo menos.
Fabrício quando soube da notícia, optou por até tirar o dia de folga. Bem diferente do dia em que eu nasci, por exemplo, em que ele preferiu continuar trabalhando para se esquecer do infortúnio de sua nova família.
Meu irmão, Edgar Leblanc de Freitas, quando teve a idade adequada, minha mãe tratou logo de matriculá-lo em meu colégio. E íamos à pé até ele. E todos por lá, falavam à beça que ele não se parecia em nada comigo. Pois como eu sempre fui ruiva e ele moreno, o contraste deveria ser gritante mesmo. Mas por outro lado, eu estava sempre cuidando dele. Prestava muita atenção com quem ele ficava brincando no recreio, e assim, no regresso para a casa, ele me contava tudo o que tinha aprendido na escola.
Como os meus pais trabalhavam muito, era eu que ficava encarregada de cuidar de meu irmão em casa. E assim, minha mãe me ensinou desde muito cedo à cozinhar, passar, lavar e até mesmo à faxinar a casa. Pois naquela época, ainda não existia termos trabalhistas que nos impediam de fazer as coisas que tinham que ser feitas, com a idade adequada ou não para isso. E assim, eu fazia aquelas tarefas, com todo o profissionalismo possível. Pois não era justo que minha mãe ao chegar do trabalho, extremamente cansada, ainda tivesse que cozinhar e limpar toda à casa para a gente.
Por essa razão, eu fazia questão, de cozinhar para todos os integrantes daquela família. Mesmo sabendo que dificilmente agradaria o meu pai. Que sempre reclamava da comida que eu tinha feito com todo o amor para eles. Mas talvez, se o meu irmão tivesse a idade de fazer aquilo, talvez ele não viesse a reclamar tanto. Vai saber…
