Vivendo em um albergue

Lisa depois de apanhar do seu marido Fabrício, resolve fugir ao longo da madrugada, levando os seus dois únicos filhos com ela: Elisa (à direita) e Edgar (à esquerda). Imagem feita em parceria com o ChatGPT.

Com o tempo eu fui me acostumando com a rotina pesada. De ter que acordar cedo, arrumar meu irmão, estudar e cuidar de todas as responsabilidades de casa também.

Na escola, as vezes eu cochilava durante as aulas e sempre apanhava por isso. Pois naquela época, às crianças não tinham direito algum à proteção, como temos hoje, por exemplo. Tínhamos que escrever sempre com a mão direita, mas como eu era canhota, apanhava cada vez mais por isso também. Me lembro que as professoras amarravam a minha mão esquerda, para que com isso, eu fosse forçada a escrever com a direita. E assim, eu acabei desde muito cedo, escrevendo com as duas mãos, por causa dessa disciplina rígida, que era imposta à todos sem exceção.

Já meu irmão Edgar, era o aluno perfeito, que jamais tirava nota baixa em qualquer matéria que fosse. As professoras falavam umas com as outras, que ele era bem diferente de sua irmã mais velha. Que sempre ficava em recuperação em todas as matérias exceto em artes. Que não servia para nada em um país que nunca à valorizou como uma disciplina obrigatória em seus curículos escolares.

E esta aí os primeiros problemas que tive com o meu pai, por exemplo. Pois enquanto Edgar entregava o seu boletim com notas excelentes, eu por outro lado, escondia-o, mas quando ele era informado na escola por essas açoes, ele sempre me batia muito por aquilo. O que fazia com que eu fosse ficando cada vez mais rebelde em casa.

E ainda consigo me lembrar quando surgiu as primeiras propagandas de cigarros na televisão, por exemplo. Com aquelas pessoas super populares e descoladas conversando sobre os mais variados assuntos que iam contra o sistema ditatorial vigente no país. E logo, eu e minhas amigas começamos a fumar às escondidas; tanto na escola, como em casa também.

Meu pai quando soube, me deu uma baita de uma surra que eu até pensei que fosse morrer naquele dia mesmo. Mas pela dádiva dos deuses, minha mãe interviu logo naquilo, e arrombou a porta do banheiro para impedir que ele me matasse ali mesmo com o sinto na mão.

Edgar, meu irmão, naquela semana, aprendeu a cuidar da casa inteira e ainda por cima, preparou o jantar para a gente à noite. Mas ainda me lembro que meu pai ficou um pouco arrependido por ter feito aquilo comigo, mas logo se recompôs, com aquele seu jeito ríspido de falar com os outros, como era de seu costume.

A escola para mim nunca serviu para muita coisa. Pois eu passava a maior parte do tempo estudando a história da arte em meu quarto, com livros que eu pegava emprestado na escola, pois naquele tempo, a internet ainda era algo bem distante em nossa realidade. Então… a única maneira que uma pessoa tinha de estudar algo que gostasse, era em livros antigos da biblioteca pública da cidade. Onde a gente tinha um determinado prazo para ir renovando o empréstimo, à medida em que íamos lendo os livros.

E assim, meus pais foram logo chamados na escola, pois eu era considerada à mais atrasada da turma. Mas teve uma única professora, a senhorita Telma, que dava aulas de artes para a gente, que teve a coragem de durante a reunião de pais, de dizer que eu seria uma pessoa brilhante em qualquer coisa que eu escolhesse me profissionalizar no futuro. E claro, que meu pai não deu ouvidos para aquilo, dizendo que como sua filha só era boa em sua matéria, ela provavelmente estava denfendendo-me por causa de minhas notas altas em sua matéria e nada mais além do que isso.

Enquanto isso acontecia, minha mãe foi chamada de lado, pela diretora da escola, e ela logo lhe disse que tinha uma escola muito boa no centro da cidade, em que estava aceitando novos prodígios em artes. E assim, Lisa, minha mãe, anotou o endereço da escola e quando chegou em casa, comunicou-o ao seu marido sobre a nova informação que tinha recebido na reunião de pais da escola. E assim, acho que foi a primeira e única vez que minha mãe apanhou de seu amado marido.

Fabrício depois de ter dado aquela bofetada em minha mãe, imediatamente se ajoelhou na frente dela e disse que nunca mais aquilo iria acontecer na sua vida. E minha mãe imeditamente lhe desculpou. Só que à noite, ela me ordenou que eu fosse chamar meu irmão no quarto dele, pois íriamos morar em um albergue na zona norte da cidade. E assim nos despedimos daquele apartamento, deixando por lá muitas responsabilidades à serem negociadas.

Mas é claro que meu pai tentou de tudo para reconquistar a confiança de nossa mãe. Mas acho que tudo isso foi meio em vão. Pois ela só foi morar junto com ele novamente na minha adolescência. Mas isso eu só contarei bem depois na história…

Chegando nesse albergue, a proprietária, a dona Neide, nos acolheu super bem, e foi assim, que conheci somente por fotos, à irmã de minha mãe, a Elsa Leblanc. Que todo mês enviava dinheiro da França para que minha mãe pudesse pagar a estadia nesse lugar, onde só viviam imigrantes. Enquanto meu pai, ia nos visitar aos finais de semana, tentando lhe dar alguma quantia em dinheiro, que pudesse ajudar nas despesas. Mas minha mãe sempre negava qualquer tipo de ajuda. Pois ela sabia muito bem que agora, seus dois filhos estavam muito melhor ali do que em qualquer outro lugar do planeta.

E eu sempre me lembro desses momentos em minha vida. Pois eu e Edgar, quando chegávamos da escola, doina Neide já tinha preparado nosso almoço e a janta também. E eu não precisava mais limpar nada no albergue pois os outros imigrantes daquela casa, diziam que isso não era coisa para criança alguma fazer. E assim, as nossas únicas preocupações na vida, naquele momento, era aguardar o regresso de nossa amada mãe do trabalho. Pois o resto, deixávamos o universo fazer à sua parte.


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