
Aqueles dias no albergue nos marcaram até à adolescência. E acredito que meu interesse por idiomas, tenha se dado nesse período, por causa da variedade de imigrantes que moravam lá junto com a gente. Tínhamos espanhóis, italianos, franceses, alemães e portugueses. Todos tinham fugido da Europa devastada do pós-guerra e acabaram encontrando no Brasil uma excelente receptividade.
Assim, quando me dei conta, já estavámos sabendo falar espanhol, italiano, francês e alemão. Sem contar o português, é claro, que já vinha de nascença. E tanto eu e meu irmão, aprendemos bem rápido todos esses idiomas. Pois cada imigrante tinha resolvido trazer de última hora as suas respectivas gramáticas. Como se esses livros técnicos o fizessem lembrar de suas origens. E talvez estivessem certos disso. Pois o que seria de cada nação, sem a sua língua da norma culta, não é mesmo?
Nessa época em específico, eu meio que me desinteressei em estudar à Arte. Talvez fosse pelo trauma que fomos acometidos. Em deixar nossas coisas nauquele apartamento de papai, e ter que recomeçar às nossas vidas, em um ambiente ainda pouco habitual para nós. Mas aos poucos fomos nos habituando naquele albergue.
Os imigrantes gostavam de falar com a gente em suas línguas de origem. E conforme fomos ficando cada vez mais fluentes em seus idiomas, passávamos longas horas do dia escutando suas histórias de marinheiros. Não que tudo fosse mentira, lógico que não. Mas como nós só víviamos para estudar agora, tudo parecia meio absurdo de ter acontecido com aquelas pessoas estranhas.
Mas depois de um tempo, entendi que todo aquele processo de imigração tinha se dado à partir da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), onde a Europa enfim, tinha conseguido derrotar os alemães. E assim, os que sobreviveram, optaram em escolher países que estavam fora do eixo europeu, para que pudessem passar o restante de seus dias em paz.
Na volta da escola, no almoço, sempre tínhamos o hábito de falar diversos idiomas entrelaçados. E dona Neide, ficava muito impressionada com a habilidade que tínhamos de trocar de um idioma para outro, como se estivéssemos escolhendo o que íamos comer, na próxima colherada. Mamãe ficava cada vez mais orgulhosa da gente na escola e fora dela também. Pois sempre nos dizia que nós estavámos sendo preparados para o mundo. Ao aprender todos aqueles idiomas.
Minhas notas melhoraram muito. Enquanto Edgar manteve seu padrão de qualidade também. Mas por outro lado, eu acabei perdendo todas as minhas amigas. Porque elas diziam que não poderiam mais andar comigo, pois os meus pais agora estavam separados. E isso na época, era o mesmo que dizer que uma determinada família estava em perdição. Mas não me lembro de ter sentido tristeza por isso. Para mim foi até que melhor. Pois eu agora poderia me concentrar apenas aos estudos e nada mais.
Eu e meu irmão adorávamos voltar para a casa e esperar todos aqueles imigrantes voltar de seus respectivos trabalhos, para que assim, nós pudessémos praticar aqueles idiomas. E assim era feito! Eles chegavam cansados e nós já íamos em cada quarto perguntar como é que tinha sido o dia de trabalho em seus idiomas de origem. Era simplesmente espetacular! Todos adoravam à nossa presença, pois eles diziam que era como se estivessem em suas cidade natais, ao ter que praticar o idioma esquecido.
Minha mãe se sentia muito incomodada com aquilo, pois ela não queria que seus filhos atrapalhassem os afazeres de seus colegas de albergue. Mas todos diziam para ela com muito afeto, que nossa companhia era a melhor coisa que existia depois de um dia exaustivo de trabalho. E assim, ela aos poucos, também foi se soltando para falar em françês junto com as outras moradoras.
O engraçado era a forma com que as minhas professoras estavam tratando eu e meu irmão agora. Pois depois que o colégio inteiro soube da separação de nossos pais, era como se o vitimismo estivesse assombrando nós dois. Mas por um lado foi até bom, pois eu imediatamente parei de ficar em recuperação por meus erros nas provas. O que levou a minha mãe à ficar cada vez mais orgulhosa de meu desempenho escolar, é claro.
A partir da separação, todos que passavam por nossas vidas, nos tratavam com o maior afeto possível, que eu até pensava que aquilo tinha sido a melhor coisa que pudesse ter acontecido comigo e com o meu irmão. E assim, quando eu me dei conta, já tinhamos passado à infância.
Porém, no início da adolescência, meu pai comunicou à minha mãe que estava muito doente e que precisava urgentemente, que alguém cuidasse dele apropriadamente. Lisa então, pediu à dona Neide se ela não poderia hospedá-lo no albergue também. O que ela atendeu prontamente. E assim, ele alugou o seu pequeno apartamento na zona norte da cidade e se transferiu para o albergue.
Nos primeiros meses quase ninguém falava com ele direito. Pois todos já sabiam que ele tinha batido na minha mãe, por ela ter tido a ideia de me trocar de colégio, tendo em vista que o atual, não explorava adequadamente minhas tendências artísticas. E assim, ela o fez, independente das preferências de seu agora ex-marido.
No novo colégio, eu dificilmente tirava alguma nota vermelha. Mas sempre tinha à responsabilidade de buscar o meu irmão no colégio antigo. Papai, aos poucos, foi se aproximando da gente no albergue. Mas dona Neide sempre ficava por perto, para acompanhar todas as suas reações. Fabrício então, me perguntava como estava sendo no novo colégio. E eu respondia lhe dizendo que estava progredindo muito em artes só para irritá-lo. Mas a sua reação agora era de acolhimento também. E assim, eu e meu irmão não sabíamos ao certo se ele estava com a alguma doença terminal ou não.
No outro dia, perguntamos para a mamãe o que o papai tinha. E lisa nos disse que ele estava com depressão. Que era uma doença onde a pessoa não tinha ânimo para fazer absolutamente nada na vida. Nossa reação também foi de acolhimento. E assim, aos poucos, todos no albergue começaram à tratar-lhe diferente também. E aos poucos ele foi melhorando. E em questão de meses, papai conseguiu retornar para a sua loja de mecânica de carros, junto ao seu sócio Damião.
Eu e meu irmão, Edgar, começamos a pensar que a depressão de papai tinha se dado, porque ele estava longe de sua família. O que o médico logo lhe disse também. Mas lisa, nossa mãe, estava irredutível em voltar para ele. Pois sua irmã, Elsa, à tinha lhe convencido que Fabrício não era o homem adequado para ela. O que à fez concordar prontamente.
Na nova configuração familiar, todos agora estavam morando juntos novamente. Mas o laço de ser uma família amorosa já tinha se quebrado há muito tempo. Pois agora, tanto eu como Edgar, preferíamos ter todos aqueles imigrantes como substitutos da figura paterna. Enquanto Fabrício, era apenas um desconhecido no meio de todos aqueles imigrantes que jamais se atreveram à ser raivosos e covardes como ele tinha sido no passado. Pelo menos, até onde sabíamos.
