A escrita de uma cultura

Elisa e Edgar desfrutando a literatura clássica no albergue de dona Neide no Brasil. Imagem feita em parceria com o ChatGPT.

Na minha adolescência, quando eu e Edgar já falávamos 6 idiomas, descobrimos à literatura. Pois cada um daqueles imigrantes do albergue, acabava trazendo consigo, algum escritor famoso de sua terra natal. E assim, quando chegávamos da escola, à dona Neide já ia nos dizendo o que poderíamos ler para passar o tempo depois do almoço.

Em português líamos Luís de Camões, em inglês: William Shakespeare, em italiano: Dante Alighieri, em alemão: Goethe, em francês: Victor Hugo e em espanhol: Miguel de Cervantes com Dom Quixote. Foi uma época bem produtiva intelectualmente. Mas por outro lado, tanto eu como Edgar fomos perdendo os nossos amigos, porque quase não saíamos mais com eles. Porque a companhia de todos aqueles autores nos preenchia de todas as formas possíveis. Só que aos poucos, fomos sendo excluídos na escola. No início foi bem dificil de nos acostumarmos com aquilo, mas depois conseguimos tirar aquele problema de letra, passando cada vez mais tempo na biblioteca de lá.

Nosso momento preferido era quando todos aqueles imigrantes voltavam para o albergue, pois sabíamos que iríamos ter diversas explicações sobre aqueles autores ainda muito desconhecidos de nosso universo. E assim, quando nos demos conta já sabíamos citá-los de cor e salteado também. Que era como se não pertencêssemos mais a uma única e exclusiva cultura apenas.

Nosso pai é claro, ficou extremamente chateado com aquilo, pois ele acreditava que uma menina tinha que ser preparada para ser apenas uma dona de casa e nada mais além do que isso; enquanto que para o seu filho, ele previa que possivelmente fosse substituí-lo na loja de mecânica, que ainda mantinha com o seu sócio Damião, no centro da cidade. E ele teimava em nos dizer que todo aquele esforço em estudar de nada ia adiantar para os nossos futuros papéis sociais.

Logo depois que papai disse aquela asneira na frente de todos no albergue, sua reputação foi simplesmente esmigalhada por completo. Levando-o à ser expulso de lá o quanto antes. Lisa, minha mãe, não fez rejeições diante daquilo, pois os franceses sempre foram conhecidos por lerem muito. E assim, papai novamente foi morar em seu pequeno apartamento e nunca mais voltou para nos ver.

Nós dificilmente sentíamos falta dele. Pois não tínhamos diálogo algum. Eramos muito diferente em todos os aspectos mesmo. E assim, todos aqueles imigrantes passaram à ser nossa família em definitivo. Nos ensinavam muita literatura à noite. E até hoje não sei como o meu irmão Edgar não se tornou um escritor de renome internacional. Talvez ele tenha decidido em optar por medicina para ter o conforto financeiro adequado. De tanto que papai o aconselhava às escondidas. À contra gosto de todos do albergue, é claro. Que ansiavam que nós dois fôssemos grandes literatos.

Hoje reflito sobre isso e dou até risada. Como íamos sobreviver apenas escrevendo? Talvez estivéssemos no meio de pessoas românticas, onde a literatura era o centro do universo e nada mais importava para eles. Mas as vezes insisto em pensar que eles pudessem estar com a razão, e nós é que optamos em trilhar caminhos errados. Mas agora já é um pouco tarde demais para recomeçar, não acham?

Por mais que Edgar tenha criado o hábito de continuar lendo os clássicos; além de escrever seus próprios romances nas horas vagas também. Eu, Elisa, também acabei criando o mesmo hábito que meu irmão. Temos nossas profissões, e independentemente delas, ainda mantemos o mesmo hábito de criança. E hoje, ainda torno à pensar, se ainda é reflexo de sonhos ardentes que tínhamos na infância, em explorar a alma humana na pele de personagens que jamais tivemos à coragem de lhes dar a devida vida.


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