
No vestibular ainda me lembro que senti uma pena danada de meu irmão, Edgar. Pois passar para medicina realmente era bem difícil. Ainda mais porque não tínhamos condições financeiras nenhuma de arcar com os custos do curso, muito menos daqueles materiais extracurriculares, como os livros de referências, por exemplo.
E é exatamente nesse quesito que o nosso pai entra novamente em nossas vidas. Fabrício dizia à Edgar para não se preocupar com os livros, porque ele iria obtê-los para ele. E assim, só bastava Edgar passar para uma universidade pública, que o resto ele iria garantir de seu próprio bolso.
Apenas no quarto ano consecutivo, Edgar finalmente conseguiu entrar como calouro, na principal universidade do país. E ainda me lembro que comemoramos como se fossemos campeões da copa do mundo. Mas Lisa, nossa mãe, ainda estava um pouco preocupada com a intrusão de seu ex-marido na vida de seus filhos novamente. Mas Edgar não deu ouvidos à todos aqueles ruídos desnecessários de ciúmes, preferindo se reaproximar de sua então, figura paterna.
Mas o que Lisa insistia com ele era em relação à quantia que ele estava dando ao seu filho e não à sua filha. Mas ele alegava que eu não precisava mais estudar, pois já tinha virado uma artista sem emprego e sem perspectiva nenhuma, como ele tinha previsto há alguns anos atrás.
Isso foi de um extremo desgosto para à minha mãe. Que prometeu que nunca mais iria tocar nesse assunto. Deixando assim, que eu me virasse dando aulas particulares de arte para tentar arranjar alguns trocados para sobreviver mais dignamente.
Porém, aquilo permaneceu em minha memória por um longo tempo. Pois eu tinha sido injustiçada pela primeira vez na vida. E esse ato deixava um gosto muito amargo em minha boca. Quer dizer então que o Edgar poderia sonhar com o que quisesse, mas eu não? Só por causa de eu ser uma mulher?
Aquilo estava completamente errado. E a partir daquele dia em diante, eu comecei a juntar o dinheiro necessário, para que eu pudesse voltar a sonhar novamente, com uma melhor perspectiva de vida, é claro.
Mas ao final de alguns anos, eu acabei não conseguindo a quantia necessária para mudar de país. Pois eu tinha conseguido passar em todos os testes de admissões para a Sorbonne Université, em Paris, na Fraça, de maneira secreta. Mas o principal ainda faltava e foi assim, que eu decidi roubar o meu próprio pai.
É claro que todos daquele albergue já sabiam sobre os meus planos, menos a minha mãe e meu irmão, é claro. E hoje, ainda acredito que aqueles imigrantes estavam torcendo para que eu o roubasse, por causa de seu péssimo preconceito em relação as mulheres. E assim o fiz com todo o prazer.
No dia da viagem, todos pela manhã passaram em meu quarto para se despedirem. Muitos choraram. Mas preferi não contar aos meus familiares, pois sempre odiei despedidas. E ainda acredito que não contei para a minha mãe na época, porque todo aquele sentimentalismo de proteção materna, mais atrapalhava do que me tornava mais independente, diante daquele mundo que me aguardava, fora da proteção exemplar de dona Neide e companhia.
E no final, eu estava realmente certa disso. Só aprendemos algo quando passamos pela experiência. Seja ela traumática ou não. Fui muito feliz naquele albergue. Mas hoje vejo que deixei alguns buracos no coração daqueles que me criaram e educaram. Porque eu não queria roubar ninguém, mas aquela era a única saída para uma vida mais digna. E hoje, não me arrependo disso, pois o meu pai não me deu e nem ia me dar a minha parte que me era de direito. Então, eu só adiantei as coisas, antes que ele morresse e toda a sua herança fosse parar em algum tipo de inventário, por exemplo.
Já em relação ao meu irmão e a minha mãe, peço perdão. Mas fiz isso porque eu não queria ser mais uma engrenagem naquele albergue. E com o tempo acabei sendo. Pois como fui aprovada com louvor na escola de artes aqui no Brasil, ainda não existia uma educação continuada que me proporcionasse o que Paris me proporcionou. E além do mais, o universo se encarregou de avisar aos meus familiares de qualquer maneira. Entrando em minha vida a irmã francesa de minha mãe, a senhorita Elsa.
Hoje reflito mais a respeito e acredito que todos só queriam o meu bem se eu não optasse em ter vontade própria, é claro. E acho que foi por isso que eu sempre neguei à ajuda de Elsa. Preferindo permanecer naquela república de estudantes daquela universidade francesa, à ter que morar com ela. Pois eu sabia que iriam me podar de todas as maneiras possíveis novamente. Controlando-me nas horas em que eu teria que comer e me lavar, por exemplo.
E assim, segui o meu próprio caminho. Passando por dificuldades e preconceitos até enfim, esbarrar na pouca sorte que tinha. Mas por outro lado, posso encher os pulmões de ar e dizer aos quatro cantos do mundo, que essa foi a minha nova vida embaixo da avenida Champs-Élysées. Nada mal né?
