
Na república de estudantes conheci diversas meninas vindas da Europa. Mas inicialmente, eu não fui tratada com muito acolhimento. Demorei certo tempo até que elas confiassem em mim. Pois todas escutavam diversas notícias horríveis vindas do Brasil. E não às culpo por isso, pois em um país onde temos altos índices de violência e corrupção, acaba ficando no imaginário das pessoas de fora, que somos um povo sem nenhum tipo de moral ou ética precedentes.
Mas com o tempo, eu provei a minha inocência. E ao longo do curso de artes, elas até vieram até à mim, me pedir desculpas pelo pré-conceito estabelecido de antemão. O que eu aceitei prontamente porque não queria passar minha estadia toda na França, sem ter sequer nenhuma amiga para que me confessar, não é mesmo?.
Consegui ser aprovada na grade curricular sem maiores problemas. Mas a xenofobia dos professores continuava à todo o vapor. Pois ninguém da cátedra conseguia entender como uma brasileira estava conseguindo pagar o curso todo, tendo em vista que, eu tinha vindo de um simples mecânico do Brasil. E até chegaram ao absurdo, de chamarem a polícia parisiense para revistarem as minhas acomodações na Universidade, para ver se eu estava escondendo de onde eu conseguia o dinheiro para pagar as mensalidades altas de meu curso.
É claro que não encontraram nada de suspeito em meu quarto compartilhado. E assim, a maioria dos professores tentou me ignorar ao final do curso, vendo se eu desistia por ser tão maltratada assim. O que felizmente não aconteceu.
Confesso que teve dias em que eu chorei bastante na frente de minhas amigas francesas. Que agora entendiam melhor o que era ser de uma cultura tão diferente das delas assim. E inesperadamente, no dia de minha formatura, acabei sendo acolhida por todos os professores presentes, que agora diziam que eu era de confiança também. Como se minha nacionalidade tivesse sido testada de todas as maneiras possíveis, para que somente naquele período em minha vida, eu pudesse me dar o privilégio de viver entre europeus de renome e destaque acadêmico, que se consideravam superiores à todas as outras raças que viviam fora de suas demarcações territoriais.
E para a minha surpresa, fui uma das selecionadas para continuar estudando, tendo em vista, toda à minha disciplina e determinação em alcançar os meus objetivos. E assim, quando me dei por mim, já estava concluindo o pós-doutorado, sendo chamada logo em seguida, para compor a cátedra junto com outros professores selecionados da universidade francesa também.
A notícia chegou logo aos ouvidos de meus pais. Que logo entraram em contato comigo para me parabenizar. Disseram que sentiam muito orgulho de mim, e percebi logo todo o arrependimento de meu pai em sua voz. Mas já era tarde demais. Pois sua filha rejeitada agora tinha alcançado o sucesso, ao qual, ele nunca esperava que um dia uma mulher conseguisse ter. Pois eu agora, tinha uma sala de pesquisa, com uma enorme biblioteca à minha disposição; e ainda por cima, um belo apartamento onde outros professores também residiam com suas famílias, perto do campus universitário também.
Consegui quitar o apartamento depois de longas prestações. Mas foi lá que conheci Charlize, minha companheira, ao qual, depois de algumas tentativas fazendo inseminação artificial, tivemos enfim, à sorte de ter duas meninas. Fugindo totalmente dos padrões habituais da época, é claro. Se é que me entendem né?.
Claire e Emma nasceram no mesmo dia. E ainda acredito que foi o dia mais feliz de todas as nossas vidas. Pois naquele momento em diante, sabíamos que teríamos que educá-las para que fossem justas com os outros, independentemente de quem fossem ou de onde vinham. Porque o mundo em nossa concepção, não tinha fronteiras e muito menos apenas uma única bandeira à ser seguida; não é mesmo?.
Podíamos até viver nessa época, em uma suposta utopia. Mas o que seria dos pais e das mães se não pudessem imaginar um futuro mais justo e coerente para que os seus filhos pudessem viver onde bem entendessem e com quem preferissem também?
Talvez eu tivesse acreditando em algo impossível naqueles primeiros meses de amamentação, onde Charlize tinha que acordar em plena madrugada para amamentá-las. Ou talvez fosse o medo de que elas pudessem sofrer o que sofremos em vida. Começava aí todo o meu sentimentalismo materno, ao qual eu sempre critiquei em minha própria mãe. Ter medo e até mesmo pânico de que minhas filhas pudessem me abandonar por eu pensar de um modo arcaico, ou simplesmente querer protegê-las de tudo e de todos. Mas isso não seria vida ou seria?. Depois de algum tempo é que percebemos que isso era apenas um novo amor que estavamos conhecendo, chamado: amor de mãe. Aquele que cuida, acolhe, aconselha e jamais priva.
