
Já estou no hospital há uma semana. O médico me disse que estou com câncer de pâncreas, mas não se preocupem, pois minha filha está aqui comigo cuidando de mim, além de também termos alguns enfermeiros à disposição. Mas agora que estou doente, eu gostaria de contar a minha história à vocês antes que eu parta de vez. Pois não sei ao certo por quanto tempo o meu organismo irá suportar o tratamento da quimioterapia.
Nasci em Portugal. Mas precisamente no Porto, onde desde pequeno tive que trabalhar para contribuir em casa, pois nessa época, as crianças ainda podiam trabalhar. Comecei em uma oficina bem pequena perto do rio Douro. Concertava algumas bicicletas para o meu patrão, que agradeço muitíssimo até hoje, por ter me ensinado um ofício desde cedo, para que eu pudesse pelo menos tentar a independência financeira no pós-guerra. Mas a Europa depois da segunda guerra mundial (1939-1945), acabou ficando completamente devastada, e assim, estava cada vez mais escasso encontrar comida para abastecer uma família com seis filhos. Mas nós sempre arrumávamos um jeito.
No meu caso, trabalhava o máximo possível na oficina para que assim, eu pudesse levar uma melhor quantia de dinheiro para a casa. Mas não era nada fácil. E hoje consigo perceber que o meu patrão sabia que minha família poderia ser bem grande, e talvez por esse motivo, ele sempre me dava um pouco mais do que o necessário, já pensando nessa hipótese.
E ele estava completamente com a razão. Pois por mais que eu não quisesse falar de minha família no ambiente de trabalho, todos em minha volta, depois de checarem meu histórico, souberam por outras bocas, que aquele dinheiro que eu ganhava era para realmente ajudá-los.
Mas todos sentiam o maior respeito pela nossa família. Pois todos viam que diariamente saíamos com as mesmas roupas do dia anterior para ir trabalhar. E enquanto a minha ficava cada vez mais suja de graxa, à dos meus irmãos ficavam sujas de poeira das ruas barrentas, pois naquela época, ainda não existia os paralelepípedos.
A casa ficava vazia durante o dia, pois cada um de nós estava trabalhando em algum ponto do Porto. E assim, quando voltávamos nos lavávamos rapidamente e comíamos o que tinha à disposição. O que normalmente era pão com salame junto ao vinho de acompanhamento.
Naqueles tempos, só fui parado pela polícia uma única vez. Pois eles queriam saber o motivo de eu estar voltando para a casa tão tarde. Mas para a surpresa deles, o meu patrão também estava passando pela mesma estrada que eu, e logo, foi-lhes dizendo que eu realmente trabalhava para ele em sua oficina. Em um primeiro instante os policiais ficaram surpresos com aquilo e foram logo me parabenizando pela minha determinação de tentar dar uma melhor vida à minha família. E assim, fizeram questão de me acompanhar até em casa. Para se certificarem que nenhum malandro pudesse roubar o meu único transporte de trabalho. O que graças à Deus, nunca me ocorreu.
O tempo passou. E quando completei a maioridade me alistei logo no exército, por causa do bom salário que pagavam tanto aos cabos como aos sargentos também. Mas sofri bastante para me adaptar com a nova rotina. Principalmente porque eu estaria mais tempo fora de casa. E nas primeiras semanas do inverno, confesso que chorei muito. Pois não via meus irmãos e irmãs há bastante tempo. Mas sempre que dava eu escrevia cartas à eles, dizendo tudo o que eu estava passando, enquanto os meus pais me encorajavam à continuar exclusivamente por causa do dinheiro que eu habitualmente mandava para casa.
Passado as primeiras intempéries por lá, tive o privilégio de tirar a carta de motorista, tanto de carro como à de caminhão também. Ao mesmo tempo em que já começava a pensar em me mudar para um outro país. O que imediatamente apavorou a minha família, pois caso isso realmente viesse à se confirmar, eles perderiam uma de suas principais fontes de renda. Mas por outro lado, já estava mais do que na hora de nossos caminhos se separarem. Tendo em vista que, eu tinha outros cinco irmãos que poderiam muito bem assumir essa pesada responsabilidade que carreguei por muito tempo em minha vida.
