Da areia ao pó

Vim para o Brasil com dinheiro emprestado. Mas não o recebi de minha família, que não acreditava em meus sonhos, é claro. Fui recebê-lo de uma feirante conhecida minha de Portugal. E logo quando eu ganhei os meus primeiros trocados nos trópicos, resolvi enviar à ela via correio, o que ela tinha-me emprestado, como sinal de minha palavra.

Quando cheguei de navio no porto do Rio de Janeiro, tratei logo de procurar um lugar para ficar e encontrei uma pequena pensão afastada do centro da cidade, onde tudo era muito caro e luxuoso, como de costume. Na pensão, conheci muitas pessoas que também emigraram. Elas vinham dos quatro cantos do mundo, e eu logo tratei de arrumar qualquer emprego que fosse o suficiente para quitar o meu quarto, pelo menos. E por sorte, acabei conseguindo um emprego de mecânico em uma oficina na zona norte, só que agora era de carros.

Comecei como aprendiz, mas logo fui colocado com um dos mecânicos principais da oficina. Meu salário dobrou. E assim, com o que me restava por mês, aos finais de semana pelo menos, decidia ir a alguns bailes tentar encontrar uma namorada decente. O que não era uma tarefa lá muito fácil. Pois as garotas da época só se interessavam por aqueles homens que detinham algum poder financeiro. O que não era o meu caso, por enquanto, mas estava no caminho de conseguir tal feito também.

Chegando ao segundo mês, encontrei uma. Que por coincidência, também era portuguesa e vinha de Braga. Ela tinha se mudado para o Brasil há pouco tempo também. Veio de navio com seus irmãos e sua mãe. Pois o seu pai, ainda estava em Portugal, juntando o dinheiro devido para fazer aquela demorada viagem.

Deolinda também morava em uma pensão. Ela trabalhava em uma papelaria e logo conseguiu juntar um bom dinheiro que ficava rendendo no banco à juros baixo. Passados alguns meses de namoro, tive à coragem de lhe contar que estava querendo abrir o meu próprio negócio com um português que também trabalhava na oficina junto comigo. Seu nome era Agostinho.

Ela o conheceu e percebeu logo que ele era de confiança. E assim, abrimos um pequeno galpão de areia na zona norte do rio, onde todos moravam. Tínhamos apenas um caminhão para fazer às entregas de areia. E eu, Jaime, é que ficava encarregado disso, enquanto meu sócio, ficava na loja fazendo a contabilidade e anotando as próximas entregas.

O negócio prosperou tanto, que logo decidimos comprar o nosso primeiro apartamento na mesma zona em que trabalhávamos. Minha agora noiva escolheu toda a mobília e nos mudamos para o novo endereço quando casamos.

Meu sócio, Agostinho, foi logo atrás também. Ele conheceu uma mulher chamada Rita, que por coincidência também era portuguesa como nós, e foi logo pedindo a opinião de minha mulher, para ver o que ela achava dela.

Com a aprovação de Deolinda, meu sócio também casou-se com aquela cozinheira de pensão. Que logo teve que abandonar seu emprego para que pudesse se dedicar aos afazeres do novo apartamento também. E assim, não demorou muito para que as duas engravidassem quase que ao mesmo tempo e formassem assim, a tão sonhada nova família.

Nossos apartamentos ficavam bem próximos. E quando percebemos as duas estavam grávidas novamente. Só que dessa vez eu tinha ganhado um menino, enquanto o meu sócio tinha gerado uma segunda menina. E isso gerou um pouco de inveja da parte de Rita, que esperava ter um menino também. Mas o fato é que depois de alguns anos éramos todos uma grande família.

Matriculamos nossos filhos na mesma escola. Mariza, minha filha, se dava muito bem com as filhas de meu sócio, Isabel e Fátima, porém, já com o seu irmão Pedro, era totalmente outra história. Mas guardo com muito carinho o tempo em que passamos no Rio de Janeiro. Principalmente quando eu terminava meu expediente e ia embora para casa, onde da janela de meu apartamento, dava para ver sempre o meu querido filho à minha espera, pelo som que o meu caminhão fazia ao cruzar a esquina.


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