Sonhando com um carro francês

Aos poucos, fomos conseguindo voltar de tempos em tempos à Portugal. Só que agora era de avião. Uma viagem bem mais rápida. De apenas 12 horas, sem escalas. Parávamos no aeroporto do Porto e íamos direto para Canedo, onde minha futura casa ainda estava sendo construída. No início, ficávamos na casa de alguns parentes que eu tinha da freguesia. Mas foi apenas por pouco tempo, pois eu não queria dever favores à ninguém. Principalmente para outro português como eu.

O terreno da casa herdei de meus pais. Mas tive que dar a porcentagem aos meus outros cinco irmãos se quisesse realmente construir naquelas terras lusas. Pois os meus outros irmãos infelizmente não tinham tanto dinheiro como eu tinha na época. E assim, tive que comprar à parte de todos até que o loteamento fosse inteiramente meu.

Aos poucos fui enviando o dinheiro para Portugal para que os meus pais ficassem encarregados de monitorar as obras da casa. Uma tarefa bem difícil, tendo em vista que na maior parte das vezes, eles acabavam gastando o dinheiro que eu ganhava, me deixando numa saia justa danada. Mas com a sorte do destino ao meu lado, eu finalmente consegui terminar as obras da casa. Fazendo-os se mudarem para lá em definitivo.

Meu pai, no primeiro andar da casa, fez um pequeno negócio para ele, onde se vendiam bebidas e comidas típicas. Enquanto no segundo andar, ficavam os três quartos, a sala de estar e o banheiro. Porém, o terreno que ficava atrás da casa, minha mãe reaproveitou-o para criar galinhas e outros animais silvestres, que podiam dar-lhes o alimento necessário para a rotina diária, como ovos, por exemplo.

Na sequência, decidi comprar um carro francês da marca peugeot junto com o meu sócio, que já tinha instalado residência em Portugal também, mas precisamente em Paços Ferreira, na zona norte do Porto. Pois ele teve a infelicidade de sofrer um assalto no Brasil e depois me disse que ficou desgostoso com a região onde morava e assim, tinha optado em voltar para a sua terra natal, levando consigo sua família. E não quis nem saber se sua filha mais velha, a Fátima já estava com seu namorado ou não. Tratou-lhe logo de acabar com aquele relacionamento, me dizendo que ele conseguiria um partido melhor para a sua filha em Portugal. Como assim o fez.

Na jornada para buscar o carro na França, levei comigo minha filha Mariza e atravessamos aquelas estradas todas de Portugal tendo como guia apenas os mapas turísticos que recebíamos da companhia aérea. E assim, pegamos o carro na França e me lembro que ficamos dormindo atrás de uma igreja até o dia amanhecer para que eu pudesse fazer o retorno até em casa novamente. Minha filha achou aquilo um absurdo, pois ela queria ficar em algum hotel ou algo parecido. Pensando que poderíamos ser roubados ali mesmo, durante a madrugada gélida do inverno europeu. O que talvez, agora pensando melhor, ela estivesse realmente com a razão.

Meu sócio depois trocou aquele excelente carro por uma Mercedes luxuosa. Pois ele sempre foi muito mais vaidoso do que eu. Que acabei ficando com aquele carro vermelho até o final de minha vida.


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