Em Petrópolis, minha filha começou a me dar um trabalho danado. Ela saia para as festas no centro da cidade, e só voltava em plena madrugada. Enquanto meu filho, se mantinha focado em alcançar os seus objetivos pessoais, que era se tornar um piloto de avião. As vezes, eu chegava ao ponto de desabafar com minha esposa, lhe dizendo que iria vender a casa, pois não aguentava mais as travessuras de Mariza. Muito menos, ficar esperando-a até tarde, na janela, o seu regresso.
Meu filho, por outro lado, já tinha aprendido a duras penas à sobreviver no meio da sociedade. Pois no apartamento do Rio de Janeiro, por exemplo, provocava os outros garotos do prédio, vindo à xingá-los em ocasiões onde não era possível revidar adequadamente. Mas por outro lado, seu rosto ficava tão visado entre eles, que quando ele entrava no elevador, acabava recebendo algumas visitas bem ilustres de seus agressores, que faziam questão de descontar o que tinham ouvido anteriormente.
Minha filha, não era de levar a vida tão à sério como ele acabou levando. Pois ela gostava de sair de seu expediente e relaxar com os amigos nos bares da cidade; enquanto, Pedro, preferia se dedicar quase que exclusivamente aos estudos. Que me lembro, só algumas vezes, chegou tarde em casa, dizendo que tinha ido a alguns prostíbulos da cidade acompanhado de algum amigo em específico, aprender o ofício do amor entre quatro paredes.
Minha filha depois que se formou em história na universidade, se tornou professora do colégio São José, mas foi por pouco tempo, pois o dono do tal colégio, o senhor Mesquita, estava tendo um caso com uma outra menina e assim, decidiu dispensá-la de seu ofício, alegando incapacidade. O que foi um prato cheio para minha esposa, que sempre menosprezou suas capacidades, preferindo seu outro filho.
Enquanto essas novas fissuras iam crescendo entre mãe e filha, meu outro filho, o Pedro, estava determinado a se tornar um piloto de avião da aeronáutica. Mas primeiro teve que passar por diversos testes físicos que quase o fizeram desistir de seus sonhos. Mas depois de muito estudo, ele conseguiu um cargo como controlador de tráfego aéreo, na torre do aeroporto do Rio de Janeiro.
Deolinda, minha esposa, ficou muito orgulhosa dele, assim como eu também fiquei. Mas o nosso grande empecilho foi sua namorada na época, a Vânia. Ao qual detestávamos, porque uma das vezes em que os dois brigaram ela acabou dando um tapa no rosto dele, sem qualquer motivo aparente. Pelo menos, não que ficássemos sabendo do motivo que à fez tomar esse tipo de atitude.
Mas o outro lado da moeda, também não ajudava em quase nada. Pois Mariza, minha filha, não sossegava com namorado nenhum. E sua amiga da rua, a Cláudia, por mais que os seus pais fossem da Receita Federal na época, e tivessem uma boa posição na sociedade, sempre à levava para o mal caminho. Com festas e bebidas fora de ocasiões apropriadas para festejar, é claro.
Até que teve um dia que eu explodi por completo. Pois quando minha filha se formou, ela só pensava em andar de bicicleta com sua melhor amiga, esquecendo de suas obrigações profissionais. O que levou a uma discussão feia entre eu e ela, onde eu lhe disse: “Não paguei faculdade para você depois ficar andando de bicicleta para cima e para baixo, com uma desocupada como a Cláudia. Vá logo procurar um emprego que ocupe o seu dia livre!” E assim, para a minha surpresa, ela acabou arrumando um, como estagiária na Biblioteca Municipal Gabriela Mistral, que ainda fica ao lado da Câmara Municipal de Petrópolis.
Enquanto acontecia esses choques de gerações, meu filho, o Pedro, estava se preparando para os exames finais da aeronáutica. Até que o dia do resultado final chegou em casa, lhe trazendo um banho de água fria, pois ele tinha sido reprovado para o cargo de piloto de avião. Deixando a família toda muito triste com o resultado, pois víamos o empenho dele diariamente para conseguir tal feito em sua vida.
Porém, com a poeira mais baixa e a melhor aceitação daquela derrota em sua vida, sua irmã, Mariza, conhecia pessoas próximas da aeuronáutica, ligadas à sua amiga Cláudia, que lhe disseram que ele tinha sido reprovado no exame psicológico, alegando que o quadro de esquizofrênico aparecia em um dos resultados, o que o enquadrava como inapto para a função pretendida. O que o fez repensar totalmente em sua carreira dentro da instituição, tentando reimaginar seu lugar no mundo, tendo como uma possível possibilidade, uma nova carreira dentro do funcionalismo público, ao qual, ele iria tentar muito em breve, depois do primeiro contato com o fracasso.
