Aquele natal foi um dos últimos que tive antes de começar a ter alguns problemas de saúde. Pois com a vinda daquele cachorrinho os problemas só aumentaram. À começar com minha nora, a Luiza, que não gostava de cachorros e acabou se estressando à beça com aquele animalzinho que não tinha maldade nenhuma. Tendo a petulância de me dizer que eu não deveria deixar o meu neto trazer aquilo para as festas de fim de ano. O que foi a gota d’água para mim.
Olhando para trás agora, acho que aquela confraternização foi a última onde estava toda a minha família reunida. Pois depois daquilo, meus dois filhos resolveram se separar de vez. O que a meu ver, acabou sendo bem melhor mesmo. Porque por mais que tentássemos uní-los, a força do destino fazia sempre o reverso, até que eu e minha mulher, nos conformamos que em alguns casos, é melhor mesmo cada um seguir o seu próprio caminho, para que assim, se evitasse constrangimentos e brigas sem qualquer sentido, como sempre acontecia.
No fim, acabei pagando o preço por fazer essas festas carregadas de muita comida e bebida. Pois depois de aproveitar com o meu sócio, que vinha para o Brasil de tempos em tempos, passar umas férias comigo, onde costumávamos passar o dia inteiro na churrascaria, algumas artérias do meu coração acabaram entupindo. E assim, tive que operar às pressas. A operação era um pouco complicada, pois o médico me disse que teria que tirar um veia da perna para colocá-la em meu coração, e o único jeito de se fazer isso era abrindo totalmente o meio peito.
Marquei a operação para a outra semana, pois nunca tive medo de nada. Mas minha mulher ficou um pouco apreensiva com aquilo. Por sorte, correu tudo bem com a cirurgia; e acabei me recuperando tão rápido que na semana seguinte, já estava cortando grama em minha casa como se nada tivesse acontecido comigo. Deixando minha família muito preocupada.
Porém, passados apenas alguns anos da temível cirurgia, acabei caindo nas escadarias internas da casa, pois a minha mulher, me disse que o vidro da janela do carro estava um pouco aberta, e assim, eu resolvi ir de noite fechá-la de pantufas. Acabei caindo de ombro, ao final das escadarias de mármore preta. Minha mulher imediatamente ligou aos prantos para a Mariza, minha filha, que rapidamente pediu para o seu esposo e filho, lhe ajudarem a resgatar seu pai daquele estado. E assim, eles rapidamente chegaram em minha casa e me socorreram. Meu neto me levantou bem devagar e me levou para a sala de estar novamente. Enquanto minha filha, via o hematoma roxo em meu ombro, que por sorte não cheguei à quebrá-lo, somente à deslocá-lo.
Chamamos a ambulância do plano de saúde e em questão de minutos eles recolocaram o meu ombro no lugar. E foi assim, que eu aos poucos, fui perdendo toda a consciência que ainda mantinha de minha velhice.
Minha casa aos poucos, foi se transformando em uma nova casa de repouso. Onde enfermeiros e enfermeiras eram frequentes. Pois eu estava começando à ter os primeiros sintomas do Alzheimer. Onde fui esquecendo minha história e os nomes dos integrantes de minha família também.
Realizei alguns exames de praxe, aos quais eu fazia todo ano; e por azar do destino, o médico me disse que tinha encontrado uma mancha em meu pâncreas, que talvez pudesse ser o inicio de algum câncer. O que depois do diagnóstico inicial, se comprovou como verdade, infelizmente.
Meus familiares ficaram muito preocupados com aquilo, pois sabiam que eu dificilmente iria escapar da morte, como já tinha escapado tantas vezes. Mas daquela vez era bem diferente, pois meu organismo tinha desenvolvido uma anemia muito forte, onde minhas taxas ficavam muito baixas; e assim, eu precisava urgentemente de bolsas e mais bolsas de sangue, para que minhas taxas voltassem a ficar equilibradas e somente no hospital, eu conseguiria mantê-las nesse estado.
E assim, minha equipe de enfermeiros se transferiram para o hospital e eu passei a ser cuidado em turnos. Minha filha e esposa iam me visitar toda a semana, é claro, mas eu já não estava mais consciente, e sim, completamente dopado. Pois os remédios fortes que me davam para eu sossegar na cama acabaram surtindo o efeito desejado. E na madrugada, tive um ataque cardíaco e acabei morrendo, mesmo que o médico de plantão tivesse lutado contra a morte, fazendo massagem cardíaca em mim, por mais ou menos 15 minutos.
Depois da morte, me colocaram em um saco preto e eu fui imediatamente parar em outro setor do hospital, aguardar que minha família pudesse me transferir para a funerária o quanto antes.
Meu enfermeiro predileto, Acábio, ficou encarregado de comunicar à minha filha sobre o meu falecimento. E assim, em questão de minutos, eles já estavam no hospital com o carro da funerária logo atrás deles. Meu corpo, foi levado até a funerária e eu fui vestido com um pijama de meu primeiro neto o Guilherme, que sempre foi o meu preferido.
O difícil foi comunicar a minha esposa, Deolinda, sobre a minha morte. Minha filha disse à ela, e ela simplesmente desabou em lágrimas. E assim, fomos para o funeral trajando preto que era a cor do luto e da morte.
Chegando ao funeral, encontramos minha família toda reunida outra vez. Mas dessa vez era para se despedir de mim. Meu filho Pedro, chegou algum tempo depois. Mas ele estava mais preocupado com o dinheiro que eu tinha deixado nos bancos do Brasil e em Portugal; do que propriamente com a minha passagem para o mundo dos mortos.
Terminado meu funeral. Todos foram almoçar em um restaurante italiano, pois era aniversário de minha nora, a Luiza, e ela não poderia deixar de comemorá-lo, mesmo que fosse o dia da minha morte também. Ao longo de meu funeral, Luiza se gabava para o meu primeiro neto, o Guilherme, que já tinha recebido milhares de mensagens no Facebook de seus amigas lhe dando os parabéns; ao invés, de dar-lhes seus sentimentos pela recente perda em sua vida.
Mas minha família nunca ligou mesmo para esse sentimentalismo barato. Pois todos eram bem fortes e destemidos. E cada um lidou com aquela situação à sua maneira. Não os culpo por falta de lágrimas.
Minha filha, Mariza, retornou à sua casa levando consigo a sua mãe, que estava completamente destruída emocionalmente, depois de ter perdido o grande amor de sua vida; enquanto meu filho, o Pedro, foi a Portugal passar suas merecidas férias, levando consigo sua esposa e meu segundo neto também. Onde depois acabaram tirando diversas fotos em Portugal, com bonitas roupas de alfaiataria, para colocar em suas redes sociais, dizendo que um novo ciclo estava prestes à ser iniciado em suas vidas supérfluas e materiais.
Pelo visto, a família de meu filho não sentiu muito a minha falta como eu esperaria que acontecesse. Acabei amando o filho errado pelas razões incertas. Só espero que minha filha me perdoe por isso. Pois no fim, foi ela que cuidou de mim com todo o carinho e atenção possíveis. Mas agora já é tarde para qualquer tipo de arrependimento, porque já estou morto e jamais consegui tratá-la com o devido respeito e amor que lhe era merecido.
Só espero que meu filho seja feliz com a herança que deixei à ele e a minha filha. Pois pelo visto, seu amor estava realmente apenas em meus bolsos.
