Vivendo entre cavalos e búfalos

Meu nome é Lilian. Moro numa espécie de fazenda, bem no interior da cidade, que foi deixada pelos meus pais quando eles vieram à falecer. Sou filha única. O que me proporcionou uma paz enorme; sem que eu tenha que dividir nada com ninguém a partir do espólio, é claro. Aos quais, os nossos advogados, deixaram bem claro para mim, quando eu substitui os meus pais nos negócios da família.

Sou formada em arquitetura, mas sempre preferi a cidade. Mas como minha vida nos últimos anos se transformou numa verdadeira bagunça, tive que começar a morar no interior, para ficar mais perto dos gados que temos que cuidar. Mas confesso que no início não foi nada fácil. Pois eu estava muito acostumada com a rotina na cidade, onde o tempo costuma passar bem mais rápido do que em lugares remotos como nessa fazenda, por exemplo.

Quando comecei à trabalhar, adorava fazer diversos projetos de casas e apartamentos, mas depois de um certo tempo, sentia que algo estava faltando em minha vida. Meu pai quando soube disso, ficou todo feliz, pois talvez ele soubesse que no fim, eu fosse parar no interior como tinha acontecido com eles também.

Ainda me lembro muito bem, que na cidade, a moda eram as Bets — as famosas casas de apostas online — que agora davam para acessá-las de qualquer lugar, onde tivesse internet e tempo para apostar no esporte. O futebol, não tinha mais dois tempos de 45 minutos, como antigamente. Mas sim, quatro tempos de vinte e dois minutos e cinquenta segundos, aos quais a federação dizia que era para a hidratação dos jogadores, mas no fundo, todos sabiam que eram para anunciar aquelas famosas marcas responsáveis por embolsar uma soma bem significativa de dinheiro, daqueles que gostavam de perdê-lo. Normalmente se endividando sem que as dívidas fossem aniquiladas no outro mês.

Era um outro jeito de capitalismo mais feroz, como dizia o meu pai. Onde o normal era estar endividado até os dentes. Cansei de construir diversas casas e apartamentos para os donos dessas Bets. Que dificilmente apostavam o dinheiro que recebiam nisso, alegando que aquilo era somente para os imbecis de plantão. Que não tinham nenhuma consciência social sobre os seus atos. Muito menos, à devida responsabilidade para jogar aquilo com moderação, como alertava aquelas propagandas em notas de roda pé minúsculas, que quase ninguém conseguia lê-las.

Confesso que fiquei enojada daquilo tudo. E aos poucos, fui ficando e aprendendo a viver na fazenda de minha família. Onde não tinha qualquer sinal de celular. Nossa ocupação à noite normalmente era a leitura dos clássicos e daqueles livros que jamais estavam nos mais lidos do ano. Gostávamos de explorar a biblioteca de minha mãe. Passávamos a mão na lombada daqueles livros, querendo que nossa alma fosse chamada por aqueles títulos curtos, que normalmente não tinham nada a ver com a história central. Mas talvez, os autores o tivessem colocado ali, só para chamar a nossa atenção, para que depois, pudéssemos viver aquelas novas histórias sem sentido.

Aos poucos fui aprendendo a cuidar dos cavalos e dos búfalos. Enquanto deixava os outros serviçais de meu pai cuidar do resto. Mas já sabia que queria muito passar o resto de meus dias ali. Tendo com o nascer do sol as primeiras luzes do céu. Pois costumávamos parar somente quando o sol se punha do outro lado. Que era normalmente às cinco da tarde. Aí eu ia até o celeiro, colocava os cavalos em suas respectivas baias; chegava em casa, retirava as botas e ia direto para o banho relaxar. Descia, encontrava meus pais, jantávamos juntos e depois, todos ficavam em silêncio absoluto na sala de leitura por longas horas, vivendo outras vidas mais significativas.

A rotina se repetia sempre da mesma maneira, mas cada dia era diferente. Uns dias com muito vento e outros o ar estava completamente morto. Mas sempre aprendíamos algo novo e empolgante com os animais. Que sempre sabiam muito bem como estávamos de humor. E com os búfalos as vezes era bem difícil. Mas eu respirava fundo e no fim, ficava exausta de ter que compartilhar tudo o que eu estava sentindo com todos eles. Raiva, frustação, amor e antipatia pela sociedade que construímos. E assim, acabei largando o trabalho e a namorada, que quase já não sentia mais falta de meu hálito.


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