Me chamo Lilian e sou psicanalista. Normalmente consigo conciliar muito bem os horários de meus pacientes, com a administração de uma pequena livraria que tenho no centro da cidade também. Pois sempre gostei de explorar a vida humana naqueles que à vivem ou nos que somente à imaginam, como são os casos dos escritores, por exemplo. Sendo eles clássicos ou não.
Mas confesso que ultimamente, estou achando bem estranho a compra em massa de livros raros em minha livraria; que com toda a certeza irão alimentar aqueles Data Centers de Inteligência Artificial, onde depois que conseguem apreender todo o conhecimento disponível, simplesmente descartam-no, como se o livro não servisse mais de serventia à terceiros. E isso é extremamente prejudicial para o mercado editorial, pois aos poucos, estamos perdendo todo o conhecimento que já foi pensado antes de nós existirmos. Dependendo única e exclusivamente — em um futuro não tão distante — das máquinas.
Em meu consultório, por exemplo, já posso notar em alguns casos bem específicos, que as pessoas estão tendo que lidar com uma solidão tão angustiante, que acabam recorrendo a IA para desabafarem sobre suas vidas e o que é ainda pior, acabam pedindo conselhos à ela sobre a maneira que precisam lidar nas suas profissões e em suas vidas pessoais também.
As vezes entre uma consulta e outra, me pego pensando se a religião estará com os seus dias contados também. Pois para onde foi a espiritualidade e aquela humanidade de tratar o seu semelhante com o devido respeito, se já nem nos damos mais o trabalho de olharmos o outro nos olhos, no momento em que estamos lhe dirigindo a palavra? E isso tudo por causa dos celulares.
Percebo que os meus pacientes, por exemplo, se sentem bastante incomodados na hora da consulta, de ficarem sem os seus celulares, por pelo menos uma hora ao menos. Pois parece que os seus cérebros estão tão acondicionados à essas máquinas, que eu algumas vezes penso, se perdemos a nossa capacidade de viver sem saber o que determinado influenciador está fazendo naquele exato momento na terra.
Tenho consciência de que o mundo mudou. Mas até onde a IA será capaz de ir sem a nossa ajuda? Seremos refém dela num futuro próximo? Ou não teremos mais espaço de produzir nas empresas em que trabalhamos, porque elas irão fazer o nosso trabalho até aos domingos, sem ter qualquer tipo de décimo terceiro, férias ou direitos trabalhistas? E caso isso venha a acontecer, qual será o nosso papel na nova ordem mundial?
Talvez a resposta para isso seja um futuro distópico, onde os humanos se sentirão tão frágeis em relação às máquinas, que acabaremos sendo escravizados por algo totalmente ingovernável e que jamais aceitará ordens vindas de meros mortais.
