A geração de cristal

No mês passado quase não consegui fechar o mês no azul. Pois não consegui manter um número considerável de pacientes em minha agenda. Porque todos alegaram que agora, preferem pagar uma inteligência artificial para conversarem sobre os seus problemas pessoais e impasses do dia-a-dia.

Sendo assim, tive a semana quase que inteira livre. O que me fez voltar à trabalhar em minha livraria. Conseguimos fazer alguns grupos de leitura sobre diversos temas para tentar atrair os jovens. O que acabou dando super certo. E ao longo daqueles debates, sempre muito calorosos, com aqueles influenciadores e mediadores de conversa, tive a ideia de tentar aplicar aquilo em meu consultório também. Indicando livros para os meus pacientes que estavam passando por algum problema em específico, onde com a ajuda do livro certo, com toda a certeza, aquilo poderia vir à ajudá-los.

No início, confesso que tive que me adaptar. Estudava os seus casos com muito afinco e depois procurava na literatura alguns personagens que estavam passando exatamente por aquilo em suas histórias fictícias ou não. E isso acabou mudando completamente a minha interação com eles. Pois a grande maioria começou a espalhar os meus métodos terapêuticos para os amigos e familiares próximos também; e na semana seguinte, meu consultório já estava cheio novamente.

Muitos vinham até mim e me diziam que a inteligência artificial não tinha ainda a capacidade de fazer aquilo. E era exatamente por aquele motivo que muitos retornavam. Talvez seja isso que todos os profissionais deveriam fazer: inovar! O que as vezes pode não levar a resultados satisfatórios de imediato, mas pelo menos, teremos a consciência de que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, para mudar as adversidades à nosso favor.

As minhas sessões se transformaram em verdadeiros laboratórios sociais. Meus pacientes ficaram muito mais ativos em suas posturas. Passaram a perceber melhor os seus erros e acertos, pois tinham criado a percepção de se colocar no lugar dos outros. Algo que somente os livros poderiam ter-lhes ensinado.

De meu consultório, muita das vezes, eles iam direto à minha livraria. Procuravam em todas as sessões uma nova leitura que os fizessem solucionar novos problemas, aos quais, provavelmente, poderiam vir à enfrentar em suas vidas agitadas e cheios de planos mirabolantes sobre os seus filhos.

Pois alguns depois de algumas consultas comigo, conseguiam encontrar o erro em suas personas. Principalmente no quesito de quererem trilhar no lugar de seus filhos, o caminho que somente eles seriam capazes de percorrer.

Ser mãe e pai não era uma tarefa fácil. Exigia tanto empenho que as vezes eu notava que eles queriam ser os filhos. Para poderem assim, refazer seus próprios caminhos em uma segunda oportunidade.

O que eu os fazia notar era que a vida não era feita de forma linear, como nos induzem a pensar na escola. E sim, muito pelo contrário, são cheios de caminhos tortuosos, que normalmente estão cheios de buracos e perigos que muitas vezes não enxergamos ou não queremos vê-los de forma saudável. Nos levando a pensar que não saímos do lugar onde nascemos.

Crescer tem um preço alto à se pagar. Pois teremos diversas relações que não são somente afetivas e familiares. Nos levando a criar outros tipos de convivência, que muitas das vezes, não iremos gostar, como são os relacionamentos profissionais, por exemplo. Mas que teremos que nos adaptar se quisermos fazer parte de um mundo capitalista que menospreza à inclusão.

E hoje, acabo vendo diversos casos de uma super proteção no meu consultório, onde os adolescentes se queixam de seus pais, ao alegarem que se sentem muito mais presos para arriscar na vida do que propriamente eles foram enquanto jovens também.

Errar todo nós vamos errar. Porém, acredito que tanto os pais como a escola, precisam com uma certa urgência, remodelar completamente os seus métodos de ensino, se quiserem indivíduos mais proativos na sociedade, que saibam prever melhor os problemas e também as soluções que possam vir à enfrentar tanto no ambiente profissional como no pessoal também. Porque senão, a grande maioria será completamente engolida por suas próprias feridas pessoais da não adaptabilidade social.


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