Quem irá pensar por você?

Recentemente, meus pacientes tem reclamado muito da falta de criatividade em suas vidas monótonas. Culpam as novas tecnologias por lhes dizerem sempre quais serão os melhores caminhos para a realização de seus sonhos. Mas aonde será que fica o espaço para as falhas em nossas vidas, se hoje nós temos todas as ferramentas possíveis em nossos celulares, que nos aconselham à fazermos o contrário sempre?

O que insisto em dizer para todos que passam em meu consultório, é que não precisamos ter medo de falhar em nossas vidas. Pois é exatamente com os nossos erros é que aprendemos as grandes lições na vida. Porém, vejo cada vez mais na sociedade um medo terrível pelo fracasso. De falhar e ser visto como um grande perdedor em relação aos outros que tentam esconder os seus percalços, e assim, enfatizar em suas redes sociais, apenas o atalho mais fácil para chegar no topo com tudo já pronto e planejado.

Confesso que me satisfaço muito com isso. Pois a vida não é assim. E o que é mais incrível é que muitos chegam ao meu consultório e depois de algumas consultas comigo, percebem o mesmo que eu. Que a vida não tem atalhos. Ou seja, se você quiser aprender algo terá que se esforçar para obtê-lo.

E hoje percebo que a sociedade está totalmente na contramão disso. Porque ninguém mais tem a paciência de esperar todo o processo até a obtenção da almejada habilidade profissional. E são nesses quesitos que entram os coachs e outros influenciadores digitais que prometem a qualquer um atalhos sem saída. E assim, quando a pessoa percebe que foi iludida já é tarde demais, pois o seu próprio dinheiro, já está na mão daqueles que te passaram para trás, sem que você tivesse a devida consciência social.

Qualquer um que passe algumas horas nessas tais redes sociais, percebem que por lá, tem muita gente explicando qualquer tipo de coisa em vídeos curtos. Induzindo à quem está assistindo, que qualquer coisa desejada ou almejada poderá ser conquistada rapidamente se você tiver as ferramentas certas. O que é uma falácia.

Outro caso bem interesse que tive no consultório esses dias também foi a de uma pessoa que disse que sua capacidade de concentração foi inteiramente danificada, por causa dessas redes sociais. Inclusive, fez questão de me dizer que não consegue assistir filmes muito longos que requerem uma certa profundidade do telespectador, alegando que o seu cérebro simplesmente desliga de onde está e imediatamente começa a pensar em outras coisas do dia-a-dia. Como se nem tivesse assistido ao filme em questão.

Isso ocorre porque estamos perdendo a capacidade de sentir tédio. Pois nosso cérebro aprendeu desde a invenção dessas redes sociais, que é muito mais fácil passar para o próximo conteúdo que te agrada, do que propriamente refletir sobre o que acabou de assistir ou ler. Chegando assim, ao final de um dia onde o indivíduo se informou de várias coisas mais não consegue dizer em uma roda de bar, por exemplo, o que é real, relevante ou totalmente desnecessário de se conversar.

Estamos cada vez mais atarefados em nossas rotinas. Onde saber o que alguém está fazendo nas redes sociais é muito mais importante do que termos o devido cuidado com nossas próprias vidas. Transformamos nossa privacidade em algo totalmente público. E isso acaba cobrando um preço alto à quem expõe toda a sua vida online, por exemplo.

Talvez o futuro esteja num simples retrocesso no tempo e nada mais além do que isso.


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