Já faz algum tempo em que estou pensando seriamente em abandonar a minha profissão de psicanalista. Pois sinto que não tenho mais as ferramentas necessárias, para conduzir meus pacientes da melhor forma possível. Tendo em vista, que não acredito mais nas teorias formadas por Sigmund Freud, onde sou quase que obrigada a seguir de olhos fechados, por causa de minha formação em sua corrente filosófica.
Tenho a devida impressão, que as vezes, eu possa não ter vivido tanto como às outras pessoas viveram. Onde inícios e términos de relacionamentos eram extremamente normais para o desenvolvimento e amadurecimento pessoais, por exemplo. Pois no meu caso, nunca cheguei nem perto disso. Eu até tinha alguns pretendentes na época de estudante, mas sempre arrumava desculpas esfarrapadas para não comparecer a nenhum encontro. E hoje percebo que isso criou um buraco existencial muito grande em mim, para que eu consiga ajudar pacientes que precisem de conselhos e orientações sobre o que fazer quando se desentendem com quem amam, ou simplesmente, cortam de maneira definitiva essas relações tóxicas. Para que assim, consigam finalmente sobreviver à distância enfrentando a temível solidão.
Hoje percebo que isso é extremamente prejudicial em meu próprio amadurecimento. Pois como nunca passei por isso, logo, não poderei ajudá-los à enfrentar esses tipos de problemas de frente, com a cara limpa.
Dessa maneira, fui aos poucos, encaminhando meus pacientes para outros profissionais com muito mais experiência do que há que sou capaz de ter. Alguns até se apegaram a minha imagem. Daquela mulher empoderada, sábia e conhecedora da vida, ao qual, meu próprio cargo, ressoa para toda a sociedade, de que possivelmente, sou uma especialista de laços afetivos. Caso esse que é a mais pura mentira.
Ainda consigo me lembrar dos tempos da universidade, por exemplo. Onde os professores nos mostravam todas as correntes psicológicas de uma abordagem clínica. E assim, o estudante começava a trilhar aquela em que mais se identificava. Porém, ao final do curso, como tínhamos passado por diversos estilos diferentes de estágios, pensávamos que já conhecíamos a vida em toda a sua plenitude. Mas nas primeiras consultas como formada, eu logo percebi que a vida era muito mais complexa do que escutar os problemas alheios e ainda por cima, ter que conduzi-los à uma solução de longo prazo.
A verdade é que nunca me senti totalmente preparada para as difíceis sessões psicanalíticas. Que além do profissional não ter um script de uma hora mínima de sessão, ainda tinha que lidar com diversos tipos de sonhos sem sentido algum para a consciência, onde se evidenciavam os desejos mais ocultos através do inconsciente do paciente, ou propriamente, aos problemas ligados ao pai e a mãe que o indivíduo trazia consigo, por exemplo. E além do mais, conforme as sessões iam ocorrendo, era como se eu estivesse roubando o dinheiro alheio. Daquelas pessoas que queriam encontrar apenas um alívio na vida em que eu jamais poderia lhes dar.
Sendo assim, vendi meu consultório e fui me dedicar de maneira integral à minha livraria. Ao qual, poderia servir muito melhor, indicando obras de autores clássicos — que não eram fáceis de ler em hipótese alguma — mas que por outro lado, traziam o acalento necessário para aqueles que sofriam ou quem sabe, buscavam apenas conselhos melhores, de épocas passadas, onde a genialidade era a chave para aqueles que tinham desaprendido a viver.
