Conheci Tales logo depois que passei a morar com a Érica em um espaçoso apartamento no centro da cidade. E imediatamente nos demos muito bem. Ele apresentou sua mais nova namorada, chamada: Susan, uma simpática americana que já morava em Nova York há bastante tempo. E assim, aproveitei aquela chance, para lhes apresentar a minha pequena livraria. E eles à adoraram, principalmente aquela sessão onde as línguas se misturavam.
Susan até me disse – em sua língua materna é claro — que gostaria muito de investir nela, abrindo uma filial em Nova York e foi logo me perguntando o que eu achava da ideia. Érica imediatamente me cutucou por debaixo da mesa do jantar, dando uma ênfase ainda maior naquela proposta. Mas me mantive firme e lhe falei que iria pensar na proposta e que no outro dia lhe daria o meu parecer. Susan aceitou minha resposta deixando transparecer à todos que eu não era uma pessoa iludida com o sucesso instantâneo, muito menos, com a impulsividade de ganhar dinheiro à qualquer nova oportunidade que aparecia em minha frente.
Com a promessa feita, no outro dia, marcamos um encontro nos fundos de minha livraria, para esclarecermos como seria aquela parceria nos Estados Unidos. Pois como eu não dominava aquela língua nórdica, eu teria que ter um intermediador no país, que pudesse pensar, sentir e agir por mim. O que Érica e Tales se prontificaram de fazer imediatamente, tendo em vista que não teriam nenhum filme para lançar até o outro ano pelo menos.
Dessa maneira, fomos todos juntos até os Estados Unidos, para ver qual seria a melhor localidade para a minha livraria. E assim que desembarcamos, tanto Tales e Érica foram logo querendo comprar uma grande loja bem perto do Central Park, pois assim, quem quisesse passear no parque, poderia antes disso, passar em minha nova livraria para quem sabe, levar um livro à tira colo.
Achei a ideia genial e em questão de apenas algumas semanas, já tínhamos contratado uma equipe formada exclusivamente por mulheres que me aconselharam à colocar o nome da livraria de Our Shared Shelf, que em português significa, Nossa Prateleira Compartilhada, em homenagem ao clube de leitura de Emma Watson, criado em 2016, onde à eterna atriz de Harry Potter que interpretou Hermione Granger nos filmes criou, pensando em compartilhar novas leituras sobre igualdade de gênero, diversidade e empoderamento feminino, deixando ela mesmo, alguns livros do grupo de leitura, em locais públicos para ver quem se atreveria a explorar aquelas novas ideias de ativismo.
E assim, em apenas três meses estava funcionando uma simpática livraria bem no centro de Nova York, no Central Park, em Manhattan. Onde as pessoas entravam à procura de novas escritoras que queriam apenas dar voz aos seus sofrimentos, angustias e até realizações pessoais, diante de uma sociedade que tentava à todo custo silenciá-las.
O primeiro lucro que tive nos outros meses foi para pagar o investimento que recebi de Érica, Tales e Susan. Pois eu não queria ficar em dívida com nenhum deles. Para evitar que qualquer um tivesse a chance de num futuro não tão distante, reivindicar aquele imóvel ao qual todos agora eram sócios.
No segundo ano, a livraria parecia já muito mais integrada ao espírito americano. Pois todos os novos escritores queriam lançar seus livros em nossa livraria. Que transparecia ser muito à frente de seu tempo, dando voz aqueles novos artistas que se viam totalmente burlados pelas grandes editoras que preferiam sempre acreditar em quem já tinha um certo renome no mercado editorial. Deixando assim, aqueles novos originais que recebiam toda à semana, em seus suntuosos endereços, para aquelas editoras independentes que ainda queriam fazer o seu nome no mercado.
Durante a organização de um evento de lançamento, por exemplo, víamos no olhar de todos aqueles escritores, o ar de gratidão por divulgarmos a sua obra em nossas redes sociais, quando não, um artista de renome mundial, fazia questão de fazer uma live convidando seus seguidores para o evento de autógrafos. A pedido de Tales é claro, que conhecia alguns que gostavam muito de ler em Hollywood. Inclusive, muitos dos escritores que ajudamos à lançar, logo conseguiram grandes contratos editoriais para jornais, revistas, cinema e streamings também, vindo à se tornarem bem requisitados em Hollywood, para fazerem roteiros adaptados de obras que ainda nunca tinham lido.
O tempo passou. E minha estada em Nova York chegou ao fim. Mas quando eu estava indo para o aeroporto, notei que muitos na rua começaram a tirar fotos minhas, como se eu fosse uma espécie de nova celebridade mundial. Foi aí que entrei em um café, onde tinham algumas revistas na entrada e vi uma foto que eu tinha tirado com os meus sócios na livraria, para fazer a divulgação nos primeiros meses de abertura da loja. E eu estava lá de uma forma bem natural em uma matéria de capa inteira, realçando a contribuição que fizemos para a cutura Nova-iorquina.
Tratei logo de comprar a revista e levá-la para casa para emoldurá-la. Afinal, tinha conseguido usar minhas influências sabiamente para tornar esse mundo um pouco mais igualitário e amoroso. Mesmo que agora eu também tivesse diversos paparazzi atrás de mim, querendo saber o que eu iria fazer para ficar na mídia. O que rapidamente deixei claro à eles, que eu não queria à fama para mostrar as outras mulheres, o que eu tinha feito, como se isso fosse uma competição de sexos, e sim, enfatizar apenas o que as novas artistas poderiam fazer com as suas vozes na sociedade. Sendo apenas mais uma das diversas expoentes das denúncias que passamos à receber de feminicídios que aconteciam todos os dias no mundo e que os governos locais pareciam tapar os seus ouvidos, pois talvez, só quisessem que as mulheres fossem apenas símbolos sexuais de um planeta cada vez mais machista e retrógrado, onde o homem no fundo no fundo, não tem medo nenhum de ser substituído pelas máquinas de inteligência artificial com os seus enormes Data Centers, e sim, pelo singelo e compreensivo extinto da intuição feminina.
