Érica e Tales tinham voltado a trabalhar no cinema naquele ano. Os dois lançaram filmes que concorreriam ao Oscar. Pelo menos, era o que indicava os jornais locais, com aquelas informações privilegiadas. Mas um escândalo sem precedentes, acabou abalando a categoria de ambos, pois seus respectivos diretores e roteiristas, estavam envolvidos em diversas acusações de assédio sexual dentro dos sets de filmagem, gerando com isso, a desclassificação imediata de suas películas.
Acompanhei bem de perto a retaliação de ambos os filmes. Pois tanto Érica como Tales, ficaram bastante indignados com aquilo e o que mais os irritou foi que nenhum dos dois presenciaram nada que fosse digno de acusações judiciais. Mas depois eles conseguiram acompanhar mais de perto as diversas matérias que estavam saindo nos jornais, onde alguns jornalistas conseguiram entrevistar todas aquelas vítimas. Mostrando aos seus assinantes, que o mundo artístico poderia ser bem cruel para aqueles que queriam se tornar estrelas de cinema.
Com todas aquelas evidências em mãos, os dois irmãos tentaram contribuir ao máximo com aquele julgamento na corte judicial de cada país. Mas logo ficou bem claro para os juízes dos dois casos, que as provas estavam bem claras. E que os diretores e roteiristas dos filmes seriam sentenciados a prisão o quanto antes. Por outro lado, as vítimas procuraram consolo em diversos tratamentos psicológicos, que tanto Érica como Tales fizeram questão de pagar. Mas depois de alguns meses, acabaram decretando falência em suas contas no banco, alegando que todo aquele dinheiro acumulado, agora fazia parte de um bem muito maior do que propriamente a arte que praticavam de tempos em tempos.
Com isso, eu e Susan tivemos que arcar com todas as despesas de casa até que surgisse um bom filme para que ambos pudessem fazer novamente. Mas por hora, aquele julgamento teria que terminar para que a normalidade voltasse a ser respirava no meio artístico.
Tales pegou uma terrível depressão, pois ele ficou bastante chateado com todos aqueles traumas que presenciou ao longo do julgamento, onde diversas mulheres relataram que tiveram que fazer sexo com aqueles diretores e roteiristas, para que assim, elas conseguissem papéis melhores no cinema. Onde os acusados, é claro, tinham aquela falsa promessa de que elas virariam verdadeiras estrelas de cinema, depois daquela participação em seus filmes.
Érica nos primeiros meses, também ficou sem rumo, pois a mídia teimava em ficar em cima de todos os atores que participaram daqueles dois filmes, para ver se conseguiam desencavar mais alguma história horripilante, tendo como único objetivo, a venda de mais jornais para os seus assinantes. Porém, eu tratei logo de dividir o meu apartamento que eu tinha com a Érica entre o seu irmão e sua namorada também, pois dessa maneira, talvez conseguíssemos economizar um pouco até que as coisas voltassem ao normal.
Dessa maneira, passaram a morar no mesmo recinto, eu, Érica, Tales e Susan. À primeira vista, os vizinhos estranharam um pouco aquela situação, pois como os americanos sabiam que Érica e Tales eram artistas internacionais, logo, se pressupunha que não estariam passando por dificuldades financeiras. O que não era verdade, é claro.
A sorte foi que nesse meio tempo, eu e Érica acabamos conseguindo o tão sonhado green card — um documento que possibilitava residência permanente à quem fosse estrangeiro no país — ao informamos ao governo americano, que estávamos contribuindo para o comércio local, além é claro, de estarmos empregando mão de obra americana também. Porque por mais que nosso único negócio fosse aquela livraria de frente para o Central Park, sabíamos que era um direito nosso, tendo em vista que éramos consideradas microempresárias. E quando alguém abria qualquer coisa nos Estados Unidos para beneficiar os americanos, o governo enfim, concedia certas regalias para que as pessoas continuassem investindo no país.
Tales e Susan já tinham o documento há muito mais tempo que nós. Mas confesso que percebi logo nos primeiros meses de trabalho, que ambos, não conseguiam enfrentar muito bem todas aquelas pessoas que entravam na livraria à procura de um determinada obra e acabavam simplesmente se deparando com artistas de renome mundial, trabalhando bem ali na sua frente. A primeira reação deles era pedir os seus autógrafos e algumas selfies, mas depois que percebiam que nenhum dos dois estava ali de férias, saiam bem rapidamente dali, dizendo aos quatro ventos que sentiam muita pena deles e ainda aconselhavam quem estava por perto a não escolheram à arte como a única e principal fonte de renda em suas vidas.
Confesso que foi bem difícil assistir a tudo aquilo. Pois isso poderia acontecer com qualquer um. Uma demissão inesperada por exemplo. A pessoa não precisava ser apenas um artista para que a adversidade chegasse a sua porta sem aviso prévio. Mas o caso é que como eram figuras públicas, todos se achavam no dever de dar conselhos à eles sobre finanças e em como deveriam levar as suas vidas dali para frente. O que foi um prato cheio para os paparazzi, por exemplo; que esperavam a gente sair da livraria ao final de um expediente muito cansativo, para que alguns se atrevessem a tirar fotos dos dois como se aquilo fosse algum subemprego que não fosse válido para artistas daquele calibre fazerem.
Érica e Tales entendiam aquilo muito melhor do que nós duas. Pois no trajeto de casa, nos diziam que eles tinham escolhido aquela vida e que não poderiam tratar mal aquelas pessoas que também estavam fazendo o trabalho delas também. E assim, pela exímia educação dos dois os paparazzi meio que caíram na real e passaram a fazer matérias sobre eles enfatizando que o cinema estava precisando daqueles talentos novamente em seus elencos. E assim, em questão de apenas algumas semanas, passamos a receber em nosso apartamento, diversas propostas de filmes e séries para os streamings novamente.
Porém, Érica e Tales tinham gostado tanto de trabalhar na livraria com a gente que começaram a recusar todos aqueles papéis que não tinham mais sentido para eles. Quem dirá as suas carreiras também. E assim, nos prontificamos a ampliar aquela sociedade que logo cheiraria a novas filiais mundo afora. Bastava saber na maneira em que íamos fazer aquilo, tendo em vista que, as empresas de inteligência artificial tinham começado os seus pedidos cada vez mais exorbitantes em nossa livraria, na compra de obras raras que provavelmente iriam alimentar os seus data centers, fazendo o devido descarte daquelas obras logo em seguida.
A batalha estava apenas começando. E todos nós víamos que o mundo talvez fosse presenciar o início da destruição de livros e da leitura num futuro não tão distante senão tomássemos a devida precaução. E cabia a nós enfrentar a inteligência artificial, se quiséssemos preservar a criatividade humana, num mundo cada vez mais difícil de encontrá-la, sem que algo tentasse escravizá-la perpetuamente.
