• Sobre o Autor

Guilherme Müller

  • O voo para a morte

    junho 12th, 2025

    Ágata tinha visto no noticiário local a queda daquele avião na Índia, matando 290 pessoas, sendo que 7 eram portugueses que estavam indo trabalhar em Londres, na Inglaterra. Uma pessoa sobreviveu. Saiu caminhando pelas ruas preocupado com o seu irmão que estava sentado em outra fileira no avião.

    A imagem era muito impactante. O avião mal conseguiu levantar voo e não conseguiu a sustentação necessária para voar entre as nuvens indo em direção à um prédio local.

    Mas o que deixou Ágata impactada não foi aquele acidente e sim, aquele homem que saiu andando pelas ruas da Índia dizendo que estava naquele voo. Ele começou a mostrar a quem quisesse o seu cartão de embarque para comprovar que não era louco da cabeça. Todos acreditaram na versão do homem, pois ele estava todo sujo de sangue fresco.

    Como retomamos nossas vidas depois de um trauma como aquele?

    O que seria daquele homem que não conseguia em hipótese nenhuma encontrar o seu irmão com vida?

    Por que Deus tinha deixado somente um sobrevivente?

    Algumas perguntas não tinham respostas imediatas. Mas Ágata logo se prontificou a servir como voluntária para fazer a evacuação do local. Ela até conseguiu encontrar os corpos dos sete portugueses e com a ajuda da polícia indiana conseguiu identificá-los com testes tecnológicos. E assim, retornou para Portugal trazendo seus compatriotas em caixões com honras de estado.

    O difícil foi notificar a família dos envolvidos que fizeram enterros restritos sem que houvesse nenhuma intervenção da imprensa sensacionalista. Mas é claro, que o presidente de Portugal compareceu a todas as cerimônias reservadas e fez até discursos reafirmando que o sangue de todo o português pulsava em uma nação inteira que estava em completo luto, por apenas 7 dias, é claro.

    Os Estados Unidos investigaram a caixa preta do avião e descobriram que tanto o piloto como o co-piloto, disseram pelos seus rádios a tão temida palavra Mayday, minutos depois do início do voo, indicando que foi uma falha mecânica e não técnica.

    Depois de um certo tempo, a Índia acabou fazendo um monumento para honrar a vida daquelas pessoas. E muitos iam lá para colocar buquês de flores, principalmente quando tinha alguma recepção de outros governos de estado.

    Portugal veio a decretar sete dias de luto, mediante aquela catástrofe na Índia. Mas tivemos uma comoção geral em todo o País, pois nos cafés todos começaram a pensar que poderia ter acontecido com qualquer um. Pois a maioria dos portugueses tinham o hábito de sair do país para buscar melhores condições de vida em outros. E assim, de uma hora para outra ninguém mais passou a confiar em voos de avião e a empresas começaram a fazer propaganda em telejornais reafirmando o contrário.

    Os cruzeiros tiveram um aumento bem exponencial, e assim, as pessoas começaram a preferir cruzar o atlântico de navio ao invés de avião, dizendo que era melhor em termos sustentáveis e ecológicos também.

    Mas depois de um certo tempo, as pessoas simplesmente esqueceram aquele incidente na Índia e tudo voltou ao normal. As empresas de aviação voltaram a vender passagens aos montes enquanto que o fluxo nos aeroportos se estabilizou da mesma forma caótica de sempre.

    As notícias eram engraçadas… – pensava Ágata – No mesmo dia do incidente do avião na Índia, também era o dia em que Portugal assinava nos Mosteiro dos Jerónimos, o Tratado de Adesão as comunidades Européias, fazendo uma transformação profunda na economia e na sociedade portuguesa. Pois antes da adesão, o salário mínimo variava entre apenas 299 euros até no máximo 443 euros; e depois do pacto de sangue, passou a ser de 800 euros aproximadamente e escolaridade obrigatória de até os 18 anos de idade pelo menos.

    Mas ninguém se importava com isso, pois os imigrantes ainda estavam em terras lusas tirando o trabalho dos ditos portugueses mais puros. Enquanto os nascidos na terra do Cabral, optavam por ir viver em outros países que pagavam melhor, deixando assim, suas terras nas mãos daqueles que mereciam mais o título de cidadãos ilustres.

  • O Dia de Portugal, de Camões e das comunidades portuguesas

    junho 11th, 2025

    Aquele dia no calendário tinha sempre um novo gosto para Ágata. Ela tinha visto recentemente, uma escritora discursar diante do presidente da república portuguesa, enfatizando que não havia português mais puro que outro. Pois na raiz da formação daquele país, houve-se uma mistura de raças que era quase que impossível discernir quem era de origem totalmente européia daqueles que poderiam ser latinos ou até mesmo africanos.

    É claro que os políticos que eram considerados mais à extrema direita se contorceram em sua cadeiras diante daquela fala que era repercutida no momento em que os militares desfilavam em praça pública. Dava a entender que eles não queriam mais ouvir aquelas baboseiras que saiam da boca de uma pessoa possívelmente envolvida com o comunismo ou socialismo. Mas não teve jeito, pois o presidente português acabou dando voz para aquela escritora, que simplesmente devastou as opiniões fascistas que estavam adentrando a sociedade portuguesa como se uma raça pura pudesse se sentir no livre arbítrio, de governar aquele país que se miscigenou ao longo dos séculos, trazendo para a sua mão de obra os escravos que mal tinham direito por suas vidas e por seu trabalho.

    Ao final do discurso, a tal escritora foi aplaudida incessantemente por aquela multidão que esperava escutar aquelas palavras de consolo mediante a raiva que governava a maioria dos portugueses que simplesmente achavam que os imigrantes eram pessoas desprezíveis que queriam roubar suas oportunidades de trabalho. O que não era verdade! Pois o ódio aos imigrantes vinha de longe. Vinha dos avós que não gostavam dos negros e nem de gente que não comungava com a crença ao cristianismo e por aí ia.

    Ágata amou aquele discurso e assim, quando alguém era destratado em plena praça pública por ser um simples imigrante querendo melhores oportunidades em sua vida, o preconceito era logo colocado na cadeia com sentença marcada e tudo. E assim, as manifestações públicas faziam questão de mostrar o rosto do tal criminoso em plena assembleia constituinte.

    Como consequência, a família do criminoso também ficava conhecida em toda a aldeia por aqueles atos dignos de menosprezo. E assim, tinham que ser exilados em outros países para não serem mais reconhecidos em plena praça pública.

    A sociedade melhorou muito desde aquele discurso potente da tal escritora famosa diante daqueles parlamentares portugueses. O povo ficou com medo de expressar sua raiva diante daqueles imigrantes ilegais que passaram a ter mais direitos do que os próprios portugueses.

    O salário mínimo aumentou exponencialmente trazendo mais conforto para todos os envolvidos que não precisavam mais ir para a França para buscar melhores condições financeiras. E assim, alguns portugueses até voltaram do exterior com novos sonhos de refazerem suas vidas em suas próprias cidades natais.

    A economia cresceu e com mais instrução na educação, os portugueses passaram a respeitar outras culturas que estavam entranhadas nas peles de todos aqueles imigrantes que apareciam em aeroportos pensando que tinham encontrado finalmente à tão sonhada terra prometida. Mas que depois de alguns meses, em solo português, descobriam um gosto bem amargo em seus lábios que pediam mais aceitação e respeito por ser quem realmente eram. Apenas imigrantes que queriam trabalhar e construir novas vidas que foram negadas em suas pátrias corruptas de dignidade e bem estar social.

  • As diversas raças que formam um país

    junho 10th, 2025

    Eram tempos sombrios novamente. Por alguma razão, a extrema direita tinha tomado o poder em diversos países, inclusive em Portugal. Agora não era mais permitido a livre circulação das pessoas. As alfândegas dos aeroportos estavam com muita raiva em seus olhos. Perguntavam sobre tudo. De onde vinha, por quanto tempo pretendia ficar e se tinha vistos de trabalho ou residência. Caso não tivessem nenhum deles era imeditamante deportado sem pena nenhuma.

    Os imigrantes regularizados em Portugal tinham que imitar os sotaques regionais para passarem desapercebidos pelo crivo policial. Mas mesmo assim, viviam com o terrível medo por perto. Pois a qualquer momento poderiam ser deportados sem qualquer motivo aparente. As ruas foram ficando cada vez mais vazias e quase não se via mais aquele fluxo prazeroso de turistas falando abertamente suas línguas maternas. Porque agora o medo imperava.

    Ágata não conseguia mais identificar a origem das pessoas, pois agora os próprios imigrantes ilegais se passavam por outras pessoas, mentindo até sobre a sua história de vida para que assim, pudessem preservar suas vidas naquelas lugares históricos.

    Agora o lema era Portugal para os portugueses e isso era extremamente triste. Pois não se via mais o brilho no olhar daqueles que não eram dali. Poder visitar um lugar ou até mesmo morar nele era o lema dos viajantes sem teto e isso tinha sido tirado dos mochileiros e ciganos de plantão. O turismo foi quase que extinto, pois as pessoas ficavam com medo de transitar em aeroportos e de acabarem sendo maltratadas por autoridades que desconfiavam até de suas próprias sombras.

    Ágata assim acabou perdendo o encanto de passear pelo Porto e por Lisboa, lugares que antes, estavam repletos de culturas distintas que se misturavam com o comércio local elevando assim, os padrões europeus para sempre.

    Mas nem tudo estava perdido, pois diversos intelectuais se uniram mais um vez, para combater essa política extremista em seus respectivos países. E Ágata sabia da força que ela tinha para combater políticas retrogradas como aquelas. E assim, começou a escrever colunas em diversos jornais de Portugal, mostrando todas as atrocidades que os policias de plantão cometiam com pessoas estrangeiras. Onde muitas acabavam sendo deportadas no meio de seus expedientes de trabalho, sem qualquer garantia de seus direitos humanos de volta.

    Muitos chegavam em seus países como se fossem prisioneiros de guerra, com correntes nos pés e algemas nas mãos. Mesmo elas alegando que não tinham feito nada de errado nos países estrangeiros, pois muitos conseguiram comprovar nos tribunais internacionais, que estavam totalmente legalizados com os seus vistos.

    Como consequência daqueles atos antidemocráticos, os juízes decretaram que todos os estrangeiros passassem a ter cidadania portuguesa, para que assim, não recebessem uma alta indenização em euros pelo erro cometido.

    Os estrangeiros não tiveram escolha. Optaram pelo acordo, pois sabiam que agora, com o cartão cidadão em mãos, poderiam circular por muitos mais países que antes. Mas mesmo assim, foram fiéis a bandeira de Portugal e voltaram para a terra lusa como mártires. Por acreditarem que os países tinham que legislar novas leis que dessem aos seus cidadãos e não cidadãos à livre circulação, para que assim, pudessem depositar suas almas em alguma nação que sentiam mais ligação que as suas próprias cidades natais.

  • A chegada da extrema direita em Portugal

    junho 3rd, 2025

    Ágata esvaziou toda a sua biblioteca mais uma vez. Disse para as suas amigas que só leria livros agora pela internet. Queria ter mais espaço em sua casa para receber seus estudantes e amigos próximos. E para isso, resolveu derrubar a sua biblioteca, que ficava em seu escritório e assim, aumentou a sua sala de estar para recebê-los melhor.

    Passou a acreditar que o verdadeiro intelectual era aquele que estava no meio do povo ou em alguma manisfetação à favor dos direitos humanos. E não entrevado em algum escritório escrevendo e repensando a sociedade. E assim, resolveu nunca mais encher sua casa de livros, somente de gente.

    Ágata criou sarais literários em sua casa e gostava muito de ouvir seus estudantes e amigos discursarem sobre literatura, política e arte. Ficava sempre atenta quando dava alguma briga onde um pensava em salvar o mundo, enquanto o outro dizia que só queria viver sua vida em paz sem que fosse preciso fazer nenhuma rebelião para isso.

    Ela apaziguava toda a situação. Ia pegar água com açucar para seus convidados enquanto eles já estavam tomando uísque com soda. Era uma confusão só. E assim, Ágata resolveu suspender as reuniões em sua casa alegando que queria voltar a viajar para aprender com o mundo novamente. Não era nada pessoal e todos entenderam perfeitamente. Seus amigos ficaram encarregados de cuidar de seu apartamento no Porto, enquanto ela escrevia seus habituais artigos no jornal.

    Em questão de semanas ela ia da Alemanha à Rússia sem ter nenhum problema aparente. Gostava de ter por perto sua mochila esfarrapada e sua mala que já estava toda tricanda pelos danos da alfândega. Mas Ágata não se importava com nada daquilo, pois ela acreditava que o dinheiro era somente para viajar e nada mais. Por isso que sempre usava as mesmas roupas.

    De tempos em tempos voltava ao Porto onde seus amigos celebravam em restaurantes o seu regresso com muito estardalhaço. Ágata comia e bebia muito e gostava de dormir cansada depois de meses viajando. No dia seguinte, tinha novas ideias para escrever e recomeçava escrevendo artigos para os jornais que se divertiam com suas colunas.

    Ágata voltava com uma energia feroz por leitura. Ia a Livraria Lello para ver as novidades da semana e comprava todos os jornais disponíveis para ver o que estava acontecendo no mundo. E assim, depois de nutrir o seu espírito. Voltava para os seus compromissos de trabalho totalmente rejuvenescida. Dava suas aulas e escrevia nos jornais. Era uma rotina que não dava para cansar. Pois o importante era viver no presente.

    Ela gostava de guardar o seu dinheiro em casa. Ia aos bancos e dizia para o gerente que queria encerrar suas contas pois queria ter dinheiro imediato. E assim, quando se dava por sí, já tinha um montante dele sem sequer contar direito. Costumava pegar um belo montante dele e ajudar os pedintes na rua. Se sentia muito mais acolhida do que se tivesse gastado tudo com suas impulsividades.

    O tempo passou e sua atividade preferida ainda se mantinha a mesma. Adorava ver os turistas caminhando perto do rio Douro ou quando não, ia para os aeroportos ver as pessoas chegando e indo embora. Mas quando a extrema direita chegou ao poder no país tudo mudou.

    O governo assim que sentiu o gosto do poder em seu hálito, decretou a retirada em massa dos imigrantes do país. E olha que muitos estavam totalmente legalizados. Mas de nada adiantou. E assim, Ágata começou a presenciar o choro de desespero nos locais de embarque e desembarque.

    A situação ficou tão feia que ela quase não via mais turistas na cidade do Porto. As pessoas perderam logo o interesse de visitar o país. Mas de nada adiantou. Os portugueses agora não era mais solicitos com os brasileiros. Cuspiam neles e muita das vezes a polícia prendia os imigrantes sem ter nenhum motivo aparente.

    A hora tinha chegado mais uma vez!

    Pensava Ágata. E assim, ela reuniu secretamente o grupo de mercenários que se encarregariam de caçar todos os políticos responsáveis por aquelas políticas extremas no país. Mas para isso, Ágata teria que voltar a treinar com armas novamente.

    Depois de meses reunindo os melhores mercenários do mundo, Ágata enfim, estava pronta para tentar conter a extrema direita no país. Pois ninguém queria que os brasileiros sofressem em terras estrangeiras. Ela teve que desembolçar uma boa quantia de dinheiro para pagá-los, mas no fim, valeu a pena.

    O plano era simples. Era tentar fazer com que eles mudassem aquela política extrema de deportação e assim, dar o devido asilo à quem quisesse ficar em terras lusas produzindo. Mas infelizmente, os integrantes do governo não temeram aqueles mercenários e assim, eles tiveram que torturá-los para que fosse feito o que Ágata queria.

    Depois dessa ofensiva, o governo de extrema direita de Portugal pediu demissão e rapidamente foram feitas outras eleições, que elegeram um partido de esquerda que tinha em sua visão de governo um país feito com mãos de outras nacionalidades também. Pois acreditavam que a economia de todo o país era feita com a força de imigrantes. Porque só assim, Portugal iria prosperar e crescer novamente.

    Ágata rapidamente voltou aos aeroportos do Porto e de Lisboa para ver a recepção de imigrantes em terras lusas. E para a sua surpresa, os brasileiros vinham com um sorriso enorme em seus rostos. E assim que apoivam os seus pés em Portugal, agradeciam a Ágata por aquela dádiva de viver em um outro país onde ganhariam em euros e não mais na falência de um real que um dia chegou a ser mais valorizado que a moeda local.

  • A ilusão das redes sociais

    junho 2nd, 2025

    Ágata sempre gostou da diversidade de ideias. E tendo isso em mente, tratou logo de criar um grupo para discussões na Livraria Lello, no Porto. E assim, logo surgiu diversas intelectuais que trataram logo de levar seus filhos e amantes para aquele aconchegante lugar onde as escadarias faziam o papel de anfitriã.

    Todos tinham lugar de fala e normalmente era aberto um tempo cronometrado onde as pessoas poderiam falar sobre o que quisessem, para que pudesse ter um certo engajamento. E é claro que não demorou muito e aquilo acabou se transformando em um lugar onde as pessoas falavam abertamente sobre os seus problemas pessoais e o que elas poderiam fazer para resolvê-los.

    Ágata num primeiro instante, até tentou dizer que aquela roda de conversa não era para aquilo, mas logo se viu numa encruzilhada e acabou deixando que as pessoas pudessem se expressar com o que tinham em mente. E é claro que vieram alguns psicólogos e psicanalistas especializados que acabaram tirando o holofote daquela personagem principal.

    Uns alegavam que estavam passando por problemas conjugais seríssimos, enquanto outros, alegavam que não tinham aonde morar pois eram imigrantes ilegais.

    Ágata ficou sem saber o que fazer, mas logo utilizou o seu próprio apartamento para abrigar alguns imigrantes que não tinham o visto necessário para permanecer ali. E assim, os outros voluntários também trataram de fazer o mesmo.

    O círculo acabou aumentando e com o tempo, as pessoas acabavam se acotovelando para escutar esse grupo de estudos na livraria mais bonita do mundo. Gostavam de saber da vida dos outros e como seus semelhantes lidavam com os seus próprios problemas pessoais. Voltavam para as suas casas comentando que sicrano era abusado, gastão, irresponsável, agiota, gigolô, folgado ou até mesmo fora da lei. Mas no final, diziam que iriam pensar melhor nesses adjetivos e acabavam desculpando os erros dos outros se lembrando de que também eram apenas pessoas falhas que não tinham a hombridade de falar sobre os seus próprios empecilhos pessoais na frente de qualquer um.

    Os encontros aconteciam apenas uma vez por semana e todos tinham que confirmar à presença na semana seguinte como se fosse um compromisso com hora marcada no tribunal. O grupo de 10 foi para 20; fato esse que deixava a livraria um pouco congestionada as vezes. Mas Ágata sempre marcava um horário que não atraia muita a atenção dos turistas mais diurnos. E assim, duas horas antes de fechar o estabelecimento, a gerente da livraria fechava o local, para que o grupo ficasse mais à vontade com a livraria deserta.

    O grupo se desenvolveu e acabou progredindo na vida. Muitos conseguiram resolver os seus problemas pessoais de uma maneira leve e agradável para os olhos de quem está julgando e analisando o tempo todo; e assim, quando Ágata se deu por sí, já estava imersa nele a praticamente 1 ano. Contando suas falhas e delírios do dia a dia.

    Ela gostava de ver que aquelas pessoas tinham aprendido a escutar e não à julgar, tornando um ambiente muito acolhedor de se estar e pensar. E assim, um belo dia, o grupo se desfez e nunca mais teve o privilégio de se reunir novamente.

    Ágata volte e meia até encontrava alguém daquele grupo andando pelas ruas do Porto, mas preferia fingir que não as reconheciam, para evitar maiores problemas. Mas tinham outros que faziam questão de cumprimentá-la e agradecê-la por ela ter aberto aquele espaço de escuta em suas vidas.

    Muitos se tornaram grandes figuras públicas que só tiveram a oportunidade de abrir suas almas naquele instante em suas vidas. Pois Ágata agora via nos jornais aqueles rostos todos seguros de sí que não demonstravam mais todas as suas incertezas e melancolias aos seus semelhantes, pois na fama não era lugar de fazer isso, acreditava ela. Porque agora, a grande maioria tem o hábito de viver em redes sociais vendo a beleza de sua vida, enquanto que na realidade, todos continuavam sentindo as mesmas incertezas de antes, só que agora, ninguém tinha mais a coragem de mostrar para o mundo as suas falhas e arrependimentos que poderiam ser discutidos em consultórios terapêuticos que escutam tudo, mas são incapazes de aconselhar ou até mesmo guiá-los até um caminho seguro que esteja livre de tombos e penhascos inevitáveis.

  • Uma nova utopia digital que nos leva a sabedoria

    maio 23rd, 2025

    Pela segunda vez consecutiva, Ágata teve que desvaziar os livros que entupiam seu apartamento novamente. Só que agora a tarefa era muito mais difícil, porque dessa vez, ninguém se interessava por aqueles livros pouco conhecidos do grande público. E assim, ela mesma providenciou de colocá-los na frente da portaria de seu prédio, para que os turistas pudessem pegar e descobrir neles grandes mundos ainda desconhecidos.

    E para a sua surpresa, na hora do almoço, quase não tinha mais nenhum livro nas calçadas ladrilhadas do Porto. Ágata de sua sacada ia vendo alguns turistas parando na entrada de seu prédio e olhavam para os lados com um certo receio de pegar algo totalmente de graça, em praça pública. Mas no fim, saiam todos satisfeitos com o presente dado por alguém que desconheciam de suas vidas.

    Ágata gostava da experiência de preencher aquelas estantes de madeira com livros novos. E assim que podia dava os que lia e preenchia o espaço vazio com os que ainda não tinha lido. Porém, ultimamente ela estava se interessando muito por filosofia. Gostava de ver como os gregos, os medievais e modernos pensavam a existência humana, a divina e o surgimento da ciência como método científico.

    Refletia muito sobre a sua época e o advento da inteligência artificial na contemporaneidade. E assim, começou a fazer perguntas sobre a hipótese de aquilo estar beneficiando ou prejudicando a sociedade em sí. Pois antigamente os filósofos se preocupavam muito com o desenvolvimento de seus pensamentos; porém, agora, parecia que as pessoas estavam mais preocupadas com os seus engajamentos e números de seguidores nas redes sociais e nada mais. Prejudicando assim, sua própria evolução como ser humano. Fato esse que não acontecia antigamente. Porque nesse período da história, os estudiosos se preocupavam muito com as questões morais e éticas que faziam com que a ciência avançasse.

    Enquanto na contemporaneidade, as pessoas preferiam seguir os influencers como se eles fossem os novos profetas da terra, comprando o que eles usavam e até se alimentando com o tipo de comida que eles comiam, pois assim, conseguiam estar dentro dos padrões impostos pela nova sociedade moderna.

    Porém, isso acabava gerando um vazio existêncial muito grande, porque rapidamente o que estava na moda ontem, já não está mais no dia de hoje. E assim, nosso cérebro acaba sendo massacrado com informações totalmente irrelevantes até o final do dia. Ou seja, não estou dizendo que a tecnologia é algo totalmente prejudicial para o ser humano, mas as escolas e o núcleo familiar precisam educar essa nova geração consumista a nutrir seus espíritos com conhecimento de qualidade com pessoas mais bem qualificadas do que simplesmente influencers de maquiagem.

    Aos poucos, Ágata foi escrevendo esses pequenos artigos nos jornais locais de Portugal e imediamente outros jornalistas e filósofos também começaram a fazer o mesmo ao redor do planeta, para que esse fluxo de desinformação e fake news parasse de nutrir a mente da sociedade desavizada e sem filtro.

    Pois uma enxurrada de artigos invadiu as redes sociais alertando ao público que à consome, para que tivessem mais cuidado no consumo, pois o vício na redes prejudicava o cérebro de maneiras ainda pouco estudadas à longo prazo.

    Alguns filósofos alegavam que a sociedade agora não se preocupava mais com o avanço da ciência como antigamente e muito menos com a evolução do desenvolvimento cerebral. E assim, logo se entregavam nas mãos dos influencers para que eles servissem de guia para as suas vidas. Mas o grande problema da contemporaneidade – em suas visões de mundo – era que as vidas apresentadas nas redes sociais não eram reais.

    Como consequência, a sociedade começou a adotar novas medidas para nutrir seus espíritos. Pararam de seguir os influencers que eram vazios e sem conteúdo algum e começaram a seguir os escritores, jornalistas, historiadores, filósofos, economistas e artistas.

    Os governos do mundo passaram a colocar em suas pautas políticas o ensino da educação digital obrigatória nas escolas, universidades e em cursos livres para que a sociedade soubesse mexer em suas redes sociais com mais sabedoria. E assim, automaticamente as redes sociais abriram mais espaços para os especialistas de plantão. E o que antes era consumido aos montes, agora, era nutrido com mais equilibrio do espírito. Passando a ter uma regulamentação mais forte e eficaz do governo em sí.

    Um dos exemplos era o uso em demazia dessas redes, onde os próprios aplicativos tiveram que adotar alarmes de precaução de uso para aqueles que estavam mais do que uma hora usando-os.

    Depois dessas medidas, Ágata começou a perceber as mudanças em seu círculo social, pois antes todos ficavam em cafés e restaurantes olhando para as suas redes sociais como se aquilo fosse mudar suas vidas para sempre. E esqueciam de conversar com os seus pares que ficavam entretidos com aqueles telemóveis sem espírito. E agora, os seus pares deixavam seus celulares na entrada daqueles estabelecimentos, para que pudessem curtir uma boa conversa sem hora para que recebessem um alerta que os fizessem parar de viver.

  • O fracasso da escrita

    maio 15th, 2025

    Ágata estava completamente exausta mentalmente. Pensava em reduzir um pouco a sua jornada de trabalho, mas logo mudava de ideia quando alguém ia lhe procurar para tirar alguma dúvida sobre o mundo. Tentava sempre se doar ao máximo ao seus alunos, pois a satisfação naqueles rostinhos quando eles entendiam algo escrito ou não, não tinha preço.

    Para a sua surpresa, em seus momentos vagos não conseguia ler mais nada, alegava que já tinha lido de tudo que lhe interessava, logo, começou a doar os seus livros da biblioteca de seu apartamento para as universidades locais, que se digladiavam pelos box de luxo de diversos autores importantes do Hall da Fama.

    Depois da extinção de sua biblioteca particular, Ágata começou imediatamente a preenche-la novamente. Ia até a Livraria Lello e comprava autores que não eram clássicos de se pensar e sentir. Achava as leituras bem leves e engraçadas pelo viés da escrita ruim, pois como tinha lido a grande maioria dos clássicos, gostava de acompanhar a trajetória de escritores que não tinham dado certo em sua vida profissional pelo menos.

    Não gostava de ler mais best-sellers também. Alegava que nem tudo aquilo que era considerado modismo, significava que ao longo da passagem do tempo, se tornaria um clássico. Então sempre perguntava aos livreiros de Portugal qual era o livro que não estava sendo vendido e que tinha sido um fracasso comercial em escalas desproporcionais.

    Logo o ato de ler se tornou um hobbie novamente. Gostava de escritores desconhecidos do grande público e que talvez pudessem até ter uma vida pessoal mais agitada e completa do que a dela.

    Mas Ágata não podia reclamar de sua vida. Tinha vindo para Portugal com uma mão na frente e outra atrás e galgou todos os degraus da intelectualidade lusa. Cursou a universidade, estagiou em um grande jornal e por fim, dava aulas nas principais universidades do país enchendo as salas com perguntas e dúvidas à serem tiradas de forma expressa.

    Sua biblioteca logo ficou cheia novamente, mas dessa vez, se sentia muito mais em casa de ter aqueles autores desconhecidos por perto de sua vida, pois ninguém os queria em suas estantes cheias de poeria. Ágata se sentia muito mais acolhida por autores fracassados do que por autores que exalavam sucesso de mídia. Vai saber por qual motivo isso ocorrida. Para todas as suas amigas secretas era um verdadeiro mistério.

    Ela logo começava a citá-los em aulas sobre o mundo e assim, seus alunos também começavam a se interessar por eles como se estivessem descobrindo uma nova mina de ouro pouco explorada por escravos amantes da literatura.

    Alguns começaram logo a ganhar um certo destaque na mídia. E o que antes tinha passado batido aos olheiros de livrarias, agora era alvo de grande destaque em colunas de jornais.

    Mas foi assim que começaram os problemas de Ágata em casa. Pois muitos começaram a ligar para ela dizendo que há muito tempo já tinham largado a carreira de escritores e agora se viam em um redoma onde teriam que voltar a escrever seus próximos volumes de ensaios.

    Foi uma imensa confusão onde alguns desconhecidos tiveram a tão sonhada fama literária. Davam algumas entrevistas para o jornalismo e reuniam forças para continuar o ato solitário da escrita agora em ascensão novamente. Porém, alguns logo desistiram daquilo alegando que estavam vivendo muito bem com os seus empregos de carteira assinada que faziam com que eles não tivessem forças para elaborar enredos e histórias fictícias que outros poderiam vir a amar.

    Mas a grande parte ficou imensiamente grato à Ágata por aquele gesto. E assim, abandonaram empregos fixos com estabilidade e adentraram novamente na insegurança de ser um misero escritor desconhecido.

  • Os poemas não servem para serem decifrados em um curso de anatomia

    maio 14th, 2025

    Ágata estava mais leve e desimpedida. Como ela sentiu falta de suas amigas de Portugal que à faziam pensar na infância deixada no Brasil. Todo dia, pontualmente, todas elas se reuniam em seus cafés preferidos para falar sobre a vida deixada para trás. Tomavam café e comiam croissant no Rio Douro no Porto, enquanto observavam os barquinhos que passavam anunciando o vinho Taylor’s de fabricação própria.

    Ágata as vezes confessava que não estava prestando muita atenção à conversa corriqueira, pois alegava que gostava de escutar as línguas dos turistas. Aquele palavreado estranho e sem nenhum significado aparente que lhe remetiam ao estado de eterna turista lusa.

    Observava aqueles pessoas tentando captar o máximo de informações que podiam com o que viam e liam em museus por ali perto. Como se não quisesem esquecer daquele momento em suas memórias frágeis. E para isso, tiravam fotos de cada passo para não perder o rastreio.

    Ficavam suspresos com a acolhida daquela bela cidade e logo viam as filas enormes para entrar na Livraria Lello. A livraria mais bonita del mundo como diziam os espanhóis.

    Eles rapidamente tentavam comprar os ingressos – já esgotados – no site da livraria sem muito êxito. Dava para ver as reações de decepção nos rostos daquelas espanholas. Ágata achava graça e logo ia informá-las que elas poderiam tentar em um outro dia que tivesse vaga. Mas elas normalmente diziam que não dava tempo. Que a estadia delas era curta e rápida.

    Porém, conforme Ágata ia conversando em outras línguas com os diversos turistas que estavam frustrados, ela logo era reconhecida e instantaneamente aparecia em diversas contas de redes sociais pelo mundo afora. Como sinal de gratidão e gentileza – por escutar elogios à suas obras – Ágata acabava por ela mesma, entrando pela Livraria Lello – que sempre deixava-a com passe livre – e acabava fazendo um tour com os turistas antes tristes e agora alegres.

    Era uma celebração à vida! Diziam eles em muitas línguas e dialetos diferentes.

    Enquanto isso, as amigas de Ágata ficavam a ver os barquinhos à passar, pois já sabiam que aquele dia estava perdido de fofocas. Algumas até pensavam, bem rapidamente, que às vezes, era muito chato ter uma amiga muito famosa daquele jeito. Mas enfim, era a vida em pura desilusão.

    Quando Ágata se dava por si, suas amigas já não estavam mais lá naquele café das redondezas, e assim, resolvia dar uma última volta para pensar melhor antes de ir para a casa trabalhar em textos novamente.

    Alguns até poderiam pensar que era uma vida solitária e sem sentido algum. Mas Ágata à adorava e muitas das vezes até à idolatrava.

    Em casa, normalmente escovava os seus dentes bem cedo para se dedicar exclusivamente às diversas leituras sobre o Brasil e o mundo. Ficava bem chateada por não conseguir ler alguns poemas de seus autores prediletos, mas depois com uma certa insistência, retornava à eles e acabava irrigando bem o seu espírito, com a arte misteriosa e secreta de poemas que ainda não foram escritos, para serem decifrados em um curso de anatomia.

  • As outras línguas que escuto pelas ruas

    maio 5th, 2025

    Ágata gostava de ficar observando o fluxo de pessoas indo e vindo, na rua lá embaixo, cercada por policiais de plantão, por causa de sua prisão domiciliar. Mas dentro de seu apartamento era uma pessoa inteiramente livre. Escrevia, lia, dava aulas e palestras sobre um determinado assunto em específico que ela normalmente dominava com muita aptidão.

    Para receber algum convidado, de seu agrado, normalmente tinha que passar pelo crivo dos policiais lá embaixo. Mas dificilmente eram barrados. Dentro daquele apartamento, estavam todos liberados para pensar sobre o que quisessem; e assim, faziam planos para possíveis artigos ou simplesmente, resolviam escrever algum conto ou crônica em parceria.

    Ágata dificilmente acordava indisposta com algum assunto em específico. Ela simplesmente adorava ter algo para pensar profundamente, para que assim, pudesse escrever sobre. Sempre de uma maneira leve e divertida para quem lesse, mas jamais para quem escrevia.

    Os dias passavam muito depressa. E muitas das vezes, Ágata se esquecia de manter uma alimentação saudável, pois sempre pulava as refeições essenciais e só pensava em comida quando não tivesse mais nada para escrever ou discursar.

    Um belo dia, se reuniu com alguns estudantes que estavam lendo a sua obra para concluir seus cursos de mestrado e doutorado e ela simplesmente adorou como eles se expressavam diante da autora. E muitas das vezes, ela ficava sem entender nada sobre o que estavam dizendo, pois quem escreve nunca imagina que alguém possa estar tentando decifrar todos os segredos deixados em frases e parágrafos soltos no meio de um texto em questão.

    Muitos saiam de lá não conseguindo decifrar direito o que aquela autora queria dizer em certas partes de seu texto, mas a própria autora ficava muito intrigada com aquilo, pois alguns leitores com muito menos estudos que aqueles acadêmicos, acabavam entendendo tudo o que era escrito e dito de uma forma muito mais clara e objetiva do que aqueles estudantes universitários. Talvez, pensava ela, fosse esse o próprio problema da contemporaneidade. Pois quanto mais estudos uma pessoa tivesse, mais pensamentos complexos elas tinham. E as vezes, um escritor só queira falar com a massa da maneira mais natural possível. Enquanto os catedráticos só querem filosofar sobre algum texto ou livro que foi lido para os seus semelhantes, se distanciando assim, do povo e da sociedade de uma maneira geral.

    Ágata não queria que os seus textos e livros fossem discutidos na universidade, e sim, nos cafés e bares ao redor do globo. Mas sempre se disponibilizava para conversar com a safra da sociedade que se achava mais intelectualizada, explicando para eles que as vezes um escritor só queria ser lido como entretenimento depois de um longo dia de trabalho apenas e nada mais.

    Os anos foram se passando e enfim, Ágata foi liberada de sua prisão domiciliar. Na manhã daquele dia em específico ela não teve vontade de sair de seu apartamento aconchegante. Pois já estava adaptada a vida em total reclusão. Dizia que pensava e escrevia melhor daquele jeito, sem ter contato algum com o mundo exterior. Mas com a liberdade recém concedida, a tarde resolveu dar uma volta pelo Porto para ver os turistas e ao mesmo tempo, entrar em contato com aqueles línguas estrangeiras que eram sussurradas em seus ouvidos novamente.

    Avistou algumas amigas que lhes deram os parabéns e foram logo almoçar em um restaurante local para colocar o papo em dia. Pediram carne de vitela e um bom vinho branco para o acompanhamento e assim, passaram à tarde toda jogando conversa fora.

    Ao término da tarde, Ágata já estava pronta para escrever novamente. Era como se toda aquela adrenalina acumulada em anos de reclusão agora estivesse livre para que ela pudesse acumular outras experiências artísticas. E assim o fez.

    Religiosamente escrevia pela manhã indo até a hora do almoço. Depois ia sempre visitar a Livraria Lello para ver as novidades no mundo literário, onde normalmente era reconhecida na hora em que entrava por lá. Dava alguns autógrafos em seus livros sempre reeditados e tirava algumas fotos como se fosse ainda uma voz à ser seguida por aquela nova geração.

    Ágata sempre pensava em seu sucesso com muito carinho. Pois sempre pensou que talvez ainda pudesse ter vozes que talvez jamais seriam ouvidas no mundo da literatura. E por essa razão, sempre estava lendo os livros mais atuais para que assim, pudesse econtrar novas vozes para dialogar com o seu pensamento.

    Gostava de conhecer novos escritores que traziam um certo brilho em seus olhos, como se aquela profissão fosse a melhor do mundo. E talvez, realmente fosse. Pois podia-se imaginar de tudo, porque no campo da literatura tudo era permitido e nada era negado à ninguém.

    Bastava você pensar em personagens complexos ou simples, com diálogos profundos ou rasos que lá estava uma história que valeira muito à pena ser contada e digerida pela sociedade que sempre precisaria de arte para poder sobreviver a tanta realidade desgastada.

  • A prisão domiciliar

    maio 4th, 2025

    Ágata estava pensando em retornar para Portugal, para talvez, buscar algum asilo político, tendo em vista que os portugueses sempre foram seus seguidores fiéis. Sendo assim, finalmente decidiu vender o seu veleiro com tudo dentro. O comprador ou compradora, iria levar de lambuja, uma biblioteca com os mais variados ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura de épocas distintas.

    A felizarda tinha sido uma singela francesa de Paris. As duas marcaram de se encontrar secretamente na França. Seu nome era Sophie e era muito simpática e gentil. Aceitou pagar tudo à vista sem pestanejar. Disse para Ágata que iria preservar tudo como tinha encontrado, mas iria adicionar alguns escritores franceses aquela biblioteca o quanto antes.

    Na decorrência dos fatos, Ágata rumou para Portugal com aqueles documentos falsos de sempre. Aterrizou no Porto como de costume e já foi logo se informando das novidades na Livraria Lello. Viu na vitrine alguns novos escritores recém descobertos e tratou logo de comprar alguns livros e boxes exclusivos de seus favoritos para colocar em seu apartamento no Porto.

    Chegando por lá, colocou as malas na sua sala de estar e já foi logo folheando aqueles livros que tinham cheiro de novos recém saídos das embalagens à vácuo. Depois de algum tempo se perdendo naquelas histórias, resolveu ligar para as suas amigas mais próximas para dizer que estava de volta a ativa. O que acabou gerando uma comoção nacional, pois ninguém sabia guardar segredo naquele país minúsculo. E assim, a notícia acabou indo parar nos jornais regionais.

    Na manhã seguinte, a polícia já estava em sua porta batendo-a como se não fossem velhos amigos. Ágata acordou sobressaltada com aquele estrondo e foi ver logo o que era. Abriu a porta e se deparou com um mandato de prisão onde ela teria que cumprir em Portugal por causa de tudo o que tinha feito no exterior.

    O policial alegou que ela estava sendo presa por ter matado o presidente da Rússia e dos Estados Unidos, além é claro, de ter incitado o Anarquismo por onde quer que os seus escritos tenham passado, com ondas de manifestação em diversos países que tenham traduzido os seus escritos, contos, crônicas e artigos de jornais também.

    Ágata se olhou por uma última vez no espelho e pegou imediatamente sua mala que ainda não estava desfeita e assim, se dirigiu ao corredor de seu apartamento com um monte de policias em seu encalço para se certificarem da apreensão.

    Os portugueses ficaram muito revoltados por estarem prendendo uma ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura. E assim, resolveram fazer diversas passeatas pelo país como sinal de indignação. Gerando uma comoção nacional e internacional também. Pois os jornais internacionais noticiaram a prisão de Ágata em suas capas matinais. Mostrando ela com cabelos azuis sempre desgrenhados e logo atrás, os policiais lhe empurrando para dentro daquele camburão mal cheiroso.

    Os juízes daquele caso acabaram passando por uma enorme pressão em suas vidas particulares e alguns tiveram até que reforçar sua segurança particular. Mas o caso foi julgado em algumas semanas e o decreto final foi que Ágata passaria à prisão domiciliar devido a sua esquizofrênia, que seria muito mal tratada se ela fosse ficar em alguma prisão sem os cuidados paliativos necessários para o controle da doença.

    Os portugueses vibraram com aquela sentença como se o país tivesse ganhado uma copa do mundo. Com telões espalhados por toda Portugal, para que o povo pudesse acompanhar o julgamento do século.

    Ao término da sentença, Ágata voltou ao seu apartamento sendo escoltada por seguranças e policiais que ficavam de plantão na rua lá embaixo para evitar que ela pudesse receber visitas inadequadas. Mas como ela sempre tinha sido uma nômade digital, Ágata acabou recebendo diversas ligações para que ela voltasse a escrever nos principais jornais de Portugal e do mundo. E assim, o fez.

    Escrevia artigos sobre Política, Econômia, Cultura e Arte para os jornais locais e internacionais também. E até levou um susto quando viu sua conta bancária lotada de dinheiro novamente. Secretamente passou a editar os jornais de Portugal novamente. E agora até dava aulas nas Universidades que tinha pedido demissão lá atrás. Realizava diversas conferências mundiais em seu apartamento. Dando palestras e aulas sobre geopolítica mundial.

    O tempo que tinha ficado presa?

    Isso para Ágata não importava pois o que ela mais queria era ser uma intelectual de respeito. E por mais que estivesse presa em seu apartamento por um tempo indeterminado, sua mente estava livre para poder criar, discursar e escutar outras mentes que pensavam como o mundo deveria ser em um futuro próximo e ela gostava de fazer parte daquela nova civilização livre de ditadores e fascistas novamente.

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