Expandir não era um negócio fácil. No início, pensávamos que cresceríamos a passos largos, sem fazer muito esforço. Mas aí vieram as pausas nas carreiras tanto de Érica como a de Tales também. Susan sempre acordava muito preocupada com aquilo, pois pagar aluguel em Manhattan não era nada fácil e por mais que o dinheiro estivesse entrando a partir daquelas duas livrarias que tínhamos, quase nunca conseguíamos fechar com uma certa margem de lucro.
Como o nosso apartamento tinha dois quartos com suíte, cozinha, escritório e sala de estar, logo pensamos em nos desfazer do apartamento que Tales tinha com a Susan, e assim, poderíamos comprar aquele em que estávamos morando. Pois por mais que Tales fosse um ator de Hollywood bastante talentoso; ele só mantinha no banco o suficiente para sobreviver e pagar as suas contas, deixando toda a sua reserva destinada à caridade. E assim, logo que veio à primeira crise existencial dos dois irmãos, não sabíamos quando eles iriam voltar a atuar. Gerando com isso, uma onda de incerteza muito grande e um peso enorme nos ombros meus e de minha sócia Susan também.
Tendo isso em mente, eles logo conseguiram rapidamente um comprador anônimo que pagou uma fortuna por aquele apartamento simples que ficava localizado no trágico Dakota, onde John Lennon tinha falecido na entrada do Hall com cinco tiros nas costas. Dessa maneira, com o dinheiro em caixa, eles logo fizeram uma proposta ao nosso locatário para comprar aquele espaçoso apartamento, onde todos nós morávamos e que não precisávamos ter que recorrer ao transporte público para irmos e voltar do trabalho na livraria, por exemplo; e que ainda por cima, ainda ficava a poucos passos do Central Park, que adorávamos passar os finais de semana fazendo topless.
Fizemos a mudança em definitivo de Susan e Tales e reparei que eles não tinham quase nada naquele antigo apartamento. Apenas duas malas eram mais que suficientes para colocar seus pertences e roupas. Pareciam até dois hippies no centro do mundo.
Depois de instalá-los em nosso apartamento, comprei mais roupas para os dois, porque no trabalho, eles não poderiam ficar repetindo as mesmas roupas. Os clientes poderiam reparar naquilo e achar que era falta de higiene pessoal.
Mas a pergunta que ficava em minha cabeça era sempre a mesma: Até quando eles iriam aguentar aquela suposta vida normal? E a mesma pergunta, quem sabe, a Susan também estivesse se fazendo naquela época, em relação ao seu namorado. Porque por mais que eles se empenhassem em trabalhar e fazer aquele novo negócio prosperar, as vezes, pegávamos eles sonhando com todos aqueles novos projetos que poderiam estar fazendo, naquele exato momento. E o ponto alto disso tudo, foi quando eles estavam assistindo televisão em um domingo qualquer, quando um âncora de um jornal, começou a se perguntar onde estavam aqueles irmãos muito talentosos que os fãs não vinham há um tempão. E se algum dia iriam tornar a vê-los novamente atuando. Pois o jornalista começou a informar a sua audiência de que alguns papéis tinham sido escritos exclusivamente para Érica e Tales, só que outros artistas escalados, acabaram fazendo um trabalho muito abaixo do esperado. Levantando a hipótese de que talvez se eles estivessem escalados naqueles determinados filmes ou séries, talvez as críticas fossem mais positivas do que realmente foram.
Ainda consigo me lembrar do olhar que Érica deu a Tales quando o jornalista falou aquilo. Pareciam que tinham acordado para uma outra vida. Eles imediatamente ligaram para alguns diretores e roteiristas de Hollywood e pediram à eles que mandassem avisar que estavam de volta a ativa. Eu me lembro que olhei para a Susan e nos abraçamos imediatamente por causa daquela atitude inesperada de ambas as partes. Pois sabíamos que misturar amor no ambiente de trabalho, à longo prazo, poderia extinguir completamente o que tínhamos construído com muito suor e determinação.
No outro dia, ao acordar, o porteiro foi logo nos informando que tinha chegado diversos manuscritos para a Érica e Tales; e assim, eu e Susan fomos logo na recepção pegá-los, mal conseguindo acreditar naquilo. Entregamos aquela pilha de originais à eles e fomos imediatamente trabalhar, deixando que eles começassem a lê-los o quanto antes, pois a preparação e leitura dos personagens seria daqui a apenas uma semana com toda a equipe reunida no Empire State Building.
Na volta do trabalho, pegamos os dois fazendo a fala um do outro. E vemos bem de pertinho, como era a elaboração de cada personagem da respectiva trama. Pois em questão de apenas um dia, ambos já tinham decorado todas as suas falas. Deixando eu e Susan extremamente impressionados com aquelas mentes artísticas.
Na outra semana eles ensaiaram com toda a equipe de filmagem e iniciaram as gravações também. Tales iria fazer um empoderado CEO de uma empresa de tecnologia; enquanto Érica, faria uma série policial, onde seria uma agente do FBI que investigaria diversas mortes que estavam acontecendo em Nova York, perseguindo um grupo bem organizado de psicopatas.
Os dois filmes tiveram uma excelente aceitação do público quase que de maneira imediata. Pois na primeira semana de bilheteria e divulgação nos streamings, ambos os trabalhos renderam bons frutos diante da crítica especializada, que disse que ambos estavam deslumbrantes e que os telespectadores quase que os perderiam para a venda e organização de livros na singela livraria: Our Shared Shelf.
Érica e Tales riram muito com aquela crítica que tinha saído nos jornais pela manhã. Alegando que pelo menos o jornalista tinha feito propaganda da livraria gratuitamente. O que acabou rendendo bons frutos a mim e a Susan, pois todos que entravam ali iam logo dizendo aos seus filhos, que aqueles dois atores talentosos tinham trabalhado ali por um tempo. Tiravam diversas fotos da livraria e postavam logo em suas redes sociais. E assim, de boca em boca, o sucesso estava todo exposto novamente. Pois Érica e Tales fizeram questão de explicar aos jornalistas durante a divulgação de seus trabalhos, que tiveram alguns meses sabáticos naquela livraria, onde acabaram se reconectando com eles mesmos; para que assim, pudessem voltar enfim a trabalhar.
Mas depois de algum tempo vieram as críticas à eles como era de praxe em Hollywood, onde os artistas eram amados na mesma velocidade em que os odiavam também. Pois em uma das muitas entrevistas em que Tales fez, por exemplo, ele acabou se posicionando contra as empresas de tecnologia que estavam aprimorando suas inteligências artificias com a hipotética destruição dos livros. Onde depois do uso, os livros ficavam tão acabados que os CEOS dessas empresas, preferiam descartá-los ao invés de buscarem um melhor reaproveitamento para que a sociedade pudesse lê-los novamente.
Do outro lado também, Érica a partir de seu papel na série, aproveitou a sua voz como artista, para se posicionar a favor de tratamentos mais efetivos de pessoas que sofriam de doenças mentais, onde elas não precisariam mais ficar em clínicas especializadas se não quisessem ou não tivessem condições de pagá-las, por exemplo. Pois o governo poderia fornecer o tratamento mais adequado depois do diagnóstico de forma inteiramente gratuita, como acontecia no Brasil com o Sistema Único de Saúde.
Com esses posicionamentos em Hollywood, tanto Érica como Tales acabaram sendo alvo de críticas mais severas diante de parte da imprensa, que os rotulou como hipócritas por estarem falando de temas bem sensíveis no país que não tinham nascido. Pois como todos sabiam, os Estados Unidos eram líder em tecnologia avançada e não poderiam se dar ao luxo de perderem aquela corrida tecnológica para nenhum outro país, mesmo que livros tivessem que sofrer todas as consequências ao serem destruídos. Enquanto que por outro lado, as alegações de Érica também não tinham base científica nenhuma, pois ambos os irmãos tinham vindo de um país bem mais problemático que o deles. Onde os índices de violência eram bem maiores do que os do EUA, sem contar as pessoas que sofriam de doenças mentais também e que o governo simplesmente os abandonava no SUS, que de acordo com os americanos, não era um sistema de saúde muito eficaz em tratar diagnósticos ou doenças complexas, que nesse caso, dificilmente o sistema não cobriria, exigindo que muita das vezes, o paciente fosse buscar melhores tratamentos em hospitais ou clínicas particulares, por exemplo.
Depois daquele filme e da série policial, o ativismo entrou em suas vidas de modo definitivo. Eles começaram a organizar diversas passeatas no país em prol da não evolução da inteligência artificial e da luta antimanicomial também. E muitos acabaram se unindo a causa e foram parar na cede do governo americano em Washington D. C. causando um sítio de emergência onde a força policial teve que intervir para que não houvesse uma segunda invasão ao Capitólio.
Eu e Susan, assistimos tudo pela televisão. E ainda vimos o atual presidente dos EUA fazer um discurso indo contra a todas essas novas emendas que a população agora queria. Dizendo que preferia ser líder em inovação tecnológica ao invés de investir em um novo sistema de saúde onde o governo tivesse que pagar para funcionar. E caso isso realmente viesse à acontecer, por exemplo, o povo teria que começar a pagar mais impostos. Algo que ninguém queria fazer, é claro.
Dessa maneria, ele soube como ninguém dispersar aquela multidão que estava ali para exigir melhores qualidades de vida. Mas o Capitalismo-Democrático dos EUA sabia muito bem que estavam mais perto do que nunca de substituir toda aquela mão de obra humana barata, por máquinas cada vez mais inteligentes e práticas, que agora iriam começar a trabalhar em escalas ininterruptas de trabalho e que ainda por cima, não iriam ter problemas mentais com isso.
O futuro estava traçado agora. Pois todos sabiam que dali para a frente não iria adiantar mais passeatas ou protestos nas ruas. Pois os humanos seriam apenas mais uma engrenagem sem função, numa nova era onde receberiam apenas uma singela mesada para não morrerem de fome; enquanto essas novas IAs, muito provavelmente, ficarão encarregadas de fazerem a economia girar, sem que aja um comando feito por nós, para desativarem-na de uma vez por todas.