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  • Sobre o Autor

Guilherme Müller

  • A extinção do ativismo

    agosto 28th, 2026

    Expandir não era um negócio fácil. No início, pensávamos que cresceríamos a passos largos, sem fazer muito esforço. Mas aí vieram as pausas nas carreiras tanto de Érica como a de Tales também. Susan sempre acordava muito preocupada com aquilo, pois pagar aluguel em Manhattan não era nada fácil e por mais que o dinheiro estivesse entrando a partir daquelas duas livrarias que tínhamos, quase nunca conseguíamos fechar com uma certa margem de lucro.

    Como o nosso apartamento tinha dois quartos com suíte, cozinha, escritório e sala de estar, logo pensamos em nos desfazer do apartamento que Tales tinha com a Susan, e assim, poderíamos comprar aquele em que estávamos morando. Pois por mais que Tales fosse um ator de Hollywood bastante talentoso; ele só mantinha no banco o suficiente para sobreviver e pagar as suas contas, deixando toda a sua reserva destinada à caridade. E assim, logo que veio à primeira crise existencial dos dois irmãos, não sabíamos quando eles iriam voltar a atuar. Gerando com isso, uma onda de incerteza muito grande e um peso enorme nos ombros meus e de minha sócia Susan também.

    Tendo isso em mente, eles logo conseguiram rapidamente um comprador anônimo que pagou uma fortuna por aquele apartamento simples que ficava localizado no trágico Dakota, onde John Lennon tinha falecido na entrada do Hall com cinco tiros nas costas. Dessa maneira, com o dinheiro em caixa, eles logo fizeram uma proposta ao nosso locatário para comprar aquele espaçoso apartamento, onde todos nós morávamos e que não precisávamos ter que recorrer ao transporte público para irmos e voltar do trabalho na livraria, por exemplo; e que ainda por cima, ainda ficava a poucos passos do Central Park, que adorávamos passar os finais de semana fazendo topless.

    Fizemos a mudança em definitivo de Susan e Tales e reparei que eles não tinham quase nada naquele antigo apartamento. Apenas duas malas eram mais que suficientes para colocar seus pertences e roupas. Pareciam até dois hippies no centro do mundo.

    Depois de instalá-los em nosso apartamento, comprei mais roupas para os dois, porque no trabalho, eles não poderiam ficar repetindo as mesmas roupas. Os clientes poderiam reparar naquilo e achar que era falta de higiene pessoal.

    Mas a pergunta que ficava em minha cabeça era sempre a mesma: Até quando eles iriam aguentar aquela suposta vida normal? E a mesma pergunta, quem sabe, a Susan também estivesse se fazendo naquela época, em relação ao seu namorado. Porque por mais que eles se empenhassem em trabalhar e fazer aquele novo negócio prosperar, as vezes, pegávamos eles sonhando com todos aqueles novos projetos que poderiam estar fazendo, naquele exato momento. E o ponto alto disso tudo, foi quando eles estavam assistindo televisão em um domingo qualquer, quando um âncora de um jornal, começou a se perguntar onde estavam aqueles irmãos muito talentosos que os fãs não vinham há um tempão. E se algum dia iriam tornar a vê-los novamente atuando. Pois o jornalista começou a informar a sua audiência de que alguns papéis tinham sido escritos exclusivamente para Érica e Tales, só que outros artistas escalados, acabaram fazendo um trabalho muito abaixo do esperado. Levantando a hipótese de que talvez se eles estivessem escalados naqueles determinados filmes ou séries, talvez as críticas fossem mais positivas do que realmente foram.

    Ainda consigo me lembrar do olhar que Érica deu a Tales quando o jornalista falou aquilo. Pareciam que tinham acordado para uma outra vida. Eles imediatamente ligaram para alguns diretores e roteiristas de Hollywood e pediram à eles que mandassem avisar que estavam de volta a ativa. Eu me lembro que olhei para a Susan e nos abraçamos imediatamente por causa daquela atitude inesperada de ambas as partes. Pois sabíamos que misturar amor no ambiente de trabalho, à longo prazo, poderia extinguir completamente o que tínhamos construído com muito suor e determinação.

    No outro dia, ao acordar, o porteiro foi logo nos informando que tinha chegado diversos manuscritos para a Érica e Tales; e assim, eu e Susan fomos logo na recepção pegá-los, mal conseguindo acreditar naquilo. Entregamos aquela pilha de originais à eles e fomos imediatamente trabalhar, deixando que eles começassem a lê-los o quanto antes, pois a preparação e leitura dos personagens seria daqui a apenas uma semana com toda a equipe reunida no Empire State Building.

    Na volta do trabalho, pegamos os dois fazendo a fala um do outro. E vemos bem de pertinho, como era a elaboração de cada personagem da respectiva trama. Pois em questão de apenas um dia, ambos já tinham decorado todas as suas falas. Deixando eu e Susan extremamente impressionados com aquelas mentes artísticas.

    Na outra semana eles ensaiaram com toda a equipe de filmagem e iniciaram as gravações também. Tales iria fazer um empoderado CEO de uma empresa de tecnologia; enquanto Érica, faria uma série policial, onde seria uma agente do FBI que investigaria diversas mortes que estavam acontecendo em Nova York, perseguindo um grupo bem organizado de psicopatas.

    Os dois filmes tiveram uma excelente aceitação do público quase que de maneira imediata. Pois na primeira semana de bilheteria e divulgação nos streamings, ambos os trabalhos renderam bons frutos diante da crítica especializada, que disse que ambos estavam deslumbrantes e que os telespectadores quase que os perderiam para a venda e organização de livros na singela livraria: Our Shared Shelf.

    Érica e Tales riram muito com aquela crítica que tinha saído nos jornais pela manhã. Alegando que pelo menos o jornalista tinha feito propaganda da livraria gratuitamente. O que acabou rendendo bons frutos a mim e a Susan, pois todos que entravam ali iam logo dizendo aos seus filhos, que aqueles dois atores talentosos tinham trabalhado ali por um tempo. Tiravam diversas fotos da livraria e postavam logo em suas redes sociais. E assim, de boca em boca, o sucesso estava todo exposto novamente. Pois Érica e Tales fizeram questão de explicar aos jornalistas durante a divulgação de seus trabalhos, que tiveram alguns meses sabáticos naquela livraria, onde acabaram se reconectando com eles mesmos; para que assim, pudessem voltar enfim a trabalhar.

    Mas depois de algum tempo vieram as críticas à eles como era de praxe em Hollywood, onde os artistas eram amados na mesma velocidade em que os odiavam também. Pois em uma das muitas entrevistas em que Tales fez, por exemplo, ele acabou se posicionando contra as empresas de tecnologia que estavam aprimorando suas inteligências artificias com a hipotética destruição dos livros. Onde depois do uso, os livros ficavam tão acabados que os CEOS dessas empresas, preferiam descartá-los ao invés de buscarem um melhor reaproveitamento para que a sociedade pudesse lê-los novamente.

    Do outro lado também, Érica a partir de seu papel na série, aproveitou a sua voz como artista, para se posicionar a favor de tratamentos mais efetivos de pessoas que sofriam de doenças mentais, onde elas não precisariam mais ficar em clínicas especializadas se não quisessem ou não tivessem condições de pagá-las, por exemplo. Pois o governo poderia fornecer o tratamento mais adequado depois do diagnóstico de forma inteiramente gratuita, como acontecia no Brasil com o Sistema Único de Saúde.

    Com esses posicionamentos em Hollywood, tanto Érica como Tales acabaram sendo alvo de críticas mais severas diante de parte da imprensa, que os rotulou como hipócritas por estarem falando de temas bem sensíveis no país que não tinham nascido. Pois como todos sabiam, os Estados Unidos eram líder em tecnologia avançada e não poderiam se dar ao luxo de perderem aquela corrida tecnológica para nenhum outro país, mesmo que livros tivessem que sofrer todas as consequências ao serem destruídos. Enquanto que por outro lado, as alegações de Érica também não tinham base científica nenhuma, pois ambos os irmãos tinham vindo de um país bem mais problemático que o deles. Onde os índices de violência eram bem maiores do que os do EUA, sem contar as pessoas que sofriam de doenças mentais também e que o governo simplesmente os abandonava no SUS, que de acordo com os americanos, não era um sistema de saúde muito eficaz em tratar diagnósticos ou doenças complexas, que nesse caso, dificilmente o sistema não cobriria, exigindo que muita das vezes, o paciente fosse buscar melhores tratamentos em hospitais ou clínicas particulares, por exemplo.

    Depois daquele filme e da série policial, o ativismo entrou em suas vidas de modo definitivo. Eles começaram a organizar diversas passeatas no país em prol da não evolução da inteligência artificial e da luta antimanicomial também. E muitos acabaram se unindo a causa e foram parar na cede do governo americano em Washington D. C. causando um sítio de emergência onde a força policial teve que intervir para que não houvesse uma segunda invasão ao Capitólio.

    Eu e Susan, assistimos tudo pela televisão. E ainda vimos o atual presidente dos EUA fazer um discurso indo contra a todas essas novas emendas que a população agora queria. Dizendo que preferia ser líder em inovação tecnológica ao invés de investir em um novo sistema de saúde onde o governo tivesse que pagar para funcionar. E caso isso realmente viesse à acontecer, por exemplo, o povo teria que começar a pagar mais impostos. Algo que ninguém queria fazer, é claro.

    Dessa maneria, ele soube como ninguém dispersar aquela multidão que estava ali para exigir melhores qualidades de vida. Mas o Capitalismo-Democrático dos EUA sabia muito bem que estavam mais perto do que nunca de substituir toda aquela mão de obra humana barata, por máquinas cada vez mais inteligentes e práticas, que agora iriam começar a trabalhar em escalas ininterruptas de trabalho e que ainda por cima, não iriam ter problemas mentais com isso.

    O futuro estava traçado agora. Pois todos sabiam que dali para a frente não iria adiantar mais passeatas ou protestos nas ruas. Pois os humanos seriam apenas mais uma engrenagem sem função, numa nova era onde receberiam apenas uma singela mesada para não morrerem de fome; enquanto essas novas IAs, muito provavelmente, ficarão encarregadas de fazerem a economia girar, sem que aja um comando feito por nós, para desativarem-na de uma vez por todas.

  • Lutando por justiça social

    agosto 27th, 2026

    Érica e Tales tinham voltado a trabalhar no cinema naquele ano. Os dois lançaram filmes que concorreriam ao Oscar. Pelo menos, era o que indicava os jornais locais, com aquelas informações privilegiadas. Mas um escândalo sem precedentes, acabou abalando a categoria de ambos, pois seus respectivos diretores e roteiristas, estavam envolvidos em diversas acusações de assédio sexual dentro dos sets de filmagem, gerando com isso, a desclassificação imediata de suas películas.

    Acompanhei bem de perto a retaliação de ambos os filmes. Pois tanto Érica como Tales, ficaram bastante indignados com aquilo e o que mais os irritou foi que nenhum dos dois presenciaram nada que fosse digno de acusações judiciais. Mas depois eles conseguiram acompanhar mais de perto as diversas matérias que estavam saindo nos jornais, onde alguns jornalistas conseguiram entrevistar todas aquelas vítimas. Mostrando aos seus assinantes, que o mundo artístico poderia ser bem cruel para aqueles que queriam se tornar estrelas de cinema.

    Com todas aquelas evidências em mãos, os dois irmãos tentaram contribuir ao máximo com aquele julgamento na corte judicial de cada país. Mas logo ficou bem claro para os juízes dos dois casos, que as provas estavam bem claras. E que os diretores e roteiristas dos filmes seriam sentenciados a prisão o quanto antes. Por outro lado, as vítimas procuraram consolo em diversos tratamentos psicológicos, que tanto Érica como Tales fizeram questão de pagar. Mas depois de alguns meses, acabaram decretando falência em suas contas no banco, alegando que todo aquele dinheiro acumulado, agora fazia parte de um bem muito maior do que propriamente a arte que praticavam de tempos em tempos.

    Com isso, eu e Susan tivemos que arcar com todas as despesas de casa até que surgisse um bom filme para que ambos pudessem fazer novamente. Mas por hora, aquele julgamento teria que terminar para que a normalidade voltasse a ser respirava no meio artístico.

    Tales pegou uma terrível depressão, pois ele ficou bastante chateado com todos aqueles traumas que presenciou ao longo do julgamento, onde diversas mulheres relataram que tiveram que fazer sexo com aqueles diretores e roteiristas, para que assim, elas conseguissem papéis melhores no cinema. Onde os acusados, é claro, tinham aquela falsa promessa de que elas virariam verdadeiras estrelas de cinema, depois daquela participação em seus filmes.

    Érica nos primeiros meses, também ficou sem rumo, pois a mídia teimava em ficar em cima de todos os atores que participaram daqueles dois filmes, para ver se conseguiam desencavar mais alguma história horripilante, tendo como único objetivo, a venda de mais jornais para os seus assinantes. Porém, eu tratei logo de dividir o meu apartamento que eu tinha com a Érica entre o seu irmão e sua namorada também, pois dessa maneira, talvez conseguíssemos economizar um pouco até que as coisas voltassem ao normal.

    Dessa maneira, passaram a morar no mesmo recinto, eu, Érica, Tales e Susan. À primeira vista, os vizinhos estranharam um pouco aquela situação, pois como os americanos sabiam que Érica e Tales eram artistas internacionais, logo, se pressupunha que não estariam passando por dificuldades financeiras. O que não era verdade, é claro.

    A sorte foi que nesse meio tempo, eu e Érica acabamos conseguindo o tão sonhado green card — um documento que possibilitava residência permanente à quem fosse estrangeiro no país — ao informamos ao governo americano, que estávamos contribuindo para o comércio local, além é claro, de estarmos empregando mão de obra americana também. Porque por mais que nosso único negócio fosse aquela livraria de frente para o Central Park, sabíamos que era um direito nosso, tendo em vista que éramos consideradas microempresárias. E quando alguém abria qualquer coisa nos Estados Unidos para beneficiar os americanos, o governo enfim, concedia certas regalias para que as pessoas continuassem investindo no país.

    Tales e Susan já tinham o documento há muito mais tempo que nós. Mas confesso que percebi logo nos primeiros meses de trabalho, que ambos, não conseguiam enfrentar muito bem todas aquelas pessoas que entravam na livraria à procura de um determinada obra e acabavam simplesmente se deparando com artistas de renome mundial, trabalhando bem ali na sua frente. A primeira reação deles era pedir os seus autógrafos e algumas selfies, mas depois que percebiam que nenhum dos dois estava ali de férias, saiam bem rapidamente dali, dizendo aos quatro ventos que sentiam muita pena deles e ainda aconselhavam quem estava por perto a não escolheram à arte como a única e principal fonte de renda em suas vidas.

    Confesso que foi bem difícil assistir a tudo aquilo. Pois isso poderia acontecer com qualquer um. Uma demissão inesperada por exemplo. A pessoa não precisava ser apenas um artista para que a adversidade chegasse a sua porta sem aviso prévio. Mas o caso é que como eram figuras públicas, todos se achavam no dever de dar conselhos à eles sobre finanças e em como deveriam levar as suas vidas dali para frente. O que foi um prato cheio para os paparazzi, por exemplo; que esperavam a gente sair da livraria ao final de um expediente muito cansativo, para que alguns se atrevessem a tirar fotos dos dois como se aquilo fosse algum subemprego que não fosse válido para artistas daquele calibre fazerem.

    Érica e Tales entendiam aquilo muito melhor do que nós duas. Pois no trajeto de casa, nos diziam que eles tinham escolhido aquela vida e que não poderiam tratar mal aquelas pessoas que também estavam fazendo o trabalho delas também. E assim, pela exímia educação dos dois os paparazzi meio que caíram na real e passaram a fazer matérias sobre eles enfatizando que o cinema estava precisando daqueles talentos novamente em seus elencos. E assim, em questão de apenas algumas semanas, passamos a receber em nosso apartamento, diversas propostas de filmes e séries para os streamings novamente.

    Porém, Érica e Tales tinham gostado tanto de trabalhar na livraria com a gente que começaram a recusar todos aqueles papéis que não tinham mais sentido para eles. Quem dirá as suas carreiras também. E assim, nos prontificamos a ampliar aquela sociedade que logo cheiraria a novas filiais mundo afora. Bastava saber na maneira em que íamos fazer aquilo, tendo em vista que, as empresas de inteligência artificial tinham começado os seus pedidos cada vez mais exorbitantes em nossa livraria, na compra de obras raras que provavelmente iriam alimentar os seus data centers, fazendo o devido descarte daquelas obras logo em seguida.

    A batalha estava apenas começando. E todos nós víamos que o mundo talvez fosse presenciar o início da destruição de livros e da leitura num futuro não tão distante senão tomássemos a devida precaução. E cabia a nós enfrentar a inteligência artificial, se quiséssemos preservar a criatividade humana, num mundo cada vez mais difícil de encontrá-la, sem que algo tentasse escravizá-la perpetuamente.

  • Our Shared Shelf: Nossa Prateleira Compartilhada

    agosto 26th, 2026

    Conheci Tales logo depois que passei a morar com a Érica em um espaçoso apartamento no centro da cidade. E imediatamente nos demos muito bem. Ele apresentou sua mais nova namorada, chamada: Susan, uma simpática americana que já morava em Nova York há bastante tempo. E assim, aproveitei aquela chance, para lhes apresentar a minha pequena livraria. E eles à adoraram, principalmente aquela sessão onde as línguas se misturavam.

    Susan até me disse – em sua língua materna é claro — que gostaria muito de investir nela, abrindo uma filial em Nova York e foi logo me perguntando o que eu achava da ideia. Érica imediatamente me cutucou por debaixo da mesa do jantar, dando uma ênfase ainda maior naquela proposta. Mas me mantive firme e lhe falei que iria pensar na proposta e que no outro dia lhe daria o meu parecer. Susan aceitou minha resposta deixando transparecer à todos que eu não era uma pessoa iludida com o sucesso instantâneo, muito menos, com a impulsividade de ganhar dinheiro à qualquer nova oportunidade que aparecia em minha frente.

    Com a promessa feita, no outro dia, marcamos um encontro nos fundos de minha livraria, para esclarecermos como seria aquela parceria nos Estados Unidos. Pois como eu não dominava aquela língua nórdica, eu teria que ter um intermediador no país, que pudesse pensar, sentir e agir por mim. O que Érica e Tales se prontificaram de fazer imediatamente, tendo em vista que não teriam nenhum filme para lançar até o outro ano pelo menos.

    Dessa maneira, fomos todos juntos até os Estados Unidos, para ver qual seria a melhor localidade para a minha livraria. E assim que desembarcamos, tanto Tales e Érica foram logo querendo comprar uma grande loja bem perto do Central Park, pois assim, quem quisesse passear no parque, poderia antes disso, passar em minha nova livraria para quem sabe, levar um livro à tira colo.

    Achei a ideia genial e em questão de apenas algumas semanas, já tínhamos contratado uma equipe formada exclusivamente por mulheres que me aconselharam à colocar o nome da livraria de Our Shared Shelf, que em português significa, Nossa Prateleira Compartilhada, em homenagem ao clube de leitura de Emma Watson, criado em 2016, onde à eterna atriz de Harry Potter que interpretou Hermione Granger nos filmes criou, pensando em compartilhar novas leituras sobre igualdade de gênero, diversidade e empoderamento feminino, deixando ela mesmo, alguns livros do grupo de leitura, em locais públicos para ver quem se atreveria a explorar aquelas novas ideias de ativismo.

    E assim, em apenas três meses estava funcionando uma simpática livraria bem no centro de Nova York, no Central Park, em Manhattan. Onde as pessoas entravam à procura de novas escritoras que queriam apenas dar voz aos seus sofrimentos, angustias e até realizações pessoais, diante de uma sociedade que tentava à todo custo silenciá-las.

    O primeiro lucro que tive nos outros meses foi para pagar o investimento que recebi de Érica, Tales e Susan. Pois eu não queria ficar em dívida com nenhum deles. Para evitar que qualquer um tivesse a chance de num futuro não tão distante, reivindicar aquele imóvel ao qual todos agora eram sócios.

    No segundo ano, a livraria parecia já muito mais integrada ao espírito americano. Pois todos os novos escritores queriam lançar seus livros em nossa livraria. Que transparecia ser muito à frente de seu tempo, dando voz aqueles novos artistas que se viam totalmente burlados pelas grandes editoras que preferiam sempre acreditar em quem já tinha um certo renome no mercado editorial. Deixando assim, aqueles novos originais que recebiam toda à semana, em seus suntuosos endereços, para aquelas editoras independentes que ainda queriam fazer o seu nome no mercado.

    Durante a organização de um evento de lançamento, por exemplo, víamos no olhar de todos aqueles escritores, o ar de gratidão por divulgarmos a sua obra em nossas redes sociais, quando não, um artista de renome mundial, fazia questão de fazer uma live convidando seus seguidores para o evento de autógrafos. A pedido de Tales é claro, que conhecia alguns que gostavam muito de ler em Hollywood. Inclusive, muitos dos escritores que ajudamos à lançar, logo conseguiram grandes contratos editoriais para jornais, revistas, cinema e streamings também, vindo à se tornarem bem requisitados em Hollywood, para fazerem roteiros adaptados de obras que ainda nunca tinham lido.

    O tempo passou. E minha estada em Nova York chegou ao fim. Mas quando eu estava indo para o aeroporto, notei que muitos na rua começaram a tirar fotos minhas, como se eu fosse uma espécie de nova celebridade mundial. Foi aí que entrei em um café, onde tinham algumas revistas na entrada e vi uma foto que eu tinha tirado com os meus sócios na livraria, para fazer a divulgação nos primeiros meses de abertura da loja. E eu estava lá de uma forma bem natural em uma matéria de capa inteira, realçando a contribuição que fizemos para a cutura Nova-iorquina.

    Tratei logo de comprar a revista e levá-la para casa para emoldurá-la. Afinal, tinha conseguido usar minhas influências sabiamente para tornar esse mundo um pouco mais igualitário e amoroso. Mesmo que agora eu também tivesse diversos paparazzi atrás de mim, querendo saber o que eu iria fazer para ficar na mídia. O que rapidamente deixei claro à eles, que eu não queria à fama para mostrar as outras mulheres, o que eu tinha feito, como se isso fosse uma competição de sexos, e sim, enfatizar apenas o que as novas artistas poderiam fazer com as suas vozes na sociedade. Sendo apenas mais uma das diversas expoentes das denúncias que passamos à receber de feminicídios que aconteciam todos os dias no mundo e que os governos locais pareciam tapar os seus ouvidos, pois talvez, só quisessem que as mulheres fossem apenas símbolos sexuais de um planeta cada vez mais machista e retrógrado, onde o homem no fundo no fundo, não tem medo nenhum de ser substituído pelas máquinas de inteligência artificial com os seus enormes Data Centers, e sim, pelo singelo e compreensivo extinto da intuição feminina.

  • Nas coxias da fama

    agosto 25th, 2026

    Conheci Érica em minha livraria. Ela estava fugindo de alguns paparazzi bem indiscretos na rua e aquele som habitual do sino na porta, que sempre avisava quem estava entrando e saindo de lá, me fez olhá-la diretamente. Algumas funcionárias me avisaram que ela era bem famosa e começaram a me falar tudo sobre a sua vida de atriz em novelas e séries que assistiam no streaming.

    Em um primeiro momento, mantive minha compostura. Mas de alguma maneira, ela notou que eu não a conhecia como os outros da loja; que pararam tudo o que estavam fazendo para lhe pedirem alguns autógrafos fora de época. Érica atendeu à todos com muito carinho e atenção. Tirando até algumas fotos com os seus supostos fãs.

    Tivemos que fechar a loja correndo, para que aqueles paparazzi não entrassem pela entrada principal. Érica depois da correria, perguntou logo se a gente tinha uma outra entrada nos fundos da livraria, onde ela pudesse sair em segurança. O que prontamente lhe disse que sim. E todos viram seu sentimento de alívio por saber que iria se livrar daquelas pessoas indesejáveis, que queriam somente saber de sua vida particular.

    Me apresentei à ela e perguntei se ela tinha entrado ali somente para escapar dos paparazzi ou se ela estava interessada em algum livro em específico. Érica para não ficar sem graça, me disse que estava em busca de paz de espírito e achou que aquela livraria pudesse lhe dar o que desejava.

    Ri como nunca tinha rido em toda a minha vida. E assim, a nova sintonia estava criada entre nós duas. Levando Érica a me perguntar se eu à conhecia de outros carnavais. Respondi que não, pois tinha sido informada de sua fama somente quando minhas funcionárias me avisaram. O que ela adorou, pois tinha me confessado que a maioria de suas amigas não eram do meio artístico como ela era.

    E assim, estava criado um novo laço de amizade que iria durar por toda à vida. Pois logo depois do incidente em minha livraria, lhe apresentei os novos lançamentos do mês de agosto à ela. Érica folheou alguns e acabou levando alguns títulos que não estavam em nenhuma lista dos mais vendidos. Até lhe perguntei por quê que ela não tinha escolhido aqueles best-sellers e ela logo me disse que gostava de ler obras que quase ninguém tinha interesse, pois assim, era uma maneira de ela conseguir fugir um pouco dos holofotes literários também. Pois em sua opinião, que graça teria de ler somente aqueles livros que todos estavam lendo no momento? Se ela poderia encontrar autores muito mais interessantes e que sabiam lidar muito melhor com o fracasso literário, do que aqueles que eram idolatrados pela crítica e que nunca tentavam inovar em sua formulas de se alcançar o antigo sucesso.

    Depois dessa resposta, vi o erro que eu estava cometendo em minha própria livraria. Pois eu aconselhava a todos à colocar os best-sellers na vitrine e nas prateleiras principais e deixava os livros que ninguém tinha interesse, ao fundo da loja ou em lugares em que a obra não tinha o reconhecimento que merecia. Cometendo o mesmo erro que as outras livrarias também cometiam.

    Érica naquele ponto em diante, me ensinou que nem tudo o que se vende de modo desenfreado, pode ser considerado algo de qualidade. E assim, depois que peguei o número de seu telefone e reabri a livraria, orientei minhas funcionárias a recolocarem todas as obras de autores desconhecidos na vitrine e em estantes de maior destaque do que anteriormente estavam.

    Passaram-se alguns dias e comecei a notar que aqueles autores desconhecidos estavam começando a vir até a minha livraria, como sinal de gratidão, pois suas obras tinham começado a vender mais nas redondezas. E aquilo era algo muito significante em suas vidas. Pois de acordo com alguns, ninguém queria ficar para sempre naquele ostracismo literário.

    É claro que Érica retornou à minha livraria. Só que dessa vez, ela tinha deixado todos aqueles paparazzi em casa. E com muito mais calma, passou a visitar aquelas estantes empoeiradas à procura de algum título que lhe chamasse a sua atenção. Logo, lhe aconselhei a informar aos seus seguidores, nas redes socias, sobre o que estava lendo, para que assim, tivéssemos outros best-sellers mais interessantes do que o que estávamos lendo atualmente.

    Ela me respondeu que não poderia fazer aquilo, pois ler autores desconhecidos era a única coisa que ninguém sabia de sua vida particular. E ela não poderia mostrar aos seus seguidores o que estava fazendo com o seu tempo livre, pois aquilo era somente dela e de mais ninguém.

    Refleti muito sobre aquilo quando nos despedimos. E no fim, achei aquele caminho o mais adequado mesmo. Pois quando somos famosos e estrelas de cinema e a todo instante estamos sendo alvos de notícias de fofoca e outras intempéries. O mais adequado é encontrarmos respostas naquelas mentes que jamais foram expostas pela mídia social.

    Sendo assim, comecei a me sentir totalmente atraída por aquela personalidade única; e de uma amizade simples, se tornou algo muito mais profundo, onde em um primeiro instante, todos queriam saber quem era aquela mulher que sempre estava saindo nos jornais ao lado de Érica.

    Senti minha privacidade exposta como nunca antes em minha vida. Até que em um dia qualquer, fui parar na casa de Érica e nos apaixonamos perdidamente. Fizemos muito sexo e decidimos logo morar em um mesmo apartamento. E do dia para a noite, me tornei somente a namorada de Érica. Mas por outro lado, comecei a ser chamada para diversos testes como atriz. Algo que nunca tinha me passado pela cabeça.

    Érica me aconselhava a pegar alguns papéis que seriam bem interessantes para mim, mas sempre me mantive muito firme em meus próprios pensamentos. Lhe dizendo que aquilo só iria durar entre a gente, se cada uma tivesse o seu próprio trabalho em separado.

    Érica mais uma vez, insistiu me dizendo que aquilo ia me dar muito dinheiro e que talvez, se eu fizesse algum papel de sucesso eu poderia parar de trabalhar como ela tinha feito em um determinado momento de sua vida. Argumentei mais uma vez com ela que preferiria trabalhar em minha livraria. E ela assim, se deu por vencida e nunca mais voltou a tocar no assunto.

    Nos primeiros meses foi um inferno pois eu recebia vários jornalistas em minha livraria, me perguntando se eu daria uma entrevista exclusiva para os seus respectivos jornais, para contar como é que era viver com uma estrela de cinema. Mas eu sempre respondia em negação. E as vezes até pensava que Érica precisava muito mais de mim do que propriamente eu à ela. Porque muitas das vezes, ela chegava em casa simplesmente arrasada, me dizendo que ninguém sabia o porquê que ela tinha se interessado por uma simples livreira de vida pacata.

    Eu tentava consolá-la do melhor jeito possível, lhe dizendo que aquelas notícias eram somente para lhe atingir e nada mais. E assim, depois de alguns remédios e copos d’água, Érica tornava a se acalmar.

    Porém, depois de um certo tempo, comecei à ser perseguida pelos fás de Érica também. E muitos me diziam quando entravam em minha livraria, que eu era o seu porto seguro, pois suas atuações em novelas e séries tinham melhorado muito. Mas eu nunca acreditei nisso, pois seu talento como atriz não precisava de um relacionamento seguro e estável para progredir. Porque depois que eu li sobre a sua vida particular e pública na internet, além de ver algumas novelas, filmes e séries também, logo percebi que Érica nunca precisou depender de ninguém para progredir na carreira, pois o seu talento e ativismo falava por si.

    Muito pelo contrário, depois do assassinato de seus pais, teve que cuidar de seu irmão mais novo, vindo à trabalhar em diversos subempregos, até que ganhou uma bolsa de atuação, e assim, começou a levá-lo ao teatro com ela pois não tinha com quem deixá-lo à noite.

    O tempo passou e ela logo começou a se destacar em várias peças que fazia ao redor do país. Até que teve um dia, em que foi chamada para fazer alguns testes na televisão para novelas. Passando com louvor sem fazer nenhum tipo de teste do sofá. Pois todos sabiam do potencial de seu talento para atuar.

    E assim, com muita maestria, Érica conseguiu pagar todos os estudos de seu irmão mais novo, chamado Tales, que depois de tê-la acompanhado por todas aquelas coxias em que ambos se desenvolveram juntos no teatro, naquele período de luto dos seus pais, também resolveu trilhar os mesmos passos da irmã já famosa. Se tornando um ator de muito destaque em Hollywood.

    Mas no fim, o nosso relacionamento prosperou e uma encontrou na outra o que ambas queriam ser. Independentes e donas do seu próprio destino.

  • Os pacientes e suas sessões

    agosto 21st, 2026

    Já faz algum tempo em que estou pensando seriamente em abandonar a minha profissão de psicanalista. Pois sinto que não tenho mais as ferramentas necessárias, para conduzir meus pacientes da melhor forma possível. Tendo em vista, que não acredito mais nas teorias formadas por Sigmund Freud, onde sou quase que obrigada a seguir de olhos fechados, por causa de minha formação em sua corrente filosófica.

    Tenho a devida impressão, que as vezes, eu possa não ter vivido tanto como às outras pessoas viveram. Onde inícios e términos de relacionamentos eram extremamente normais para o desenvolvimento e amadurecimento pessoais, por exemplo. Pois no meu caso, nunca cheguei nem perto disso. Eu até tinha alguns pretendentes na época de estudante, mas sempre arrumava desculpas esfarrapadas para não comparecer a nenhum encontro. E hoje percebo que isso criou um buraco existencial muito grande em mim, para que eu consiga ajudar pacientes que precisem de conselhos e orientações sobre o que fazer quando se desentendem com quem amam, ou simplesmente, cortam de maneira definitiva essas relações tóxicas. Para que assim, consigam finalmente sobreviver à distância enfrentando a temível solidão.

    Hoje percebo que isso é extremamente prejudicial em meu próprio amadurecimento. Pois como nunca passei por isso, logo, não poderei ajudá-los à enfrentar esses tipos de problemas de frente, com a cara limpa.

    Dessa maneira, fui aos poucos, encaminhando meus pacientes para outros profissionais com muito mais experiência do que há que sou capaz de ter. Alguns até se apegaram a minha imagem. Daquela mulher empoderada, sábia e conhecedora da vida, ao qual, meu próprio cargo, ressoa para toda a sociedade, de que possivelmente, sou uma especialista de laços afetivos. Caso esse que é a mais pura mentira.

    Ainda consigo me lembrar dos tempos da universidade, por exemplo. Onde os professores nos mostravam todas as correntes psicológicas de uma abordagem clínica. E assim, o estudante começava a trilhar aquela em que mais se identificava. Porém, ao final do curso, como tínhamos passado por diversos estilos diferentes de estágios, pensávamos que já conhecíamos a vida em toda a sua plenitude. Mas nas primeiras consultas como formada, eu logo percebi que a vida era muito mais complexa do que escutar os problemas alheios e ainda por cima, ter que conduzi-los à uma solução de longo prazo.

    A verdade é que nunca me senti totalmente preparada para as difíceis sessões psicanalíticas. Que além do profissional não ter um script de uma hora mínima de sessão, ainda tinha que lidar com diversos tipos de sonhos sem sentido algum para a consciência, onde se evidenciavam os desejos mais ocultos através do inconsciente do paciente, ou propriamente, aos problemas ligados ao pai e a mãe que o indivíduo trazia consigo, por exemplo. E além do mais, conforme as sessões iam ocorrendo, era como se eu estivesse roubando o dinheiro alheio. Daquelas pessoas que queriam encontrar apenas um alívio na vida em que eu jamais poderia lhes dar.

    Sendo assim, vendi meu consultório e fui me dedicar de maneira integral à minha livraria. Ao qual, poderia servir muito melhor, indicando obras de autores clássicos — que não eram fáceis de ler em hipótese alguma — mas que por outro lado, traziam o acalento necessário para aqueles que sofriam ou quem sabe, buscavam apenas conselhos melhores, de épocas passadas, onde a genialidade era a chave para aqueles que tinham desaprendido a viver.

  • Quem irá pensar por você?

    agosto 19th, 2026

    Recentemente, meus pacientes tem reclamado muito da falta de criatividade em suas vidas monótonas. Culpam as novas tecnologias por lhes dizerem sempre quais serão os melhores caminhos para a realização de seus sonhos. Mas aonde será que fica o espaço para as falhas em nossas vidas, se hoje nós temos todas as ferramentas possíveis em nossos celulares, que nos aconselham à fazermos o contrário sempre?

    O que insisto em dizer para todos que passam em meu consultório, é que não precisamos ter medo de falhar em nossas vidas. Pois é exatamente com os nossos erros é que aprendemos as grandes lições na vida. Porém, vejo cada vez mais na sociedade um medo terrível pelo fracasso. De falhar e ser visto como um grande perdedor em relação aos outros que tentam esconder os seus percalços, e assim, enfatizar em suas redes sociais, apenas o atalho mais fácil para chegar no topo com tudo já pronto e planejado.

    Confesso que me satisfaço muito com isso. Pois a vida não é assim. E o que é mais incrível é que muitos chegam ao meu consultório e depois de algumas consultas comigo, percebem o mesmo que eu. Que a vida não tem atalhos. Ou seja, se você quiser aprender algo terá que se esforçar para obtê-lo.

    E hoje percebo que a sociedade está totalmente na contramão disso. Porque ninguém mais tem a paciência de esperar todo o processo até a obtenção da almejada habilidade profissional. E são nesses quesitos que entram os coachs e outros influenciadores digitais que prometem a qualquer um atalhos sem saída. E assim, quando a pessoa percebe que foi iludida já é tarde demais, pois o seu próprio dinheiro, já está na mão daqueles que te passaram para trás, sem que você tivesse a devida consciência social.

    Qualquer um que passe algumas horas nessas tais redes sociais, percebem que por lá, tem muita gente explicando qualquer tipo de coisa em vídeos curtos. Induzindo à quem está assistindo, que qualquer coisa desejada ou almejada poderá ser conquistada rapidamente se você tiver as ferramentas certas. O que é uma falácia.

    Outro caso bem interesse que tive no consultório esses dias também foi a de uma pessoa que disse que sua capacidade de concentração foi inteiramente danificada, por causa dessas redes sociais. Inclusive, fez questão de me dizer que não consegue assistir filmes muito longos que requerem uma certa profundidade do telespectador, alegando que o seu cérebro simplesmente desliga de onde está e imediatamente começa a pensar em outras coisas do dia-a-dia. Como se nem tivesse assistido ao filme em questão.

    Isso ocorre porque estamos perdendo a capacidade de sentir tédio. Pois nosso cérebro aprendeu desde a invenção dessas redes sociais, que é muito mais fácil passar para o próximo conteúdo que te agrada, do que propriamente refletir sobre o que acabou de assistir ou ler. Chegando assim, ao final de um dia onde o indivíduo se informou de várias coisas mais não consegue dizer em uma roda de bar, por exemplo, o que é real, relevante ou totalmente desnecessário de se conversar.

    Estamos cada vez mais atarefados em nossas rotinas. Onde saber o que alguém está fazendo nas redes sociais é muito mais importante do que termos o devido cuidado com nossas próprias vidas. Transformamos nossa privacidade em algo totalmente público. E isso acaba cobrando um preço alto à quem expõe toda a sua vida online, por exemplo.

    Talvez o futuro esteja num simples retrocesso no tempo e nada mais além do que isso.

  • A geração de cristal

    agosto 18th, 2026

    No mês passado quase não consegui fechar o mês no azul. Pois não consegui manter um número considerável de pacientes em minha agenda. Porque todos alegaram que agora, preferem pagar uma inteligência artificial para conversarem sobre os seus problemas pessoais e impasses do dia-a-dia.

    Sendo assim, tive a semana quase que inteira livre. O que me fez voltar à trabalhar em minha livraria. Conseguimos fazer alguns grupos de leitura sobre diversos temas para tentar atrair os jovens. O que acabou dando super certo. E ao longo daqueles debates, sempre muito calorosos, com aqueles influenciadores e mediadores de conversa, tive a ideia de tentar aplicar aquilo em meu consultório também. Indicando livros para os meus pacientes que estavam passando por algum problema em específico, onde com a ajuda do livro certo, com toda a certeza, aquilo poderia vir à ajudá-los.

    No início, confesso que tive que me adaptar. Estudava os seus casos com muito afinco e depois procurava na literatura alguns personagens que estavam passando exatamente por aquilo em suas histórias fictícias ou não. E isso acabou mudando completamente a minha interação com eles. Pois a grande maioria começou a espalhar os meus métodos terapêuticos para os amigos e familiares próximos também; e na semana seguinte, meu consultório já estava cheio novamente.

    Muitos vinham até mim e me diziam que a inteligência artificial não tinha ainda a capacidade de fazer aquilo. E era exatamente por aquele motivo que muitos retornavam. Talvez seja isso que todos os profissionais deveriam fazer: inovar! O que as vezes pode não levar a resultados satisfatórios de imediato, mas pelo menos, teremos a consciência de que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, para mudar as adversidades à nosso favor.

    As minhas sessões se transformaram em verdadeiros laboratórios sociais. Meus pacientes ficaram muito mais ativos em suas posturas. Passaram a perceber melhor os seus erros e acertos, pois tinham criado a percepção de se colocar no lugar dos outros. Algo que somente os livros poderiam ter-lhes ensinado.

    De meu consultório, muita das vezes, eles iam direto à minha livraria. Procuravam em todas as sessões uma nova leitura que os fizessem solucionar novos problemas, aos quais, provavelmente, poderiam vir à enfrentar em suas vidas agitadas e cheios de planos mirabolantes sobre os seus filhos.

    Pois alguns depois de algumas consultas comigo, conseguiam encontrar o erro em suas personas. Principalmente no quesito de quererem trilhar no lugar de seus filhos, o caminho que somente eles seriam capazes de percorrer.

    Ser mãe e pai não era uma tarefa fácil. Exigia tanto empenho que as vezes eu notava que eles queriam ser os filhos. Para poderem assim, refazer seus próprios caminhos em uma segunda oportunidade.

    O que eu os fazia notar era que a vida não era feita de forma linear, como nos induzem a pensar na escola. E sim, muito pelo contrário, são cheios de caminhos tortuosos, que normalmente estão cheios de buracos e perigos que muitas vezes não enxergamos ou não queremos vê-los de forma saudável. Nos levando a pensar que não saímos do lugar onde nascemos.

    Crescer tem um preço alto à se pagar. Pois teremos diversas relações que não são somente afetivas e familiares. Nos levando a criar outros tipos de convivência, que muitas das vezes, não iremos gostar, como são os relacionamentos profissionais, por exemplo. Mas que teremos que nos adaptar se quisermos fazer parte de um mundo capitalista que menospreza à inclusão.

    E hoje, acabo vendo diversos casos de uma super proteção no meu consultório, onde os adolescentes se queixam de seus pais, ao alegarem que se sentem muito mais presos para arriscar na vida do que propriamente eles foram enquanto jovens também.

    Errar todo nós vamos errar. Porém, acredito que tanto os pais como a escola, precisam com uma certa urgência, remodelar completamente os seus métodos de ensino, se quiserem indivíduos mais proativos na sociedade, que saibam prever melhor os problemas e também as soluções que possam vir à enfrentar tanto no ambiente profissional como no pessoal também. Porque senão, a grande maioria será completamente engolida por suas próprias feridas pessoais da não adaptabilidade social.

  • Um mundo ingovernável

    agosto 17th, 2026

    Me chamo Lilian e sou psicanalista. Normalmente consigo conciliar muito bem os horários de meus pacientes, com a administração de uma pequena livraria que tenho no centro da cidade também. Pois sempre gostei de explorar a vida humana naqueles que à vivem ou nos que somente à imaginam, como são os casos dos escritores, por exemplo. Sendo eles clássicos ou não.

    Mas confesso que ultimamente, estou achando bem estranho a compra em massa de livros raros em minha livraria; que com toda a certeza irão alimentar aqueles Data Centers de Inteligência Artificial, onde depois que conseguem apreender todo o conhecimento disponível, simplesmente descartam-no, como se o livro não servisse mais de serventia à terceiros. E isso é extremamente prejudicial para o mercado editorial, pois aos poucos, estamos perdendo todo o conhecimento que já foi pensado antes de nós existirmos. Dependendo única e exclusivamente — em um futuro não tão distante — das máquinas.

    Em meu consultório, por exemplo, já posso notar em alguns casos bem específicos, que as pessoas estão tendo que lidar com uma solidão tão angustiante, que acabam recorrendo a IA para desabafarem sobre suas vidas e o que é ainda pior, acabam pedindo conselhos à ela sobre a maneira que precisam lidar nas suas profissões e em suas vidas pessoais também.

    As vezes entre uma consulta e outra, me pego pensando se a religião estará com os seus dias contados também. Pois para onde foi a espiritualidade e aquela humanidade de tratar o seu semelhante com o devido respeito, se já nem nos damos mais o trabalho de olharmos o outro nos olhos, no momento em que estamos lhe dirigindo a palavra? E isso tudo por causa dos celulares.

    Percebo que os meus pacientes, por exemplo, se sentem bastante incomodados na hora da consulta, de ficarem sem os seus celulares, por pelo menos uma hora ao menos. Pois parece que os seus cérebros estão tão acondicionados à essas máquinas, que eu algumas vezes penso, se perdemos a nossa capacidade de viver sem saber o que determinado influenciador está fazendo naquele exato momento na terra.

    Tenho consciência de que o mundo mudou. Mas até onde a IA será capaz de ir sem a nossa ajuda? Seremos refém dela num futuro próximo? Ou não teremos mais espaço de produzir nas empresas em que trabalhamos, porque elas irão fazer o nosso trabalho até aos domingos, sem ter qualquer tipo de décimo terceiro, férias ou direitos trabalhistas? E caso isso venha a acontecer, qual será o nosso papel na nova ordem mundial?

    Talvez a resposta para isso seja um futuro distópico, onde os humanos se sentirão tão frágeis em relação às máquinas, que acabaremos sendo escravizados por algo totalmente ingovernável e que jamais aceitará ordens vindas de meros mortais.

  • A máscara social

    agosto 11th, 2026

    A primeira coisa que fiz quando me formei em psicologia, foi deletar todas as minhas redes sociais e repensar um pouco mais em meu passado. Aquela famosa década de 90 onde tudo era mais íntimo e real. Alugávamos filmes em locadoras que tinham poucas cópias e normalmente ficávamos extremamente felizes, quando conseguíamos aquele tal filme que todos estavam falando mal à respeito. Ser analógico estava na moda. As pessoas marcavam encontros para namorar, se divertir ou quem sabe até falar mal de algum colega da escola, sem ter nenhum impedimento dos temíveis celulares que roubavam toda a nossa atenção, na virada do milênio.

    Ninguém se importava com qual profissão você fosse escolher. Só nos preocupávamos com a educação física, o recreio e com as nossas notas para passar para o próximo ano e nada mais. Enquanto isso, nossos pais se encarregavam de pagar as contas, sempre inserindo-as no meio de suas profissões, onde o sexo era a única fonte de escape que tinham. Pois suas conversas normalmente eram sobre alguma pendência no trabalho, que geralmente desembocava para denegrir alguém que não trabalhava corretamente.

    Os nossos boletins eram entregues por semestres à nossos pais, que sempre ficavam zangados com alguma nota em que tirávamos. Porém, sempre dizíamos à eles que nós iríamos melhorar no próximo semestre; até que íamos parar em recuperação em alguma matéria, que à longo prazo, seria totalmente inútil para as nossas vidas. Aí vinham os castigos e a proibição de não sair mais com os seus amigos até que aquilo melhorasse de vez. Hoje penso que isso não seria mais possível. Tendo em vista que as redes sociais assumiram o papel da socialização. Onde ter seguidores é mais importante do que ter amigos.

    E até os nossos amigos acabaram não sendo mais os mesmos. Pois normalmente, a primeira coisa em que perguntam para você atualmente é: O que você está fazendo na vida?… Onde normalmente, a grande maioria acaba mentindo à primeira vista, para deixar boas impressões na concorrência. Dizendo que trabalham com tal coisa e que os negócios vão bem. Mas jamais dizem sobre o que sentem quando respiram. Pois a fraqueza jamais pode servir de pano de fundo principal, para a sua máscara social.

    Isso ocorre porque viramos adultos. E crescer significa que teremos que engolir muito sapo no trabalho, se quisermos sobreviver e pagar as nossas contas no final do mês, que evitam que não cortem a nossa luz, água ou que sejamos despejados no próximo. O que é ainda pior.

    Hoje, já não consigo mais separar o profissional do indivíduo. Pois ser bem sucedido no trabalho, já é o suficiente para termos inveja daquela pessoa. Como se a felicidade estivesse em sua conta bancária e nada mais importasse. Na escola não era assim. Tínhamos acesso aquele ser em formação quase que de maneira integral. Para os professores era um grande privilégio não acessado. Porém, a grande maioria dos educadores só se preocupavam com suas notas no semestre. Punindo aqueles que não estudavam corretamente e enaltecendo os seus pupilos. Como se aquelas notas dissessem quem você era dentro e fora de classe. O que não era verdade.

    Só fui me dar conta disso quando sai da universidade. Onde mais uma vez, só nos preocupávamos com as notas e nada mais. Mas por outro lado, pelo menos ainda tínhamos as festas movidas à drogas. Que causavam um relaxamento da pressão de ter que se tornar um adulto bem responsável. Mas e quanto ao ser humano?… Será que a escola e a universidade o preparavam para as intempéries e doenças premonitórias da vida?… Acho que não.   

    As vezes, penso que o ensino deveria mudar drasticamente em todo o globo. Porque estamos cada vez mais longe de nossa essência. Pois é tanta ciência que engloba o nosso planeta que acabamos perdendo a capacidade de sobreviver nele. E talvez seja por isso, que ele agora, esteja esquentando à beça. Porque muitos preferem murar suas fronteiras, para impedir que um novo sangue chegue as suas cidades e inspirem outros a mudar as coisas que não são mais ditas, ensinadas ou compreendidas. Porque é muito mais fácil ignorar aqueles que presenciaram guerras, terremotos, fome e desigualdade social. Do que propriamente, acolhê-los em suas novas nações.

  • Vivendo entre cavalos e búfalos

    agosto 10th, 2026

    Meu nome é Lilian. Moro numa espécie de fazenda, bem no interior da cidade, que foi deixada pelos meus pais quando eles vieram à falecer. Sou filha única. O que me proporcionou uma paz enorme; sem que eu tenha que dividir nada com ninguém a partir do espólio, é claro. Aos quais, os nossos advogados, deixaram bem claro para mim, quando eu substitui os meus pais nos negócios da família.

    Sou formada em arquitetura, mas sempre preferi a cidade. Mas como minha vida nos últimos anos se transformou numa verdadeira bagunça, tive que começar a morar no interior, para ficar mais perto dos gados que temos que cuidar. Mas confesso que no início não foi nada fácil. Pois eu estava muito acostumada com a rotina na cidade, onde o tempo costuma passar bem mais rápido do que em lugares remotos como nessa fazenda, por exemplo.

    Quando comecei à trabalhar, adorava fazer diversos projetos de casas e apartamentos, mas depois de um certo tempo, sentia que algo estava faltando em minha vida. Meu pai quando soube disso, ficou todo feliz, pois talvez ele soubesse que no fim, eu fosse parar no interior como tinha acontecido com eles também.

    Ainda me lembro muito bem, que na cidade, a moda eram as Bets — as famosas casas de apostas online — que agora davam para acessá-las de qualquer lugar, onde tivesse internet e tempo para apostar no esporte. O futebol, não tinha mais dois tempos de 45 minutos, como antigamente. Mas sim, quatro tempos de vinte e dois minutos e cinquenta segundos, aos quais a federação dizia que era para a hidratação dos jogadores, mas no fundo, todos sabiam que eram para anunciar aquelas famosas marcas responsáveis por embolsar uma soma bem significativa de dinheiro, daqueles que gostavam de perdê-lo. Normalmente se endividando sem que as dívidas fossem aniquiladas no outro mês.

    Era um outro jeito de capitalismo mais feroz, como dizia o meu pai. Onde o normal era estar endividado até os dentes. Cansei de construir diversas casas e apartamentos para os donos dessas Bets. Que dificilmente apostavam o dinheiro que recebiam nisso, alegando que aquilo era somente para os imbecis de plantão. Que não tinham nenhuma consciência social sobre os seus atos. Muito menos, à devida responsabilidade para jogar aquilo com moderação, como alertava aquelas propagandas em notas de roda pé minúsculas, que quase ninguém conseguia lê-las.

    Confesso que fiquei enojada daquilo tudo. E aos poucos, fui ficando e aprendendo a viver na fazenda de minha família. Onde não tinha qualquer sinal de celular. Nossa ocupação à noite normalmente era a leitura dos clássicos e daqueles livros que jamais estavam nos mais lidos do ano. Gostávamos de explorar a biblioteca de minha mãe. Passávamos a mão na lombada daqueles livros, querendo que nossa alma fosse chamada por aqueles títulos curtos, que normalmente não tinham nada a ver com a história central. Mas talvez, os autores o tivessem colocado ali, só para chamar a nossa atenção, para que depois, pudéssemos viver aquelas novas histórias sem sentido.

    Aos poucos fui aprendendo a cuidar dos cavalos e dos búfalos. Enquanto deixava os outros serviçais de meu pai cuidar do resto. Mas já sabia que queria muito passar o resto de meus dias ali. Tendo com o nascer do sol as primeiras luzes do céu. Pois costumávamos parar somente quando o sol se punha do outro lado. Que era normalmente às cinco da tarde. Aí eu ia até o celeiro, colocava os cavalos em suas respectivas baias; chegava em casa, retirava as botas e ia direto para o banho relaxar. Descia, encontrava meus pais, jantávamos juntos e depois, todos ficavam em silêncio absoluto na sala de leitura por longas horas, vivendo outras vidas mais significativas.

    A rotina se repetia sempre da mesma maneira, mas cada dia era diferente. Uns dias com muito vento e outros o ar estava completamente morto. Mas sempre aprendíamos algo novo e empolgante com os animais. Que sempre sabiam muito bem como estávamos de humor. E com os búfalos as vezes era bem difícil. Mas eu respirava fundo e no fim, ficava exausta de ter que compartilhar tudo o que eu estava sentindo com todos eles. Raiva, frustação, amor e antipatia pela sociedade que construímos. E assim, acabei largando o trabalho e a namorada, que quase já não sentia mais falta de meu hálito.

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