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  • Sobre o Autor

Guilherme Müller

  • Brincando com os meus irmãos

    junho 22nd, 2026

    Nasci em Braga, Portugal. Aurora e José eram os meus pais. Também tive dois irmãos. Maria das Dores e Zeca, como todos o chamavam na época, tendo o mesmo nome de meu pai, é claro. Fomos criados em meio a muita precariedade em decorrência da guerra que assolava toda a Europa. Do meu pai, pouco se sabe, pois ele nos abandonou quando ainda éramos apenas crianças indefesas. E assim, minha mãe Aurora, teve que nos sustentar. Não digo que foi fácil. Pois ela ia às feiras, todas as quartas-feiras, vender o que se cultivava em casa. E trazia consigo, a quantia certa para que nós conseguíssemos nos manter até o fim do mês, pelo menos.

    Com isso, costumávamos passar o dia inteiro brincando nos campos de cultivo de alguns vizinhos nossos. Éramos sempre eu, Maria das Dores e Zeca. Pois sabíamos que mamãe só iria voltar tarde da noite. E assim, brincávamos de esconde e esconde, pique-pega entre outras brincadeiras que já não me lembro mais. Uma vez, acabei caindo em um poço de tanto brincar com os meus irmãos. Mas acabei sendo resgatada por minha mãe que acabou me dando uma surra daquelas por minhas travessuras. Mas pelo menos, passei a cultivar a crença em Nossa Senhora, pois sempre acreditei que minhas preces tinham sido atendidas ali no poço.

    Mas nós não parávamos por aí. Pois outra vez, em vez de comer apenas um baguete de pão, resolvi comer um pouco dos doze baguetes de pães que mamãe iria vender na feira, no outro dia. Levando como consequência, outra surra que jamais esqueci. Outra vez, foi quando meu irmão Zeca tentou lançar uma tesoura bem afiada nas minhas costas, onde possivelmente era o seu alvo final do destino. Me lembro que minha mãe também lhe deu uma surra por isso, ao qual, poderia muito bem ter-lhe matado. Mas por sorte, ele aprendeu a lição e assim, passou a cuidar de nós duas com todo o zelo possível.

    Eu sempre me dei muito bem com os meus irmãos. Ficávamos esgotados de tanto brincar. Mas aí veio a temível escola e tivemos que começar a estudar se quiséssemos mudar o nosso destino. Foi daí que acabei trocando as surras de minha mãe pelas das professoras do primário. Que sempre faziam questão de pedir que esticássemos as nossas mãos, diante de qualquer erro nosso, para que assim, pudéssemos receber aquelas doídas reguadas, que ainda consigo sentir, devido a humilhação de ter que ser punida diante de meus amigos, aos quais, nunca mais os vi.

  • Minha passagem para o mundo dos mortos

    junho 16th, 2026

    Aquele natal foi um dos últimos que tive antes de começar a ter alguns problemas de saúde. Pois com a vinda daquele cachorrinho os problemas só aumentaram. À começar com minha nora, a Luiza, que não gostava de cachorros e acabou se estressando à beça com aquele animalzinho que não tinha maldade nenhuma. Tendo a petulância de me dizer que eu não deveria deixar o meu neto trazer aquilo para as festas de fim de ano. O que foi a gota d’água para mim.

    Olhando para trás agora, acho que aquela confraternização foi a última onde estava toda a minha família reunida. Pois depois daquilo, meus dois filhos resolveram se separar de vez. O que a meu ver, acabou sendo bem melhor mesmo. Porque por mais que tentássemos uní-los, a força do destino fazia sempre o reverso, até que eu e minha mulher, nos conformamos que em alguns casos, é melhor mesmo cada um seguir o seu próprio caminho, para que assim, se evitasse constrangimentos e brigas sem qualquer sentido, como sempre acontecia.

    No fim, acabei pagando o preço por fazer essas festas carregadas de muita comida e bebida. Pois depois de aproveitar com o meu sócio, que vinha para o Brasil de tempos em tempos, passar umas férias comigo, onde costumávamos passar o dia inteiro na churrascaria, algumas artérias do meu coração acabaram entupindo. E assim, tive que operar às pressas. A operação era um pouco complicada, pois o médico me disse que teria que tirar um veia da perna para colocá-la em meu coração, e o único jeito de se fazer isso era abrindo totalmente o meio peito.

    Marquei a operação para a outra semana, pois nunca tive medo de nada. Mas minha mulher ficou um pouco apreensiva com aquilo. Por sorte, correu tudo bem com a cirurgia; e acabei me recuperando tão rápido que na semana seguinte, já estava cortando grama em minha casa como se nada tivesse acontecido comigo. Deixando minha família muito preocupada.

    Porém, passados apenas alguns anos da temível cirurgia, acabei caindo nas escadarias internas da casa, pois a minha mulher, me disse que o vidro da janela do carro estava um pouco aberta, e assim, eu resolvi ir de noite fechá-la de pantufas. Acabei caindo de ombro, ao final das escadarias de mármore preta. Minha mulher imediatamente ligou aos prantos para a Mariza, minha filha, que rapidamente pediu para o seu esposo e filho, lhe ajudarem a resgatar seu pai daquele estado. E assim, eles rapidamente chegaram em minha casa e me socorreram. Meu neto me levantou bem devagar e me levou para a sala de estar novamente. Enquanto minha filha, via o hematoma roxo em meu ombro, que por sorte não cheguei à quebrá-lo, somente à deslocá-lo.

    Chamamos a ambulância do plano de saúde e em questão de minutos eles recolocaram o meu ombro no lugar. E foi assim, que eu aos poucos, fui perdendo toda a consciência que ainda mantinha de minha velhice.

    Minha casa aos poucos, foi se transformando em uma nova casa de repouso. Onde enfermeiros e enfermeiras eram frequentes. Pois eu estava começando à ter os primeiros sintomas do Alzheimer. Onde fui esquecendo minha história e os nomes dos integrantes de minha família também.

    Realizei alguns exames de praxe, aos quais eu fazia todo ano; e por azar do destino, o médico me disse que tinha encontrado uma mancha em meu pâncreas, que talvez pudesse ser o inicio de algum câncer. O que depois do diagnóstico inicial, se comprovou como verdade, infelizmente.

    Meus familiares ficaram muito preocupados com aquilo, pois sabiam que eu dificilmente iria escapar da morte, como já tinha escapado tantas vezes. Mas daquela vez era bem diferente, pois meu organismo tinha desenvolvido uma anemia muito forte, onde minhas taxas ficavam muito baixas; e assim, eu precisava urgentemente de bolsas e mais bolsas de sangue, para que minhas taxas voltassem a ficar equilibradas e somente no hospital, eu conseguiria mantê-las nesse estado.

    E assim, minha equipe de enfermeiros se transferiram para o hospital e eu passei a ser cuidado em turnos. Minha filha e esposa iam me visitar toda a semana, é claro, mas eu já não estava mais consciente, e sim, completamente dopado. Pois os remédios fortes que me davam para eu sossegar na cama acabaram surtindo o efeito desejado. E na madrugada, tive um ataque cardíaco e acabei morrendo, mesmo que o médico de plantão tivesse lutado contra a morte, fazendo massagem cardíaca em mim, por mais ou menos 15 minutos.

    Depois da morte, me colocaram em um saco preto e eu fui imediatamente parar em outro setor do hospital, aguardar que minha família pudesse me transferir para a funerária o quanto antes.

    Meu enfermeiro predileto, Acábio, ficou encarregado de comunicar à minha filha sobre o meu falecimento. E assim, em questão de minutos, eles já estavam no hospital com o carro da funerária logo atrás deles. Meu corpo, foi levado até a funerária e eu fui vestido com um pijama de meu primeiro neto o Guilherme, que sempre foi o meu preferido.

    O difícil foi comunicar a minha esposa, Deolinda, sobre a minha morte. Minha filha disse à ela, e ela simplesmente desabou em lágrimas. E assim, fomos para o funeral trajando preto que era a cor do luto e da morte.

    Chegando ao funeral, encontramos minha família toda reunida outra vez. Mas dessa vez era para se despedir de mim. Meu filho Pedro, chegou algum tempo depois. Mas ele estava mais preocupado com o dinheiro que eu tinha deixado nos bancos do Brasil e em Portugal; do que propriamente com a minha passagem para o mundo dos mortos.

    Terminado meu funeral. Todos foram almoçar em um restaurante italiano, pois era aniversário de minha nora, a Luiza, e ela não poderia deixar de comemorá-lo, mesmo que fosse o dia da minha morte também. Ao longo de meu funeral, Luiza se gabava para o meu primeiro neto, o Guilherme, que já tinha recebido milhares de mensagens no Facebook de seus amigas lhe dando os parabéns; ao invés, de dar-lhes seus sentimentos pela recente perda em sua vida.

    Mas minha família nunca ligou mesmo para esse sentimentalismo barato. Pois todos eram bem fortes e destemidos. E cada um lidou com aquela situação à sua maneira. Não os culpo por falta de lágrimas.

    Minha filha, Mariza, retornou à sua casa levando consigo a sua mãe, que estava completamente destruída emocionalmente, depois de ter perdido o grande amor de sua vida; enquanto meu filho, o Pedro, foi a Portugal passar suas merecidas férias, levando consigo sua esposa e meu segundo neto também. Onde depois acabaram tirando diversas fotos em Portugal, com bonitas roupas de alfaiataria, para colocar em suas redes sociais, dizendo que um novo ciclo estava prestes à ser iniciado em suas vidas supérfluas e materiais.

    Pelo visto, a família de meu filho não sentiu muito a minha falta como eu esperaria que acontecesse. Acabei amando o filho errado pelas razões incertas. Só espero que minha filha me perdoe por isso. Pois no fim, foi ela que cuidou de mim com todo o carinho e atenção possíveis. Mas agora já é tarde para qualquer tipo de arrependimento, porque já estou morto e jamais consegui tratá-la com o devido respeito e amor que lhe era merecido.

    Só espero que meu filho seja feliz com a herança que deixei à ele e a minha filha. Pois pelo visto, seu amor estava realmente apenas em meus bolsos.

  • A nova casa do Fusca amarelo

    junho 15th, 2026

    Optei em ajudar a construir as duas casas de meus dois filhos, naquele condomínio, que ficava bem atrás de minha casa. Arquei com a casa de minha filha, pois ela ainda não tinha condições de construir uma. Ao mesmo tempo em que também ajudei o meu filho a construir à dele, com ele me ajudando, é claro; tendo em vista que a aeronáutica pagava um pouco melhor.

    Meu erro foi não ter consultado minha filha e meu genro para nada dentro da nova casa. Pois eu e minha mulher, sempre dizíamos para eles que não poderiam optar em nada já que quem estava dando a casa à eles era eu. E assim o fizemos. Escolhemos os pisos e os assoalhos, indo até a cor da casa também. Numa autoridade portuguesa jamais vista entre os colonizadores.

    Já se tratando da casa de meu filho, que sempre foi o nosso preferido. O deixamos escolher tudo. Pois ele estava contribuindo para a construção da casa junto com a gente também. E assim, era digno de escutarmos as opiniões dele e de sua esposa, que jamais gostamos.

    A casa de minha filha, tinha dois quartos, uma sala, um banheiro e uma cozinha com uma pequena área de serviço. Enquanto à de meu filho, tinha três quartos, dois banheiros, uma espaçosa sala de estar e uma garagem, ao qual, depois, optamos em incluí-la também no projeto da casa da minha filha. Por mais que eles não tivessem condições de ter um carro, como o nosso adorado filho tinha.

    Ao término da construção, nossos filhos então, passaram a morar em suas novas casas, e enfim, deixaram eu e minha esposa a sós, como tanto queríamos. E assim, logo decidimos viajar para Portugal para descansar um pouco, depois de todo aquele esgotamento físico e mental que tivemos na construção.

    Minha filha teve que se virar com o meu neto, e muita das vezes não tinha com quem deixá-lo e assim, ia com ele para o trabalho. Sua nova chefe, não facilitava em nada a sua vida, mas com muito custo e esforço, conseguiu formá-lo na escola. Já minha nora teve sua vida bem mais facilitada, pois eu mesmo ia buscar o meu segundo neto na escola de carro, enquanto minha mulher preparava a comida para ela todo o santo dia, e ainda por cima, ia entregá-la na porta de sua nova casa, escutando sempre reclamações sobre o tempero de sua comida.

    Hoje vemos que erramos feio. Pois demos preferência para uma intrusa na família, enquanto nossa própria filha, tinha que se manter com o pouco que ganhava. Mas aos trancos e barrancos ela conseguiu. Pois os meus amigos insistiam para que eu desse um carro à ela, para facilitar sua vida, e assim, eu o fiz, dando-lhe um fusca amarelo, ao qual ela levava meu neto, o Guilherme, para a escola diariamente. Enquanto minha nora, a Luiza, simplesmente tinha optado por parar de trabalhar quando se casou com o meu filho, alegando que o seu novo emprego era cuidar apenas da nova casa, de seu filho e do marido. E aos poucos, foi se transformando numa típica madame da alta sociedade, tendo vindo de baixo como qualquer outra, que acreditava que o luxo era o caminho mais rápido para alcançar a iluminação espiritual cristã.

    Mas isso agora tudo tinha ficado no passado. Pois os meus dois netos cresceram e acabaram se distanciando, assim como meus dois filhos também fizeram questão de fazer. Tudo por causa de um novo membro de quatro patas que iniciaria sua trajetória naquela farsa de união familiar, ao qual, tentávamos manter em comunhão, mas que jamais se mantinha em conexão, ainda mais em festas natalinas.

  • Os terríveis Natais em família

    junho 14th, 2026

    A primeira à se casar foi minha filha Mariza. Com um rapaz muito humilde, mas que se vestia super bem, chamado: Marco. Ainda me lembro que nossa primeira impressão dele é que ele poderia vir de uma família de posses, por trajar aquelas roupas ditas da moda. Mas isso logo caiu por terra. Pois sua mãe, Geni era apenas uma artista de teatro, que detinha até que algumas amizades da alta sociedade; enquanto seu pai, Lauro, era apenas um simples policial rodoviário federal.

    Do outro lado, tínhamos o Pedro, que conheceu Luiza no mesmo dia em que sua irmã casou na Capela Nossa Senhora do Sion, em Petrópolis. Ela trabalhava como empregada doméstica de dona Geni, mãe de Marco. Que fez questão de apresentá-la ao Pedro, e assim, começar quase que imediatamente um novo namoro, mesmo que nós não à aprovássemos de maneira nenhuma, aquela nova relação. Pois talvez em nosso inconsciente, soubéssemos que ele poderia conseguir algo bem melhor do que aquilo. Até hoje não sabemos nada de sua história. Só o que sabemos é que ela veio de Muriaé, tentar uma vida melhor no Rio de Janeiro. E acho que ela conseguiu no final das contas, ao casar com o meu herdeiro, não é mesmo?.

    Minha filha logo conseguiu engravidar de um lindo menino, chamado: Guilherme. Meu primeiro neto. Enquanto meu filho, teimava em dizer à Luiza que não queria ter filhos. O que à fez entristecer bastante, pois ela queria lhe dar um herdeiro também. E assim, após muita conversa eles enfim se tornaram pais também. De um menino, chamado: Pedro Henrique. Meu segundo neto.

    Nossa família tinha crescido, mas os problemas só aumentavam. Pois tanto Mariza, como Pedro, não se davam muito bem. Pois Marco não gostava de Luiza, pois ela tinha chegado a jogar uma toalha molhada nos olhos recém-operados de sua mãe Geni; enquanto Luiza, simplesmente optava em não gostar da família de seu marido, querendo que ele desse atenção apenas à sua, que ficava em Muriaé. Além é claro, de ela pensar que o primeiro neto, o Guilherme, sempre ter tido muito mais afeto e carinho do que o filho dela. O que talvez agora repensando melhor, talvez ela estivesse realmente com a razão. Mas o que poderíamos fazer, se Guilherme sempre tinha sido muito mais carinhoso e atencioso conosco do que o outro?

    A tensão costumava aumentar bastante quando era época de Natal, por exemplo. Onde tínhamos que reunir todas aquelas pessoas que nunca se deram muito bem, para conviver diante de uma impossível harmonia cristã. Que jamais houve. Era algumas patadas daqui e outras de lá. Mas eu e minha mulher conseguíamos contornar a tensão muito bem. Pois depois da ceia íamos logo abrir os presentes, querendo logo despachá-los o quanto antes. Pois eu tinha o hábito de acordar cedo para caminhar até o hotel Quitandinha, e logo na sequência, trabalhar em alguma parte da casa que precisa-se de algum retoque. E em hipótese nenhuma, eu gostava de acordar tarde, pois isso para mim, significava que eu poderia ser considerado um completo vagabundo. Coisa que eu jamais tinha sido.

    Os netos por sua vez, também nunca se deram muito bem. Guilherme nunca gostou de Pedro Henrique. Ele o achava muito falso e sem sentimento nenhum. Mas nós sabíamos que Pedro Henrique apanhava muito de seu pai, sem qualquer motivo aparente. E isso talvez tenha feito com que ele reprimisse todos os seus sentimentos para que com isso, pudesse suportar melhor o peso da vida.

    Já Guilherme tinha o hábito de ter muitos amigos na adolescência. Mas acredito que o mais próximo era o Adam. Um garoto loiro da nossa rua, que por coincidência ou não, era meu parente também, pois o seu avô era um primo bem distante meu de Portugal. Enquanto Pedro Henrique, meu segundo neto, por mais que ele fosse mais hiperativo que o primeiro, por outro lado, ele gostava de estudar mais em bibliotecas dos diversos colégios, por onde passava — quando seu pai decidia se mudar de cidade em cidade, tentando preencher seu ego e as luxurias de sua esposa, que dificilmente estava satisfeita com algo que obtinha — logo o fizeram ser alvo de alguns bullyings. Pois quem era considerado nerd, sempre tinha aqueles garotos na escola que gostavam mais de menosprezá-lo. Alegando que ele dificilmente era visto com um grupo de amigos, por exemplo.

    Talvez Pedro Henrique visse no Guilherme algo que ele não fosse. E assim, estava criando à admiração a longa distância. Pois quando Pedro Henrique vinha de Varginha ou de Muriaé, local onde morava, ele sempre tentava estar perto de seu primo favorito. Mas Guilherme sempre o menosprezava e testava seu primo com jogos psicológicos muito duros. Sem contar as vezes que ele também batia nele sem motivo aparente. Repetindo sem saber, o que ele já sofria com o seu pai, às escondidas.

    O gosto amargo da vida, Pedro Henrique já conhecia. E assim, ele aos poucos, foi criando uma personalidade bem apática, onde não dizia quase nada diante de seus familiares. O que para Guilherme foi ótimo, pois quem opinava sobre todos os assuntos era sempre ele e não o segundo neto. Que preferia sempre obervar aquelas opiniões cheias de personalidade e atrevimento de estar diante daqueles homens machistas e cheios de si, como eu.

  • Da bicicleta ao trabalho e da aeronáutica ao fracasso

    junho 13th, 2026

    Em Petrópolis, minha filha começou a me dar um trabalho danado. Ela saia para as festas no centro da cidade, e só voltava em plena madrugada. Enquanto meu filho, se mantinha focado em alcançar os seus objetivos pessoais, que era se tornar um piloto de avião. As vezes, eu chegava ao ponto de desabafar com minha esposa, lhe dizendo que iria vender a casa, pois não aguentava mais as travessuras de Mariza. Muito menos, ficar esperando-a até tarde, na janela, o seu regresso.

    Meu filho, por outro lado, já tinha aprendido a duras penas à sobreviver no meio da sociedade. Pois no apartamento do Rio de Janeiro, por exemplo, provocava os outros garotos do prédio, vindo à xingá-los em ocasiões onde não era possível revidar adequadamente. Mas por outro lado, seu rosto ficava tão visado entre eles, que quando ele entrava no elevador, acabava recebendo algumas visitas bem ilustres de seus agressores, que faziam questão de descontar o que tinham ouvido anteriormente.

    Minha filha, não era de levar a vida tão à sério como ele acabou levando. Pois ela gostava de sair de seu expediente e relaxar com os amigos nos bares da cidade; enquanto, Pedro, preferia se dedicar quase que exclusivamente aos estudos. Que me lembro, só algumas vezes, chegou tarde em casa, dizendo que tinha ido a alguns prostíbulos da cidade acompanhado de algum amigo em específico, aprender o ofício do amor entre quatro paredes.

    Minha filha depois que se formou em história na universidade, se tornou professora do colégio São José, mas foi por pouco tempo, pois o dono do tal colégio, o senhor Mesquita, estava tendo um caso com uma outra menina e assim, decidiu dispensá-la de seu ofício, alegando incapacidade. O que foi um prato cheio para minha esposa, que sempre menosprezou suas capacidades, preferindo seu outro filho.

    Enquanto essas novas fissuras iam crescendo entre mãe e filha, meu outro filho, o Pedro, estava determinado a se tornar um piloto de avião da aeronáutica. Mas primeiro teve que passar por diversos testes físicos que quase o fizeram desistir de seus sonhos. Mas depois de muito estudo, ele conseguiu um cargo como controlador de tráfego aéreo, na torre do aeroporto do Rio de Janeiro.

    Deolinda, minha esposa, ficou muito orgulhosa dele, assim como eu também fiquei. Mas o nosso grande empecilho foi sua namorada na época, a Vânia. Ao qual detestávamos, porque uma das vezes em que os dois brigaram ela acabou dando um tapa no rosto dele, sem qualquer motivo aparente. Pelo menos, não que ficássemos sabendo do motivo que à fez tomar esse tipo de atitude.

    Mas o outro lado da moeda, também não ajudava em quase nada. Pois Mariza, minha filha, não sossegava com namorado nenhum. E sua amiga da rua, a Cláudia, por mais que os seus pais fossem da Receita Federal na época, e tivessem uma boa posição na sociedade, sempre à levava para o mal caminho. Com festas e bebidas fora de ocasiões apropriadas para festejar, é claro.

    Até que teve um dia que eu explodi por completo. Pois quando minha filha se formou, ela só pensava em andar de bicicleta com sua melhor amiga, esquecendo de suas obrigações profissionais. O que levou a uma discussão feia entre eu e ela, onde eu lhe disse: “Não paguei faculdade para você depois ficar andando de bicicleta para cima e para baixo, com uma desocupada como a Cláudia. Vá logo procurar um emprego que ocupe o seu dia livre!” E assim, para a minha surpresa, ela acabou arrumando um, como estagiária na Biblioteca Municipal Gabriela Mistral, que ainda fica ao lado da Câmara Municipal de Petrópolis.

    Enquanto acontecia esses choques de gerações, meu filho, o Pedro, estava se preparando para os exames finais da aeronáutica. Até que o dia do resultado final chegou em casa, lhe trazendo um banho de água fria, pois ele tinha sido reprovado para o cargo de piloto de avião. Deixando a família toda muito triste com o resultado, pois víamos o empenho dele diariamente para conseguir tal feito em sua vida.

    Porém, com a poeira mais baixa e a melhor aceitação daquela derrota em sua vida, sua irmã, Mariza, conhecia pessoas próximas da aeuronáutica, ligadas à sua amiga Cláudia, que lhe disseram que ele tinha sido reprovado no exame psicológico, alegando que o quadro de esquizofrênico aparecia em um dos resultados, o que o enquadrava como inapto para a função pretendida. O que o fez repensar totalmente em sua carreira dentro da instituição, tentando reimaginar seu lugar no mundo, tendo como uma possível possibilidade, uma nova carreira dentro do funcionalismo público, ao qual, ele iria tentar muito em breve, depois do primeiro contato com o fracasso.

  • A nova casa da Cidade Imperial

    junho 12th, 2026

    Me interessei por Petrópolis por acaso. Vinha para essa região de tempos em tempos para aproveitar o clima. Que era bem mais fresco que no Rio de Janeiro, diga-se de passagem. Nós gostávamos de passar os finais de semana na serra, dentro de alguma churrascaria, é claro. E foi assim, que me interessei por um terreno que era de um pastor bem rígido para fazer novos negócios aos domingos, pelo menos. Tentava convencê-lo à me vender aquele belo pedaço de terra, mais ele insistia em dizer que aos feriados não fazia negócios.

    Iniciava assim, alguns meses de negociações sem qualquer tipo de acordo pré-estabelecido. Pois esse teimoso pastor, na hora de fecharmos o negócio sempre queria um pouco à mais. O que me irritou profundamente que até pensei em desistir completamente de construir uma nova morada na dita tal Cidade Imperial. Mas depois que o pastor percebeu que eu não ia mais comprar aquele lote de terra, decidiu assim, fechar logo o negócio comigo.

    Começou assim, meus novos planos de construção. Tendo em vista que vi no Rio de Janeiro, uma linda casa na ilha do governador, onde logo em seguida, pedi para uma pessoa especializada, se ela poderia copiar aquele projeto e assim, refazê-la em uma outra localidade. O que ela prontamente fez.

    Contratei um arquiteto e um engenheiro que a projetaram. Mas por outro lado, também tive que contratar 20 pedreiros que trabalharam para mim por carteira assinada. Gastei tanto dinheiro na casa dos meus sonhos, que alguns amigos meus até me disseram, se eu não estava gastando aquela quantia para levantar um prédio de 10 andares, pelo menos.

    Ainda consigo me lembrar claramente que eu subia todos os finais de semana para ver o andamento da obra; que um certo dia, me irritei tanto para concluir logo aquela nova moradia, que acabei jogando algumas tabuas pela ladeira abaixo da rampa, tentando aliviar o meu estresse diante daquela demora. O que acabou não adiantando muito, é claro.

    A casa foi feita por um espanhol. Ele morava em frente a minha casa. E sua mulher também era uma espanhola. Sendo que a grande parte da vizinhança era feita por portugueses também. E dificilmente tinham alguém que era brasileiro de origem, pelo menos. Não que eu me lembre.

    Ao término da construção, era a casa mais suntuosa que tinha na rua. Pois todos os outros moradores queriam saber quem iria morar ali nos próximos meses. E foi assim, que nos mudamos para Petrópolis. Tivemos que procurar boas escolas para os nossos dois filhos, ao mesmo tempo em que compramos novas mobílias também. Pois reaproveitamos bem pouca coisa do pequeno apartamento onde morávamos no Rio. A tarefa foi bem árdua para preencher a nova casa, mas aos poucos fomos conseguindo.

    Minha filha, Mariza, foi matriculada no colégio Werneck, que ficava no centro de Petrópolis; enquanto meu filho, Pedro, foi matriculado no colégio São Vicente, uma espécie de internato para aqueles que não moravam na cidade. E assim, com a rotina do dia-a-dia, fomos fazendo novos amigos ao mesmo tempo em que recebíamos nossas famílias aos finais de semana, para que pudessem curtir a área da piscina. O que à longo prazo, se tornou um grande problema. Pois eu só queria receber os meus familiares, enquanto minha esposa só queria receber os dela. Gerando com isso, vários conflitos de ambos os lados que decidimos que não íamos receber mais ninguém. Somente a família de meu sócio, é claro. Ao qual eu ainda nutria muita estima. Pois sua esposa, sempre estava disposta a ajudar a minha mulher com o que quer que fosse, não à sobrecarregando na cozinha ou nos afazeres de casa. O que infelizmente não acontecia quando trazíamos os nossos familiares.

  • Sonhando com um carro francês

    junho 11th, 2026

    Aos poucos, fomos conseguindo voltar de tempos em tempos à Portugal. Só que agora era de avião. Uma viagem bem mais rápida. De apenas 12 horas, sem escalas. Parávamos no aeroporto do Porto e íamos direto para Canedo, onde minha futura casa ainda estava sendo construída. No início, ficávamos na casa de alguns parentes que eu tinha da freguesia. Mas foi apenas por pouco tempo, pois eu não queria dever favores à ninguém. Principalmente para outro português como eu.

    O terreno da casa herdei de meus pais. Mas tive que dar a porcentagem aos meus outros cinco irmãos se quisesse realmente construir naquelas terras lusas. Pois os meus outros irmãos infelizmente não tinham tanto dinheiro como eu tinha na época. E assim, tive que comprar à parte de todos até que o loteamento fosse inteiramente meu.

    Aos poucos fui enviando o dinheiro para Portugal para que os meus pais ficassem encarregados de monitorar as obras da casa. Uma tarefa bem difícil, tendo em vista que na maior parte das vezes, eles acabavam gastando o dinheiro que eu ganhava, me deixando numa saia justa danada. Mas com a sorte do destino ao meu lado, eu finalmente consegui terminar as obras da casa. Fazendo-os se mudarem para lá em definitivo.

    Meu pai, no primeiro andar da casa, fez um pequeno negócio para ele, onde se vendiam bebidas e comidas típicas. Enquanto no segundo andar, ficavam os três quartos, a sala de estar e o banheiro. Porém, o terreno que ficava atrás da casa, minha mãe reaproveitou-o para criar galinhas e outros animais silvestres, que podiam dar-lhes o alimento necessário para a rotina diária, como ovos, por exemplo.

    Na sequência, decidi comprar um carro francês da marca peugeot junto com o meu sócio, que já tinha instalado residência em Portugal também, mas precisamente em Paços Ferreira, na zona norte do Porto. Pois ele teve a infelicidade de sofrer um assalto no Brasil e depois me disse que ficou desgostoso com a região onde morava e assim, tinha optado em voltar para a sua terra natal, levando consigo sua família. E não quis nem saber se sua filha mais velha, a Fátima já estava com seu namorado ou não. Tratou-lhe logo de acabar com aquele relacionamento, me dizendo que ele conseguiria um partido melhor para a sua filha em Portugal. Como assim o fez.

    Na jornada para buscar o carro na França, levei comigo minha filha Mariza e atravessamos aquelas estradas todas de Portugal tendo como guia apenas os mapas turísticos que recebíamos da companhia aérea. E assim, pegamos o carro na França e me lembro que ficamos dormindo atrás de uma igreja até o dia amanhecer para que eu pudesse fazer o retorno até em casa novamente. Minha filha achou aquilo um absurdo, pois ela queria ficar em algum hotel ou algo parecido. Pensando que poderíamos ser roubados ali mesmo, durante a madrugada gélida do inverno europeu. O que talvez, agora pensando melhor, ela estivesse realmente com a razão.

    Meu sócio depois trocou aquele excelente carro por uma Mercedes luxuosa. Pois ele sempre foi muito mais vaidoso do que eu. Que acabei ficando com aquele carro vermelho até o final de minha vida.

  • Da areia ao pó

    junho 10th, 2026

    Vim para o Brasil com dinheiro emprestado. Mas não o recebi de minha família, que não acreditava em meus sonhos, é claro. Fui recebê-lo de uma feirante conhecida minha de Portugal. E logo quando eu ganhei os meus primeiros trocados nos trópicos, resolvi enviar à ela via correio, o que ela tinha-me emprestado, como sinal de minha palavra.

    Quando cheguei de navio no porto do Rio de Janeiro, tratei logo de procurar um lugar para ficar e encontrei uma pequena pensão afastada do centro da cidade, onde tudo era muito caro e luxuoso, como de costume. Na pensão, conheci muitas pessoas que também emigraram. Elas vinham dos quatro cantos do mundo, e eu logo tratei de arrumar qualquer emprego que fosse o suficiente para quitar o meu quarto, pelo menos. E por sorte, acabei conseguindo um emprego de mecânico em uma oficina na zona norte, só que agora era de carros.

    Comecei como aprendiz, mas logo fui colocado com um dos mecânicos principais da oficina. Meu salário dobrou. E assim, com o que me restava por mês, aos finais de semana pelo menos, decidia ir a alguns bailes tentar encontrar uma namorada decente. O que não era uma tarefa lá muito fácil. Pois as garotas da época só se interessavam por aqueles homens que detinham algum poder financeiro. O que não era o meu caso, por enquanto, mas estava no caminho de conseguir tal feito também.

    Chegando ao segundo mês, encontrei uma. Que por coincidência, também era portuguesa e vinha de Braga. Ela tinha se mudado para o Brasil há pouco tempo também. Veio de navio com seus irmãos e sua mãe. Pois o seu pai, ainda estava em Portugal, juntando o dinheiro devido para fazer aquela demorada viagem.

    Deolinda também morava em uma pensão. Ela trabalhava em uma papelaria e logo conseguiu juntar um bom dinheiro que ficava rendendo no banco à juros baixo. Passados alguns meses de namoro, tive à coragem de lhe contar que estava querendo abrir o meu próprio negócio com um português que também trabalhava na oficina junto comigo. Seu nome era Agostinho.

    Ela o conheceu e percebeu logo que ele era de confiança. E assim, abrimos um pequeno galpão de areia na zona norte do rio, onde todos moravam. Tínhamos apenas um caminhão para fazer às entregas de areia. E eu, Jaime, é que ficava encarregado disso, enquanto meu sócio, ficava na loja fazendo a contabilidade e anotando as próximas entregas.

    O negócio prosperou tanto, que logo decidimos comprar o nosso primeiro apartamento na mesma zona em que trabalhávamos. Minha agora noiva escolheu toda a mobília e nos mudamos para o novo endereço quando casamos.

    Meu sócio, Agostinho, foi logo atrás também. Ele conheceu uma mulher chamada Rita, que por coincidência também era portuguesa como nós, e foi logo pedindo a opinião de minha mulher, para ver o que ela achava dela.

    Com a aprovação de Deolinda, meu sócio também casou-se com aquela cozinheira de pensão. Que logo teve que abandonar seu emprego para que pudesse se dedicar aos afazeres do novo apartamento também. E assim, não demorou muito para que as duas engravidassem quase que ao mesmo tempo e formassem assim, a tão sonhada nova família.

    Nossos apartamentos ficavam bem próximos. E quando percebemos as duas estavam grávidas novamente. Só que dessa vez eu tinha ganhado um menino, enquanto o meu sócio tinha gerado uma segunda menina. E isso gerou um pouco de inveja da parte de Rita, que esperava ter um menino também. Mas o fato é que depois de alguns anos éramos todos uma grande família.

    Matriculamos nossos filhos na mesma escola. Mariza, minha filha, se dava muito bem com as filhas de meu sócio, Isabel e Fátima, porém, já com o seu irmão Pedro, era totalmente outra história. Mas guardo com muito carinho o tempo em que passamos no Rio de Janeiro. Principalmente quando eu terminava meu expediente e ia embora para casa, onde da janela de meu apartamento, dava para ver sempre o meu querido filho à minha espera, pelo som que o meu caminhão fazia ao cruzar a esquina.

  • Aprendendo a pedalar

    junho 9th, 2026
    Jaime aprendendo a concertar sua primeira bicicleta junto ao seu patrão. Imagem feita em parceria com o ChatGPT.

    Já estou no hospital há uma semana. O médico me disse que estou com câncer de pâncreas, mas não se preocupem, pois minha filha está aqui comigo cuidando de mim, além de também termos alguns enfermeiros à disposição. Mas agora que estou doente, eu gostaria de contar a minha história à vocês antes que eu parta de vez. Pois não sei ao certo por quanto tempo o meu organismo irá suportar o tratamento da quimioterapia.

    Nasci em Portugal. Mas precisamente no Porto, onde desde pequeno tive que trabalhar para contribuir em casa, pois nessa época, as crianças ainda podiam trabalhar. Comecei em uma oficina bem pequena perto do rio Douro. Concertava algumas bicicletas para o meu patrão, que agradeço muitíssimo até hoje, por ter me ensinado um ofício desde cedo, para que eu pudesse pelo menos tentar a independência financeira no pós-guerra. Mas a Europa depois da segunda guerra mundial (1939-1945), acabou ficando completamente devastada, e assim, estava cada vez mais escasso encontrar comida para abastecer uma família com seis filhos. Mas nós sempre arrumávamos um jeito.

    No meu caso, trabalhava o máximo possível na oficina para que assim, eu pudesse levar uma melhor quantia de dinheiro para a casa. Mas não era nada fácil. E hoje consigo perceber que o meu patrão sabia que minha família poderia ser bem grande, e talvez por esse motivo, ele sempre me dava um pouco mais do que o necessário, já pensando nessa hipótese.

    E ele estava completamente com a razão. Pois por mais que eu não quisesse falar de minha família no ambiente de trabalho, todos em minha volta, depois de checarem meu histórico, souberam por outras bocas, que aquele dinheiro que eu ganhava era para realmente ajudá-los.

    Mas todos sentiam o maior respeito pela nossa família. Pois todos viam que diariamente saíamos com as mesmas roupas do dia anterior para ir trabalhar. E enquanto a minha ficava cada vez mais suja de graxa, à dos meus irmãos ficavam sujas de poeira das ruas barrentas, pois naquela época, ainda não existia os paralelepípedos.

    A casa ficava vazia durante o dia, pois cada um de nós estava trabalhando em algum ponto do Porto. E assim, quando voltávamos nos lavávamos rapidamente e comíamos o que tinha à disposição. O que normalmente era pão com salame junto ao vinho de acompanhamento.

    Naqueles tempos, só fui parado pela polícia uma única vez. Pois eles queriam saber o motivo de eu estar voltando para a casa tão tarde. Mas para a surpresa deles, o meu patrão também estava passando pela mesma estrada que eu, e logo, foi-lhes dizendo que eu realmente trabalhava para ele em sua oficina. Em um primeiro instante os policiais ficaram surpresos com aquilo e foram logo me parabenizando pela minha determinação de tentar dar uma melhor vida à minha família. E assim, fizeram questão de me acompanhar até em casa. Para se certificarem que nenhum malandro pudesse roubar o meu único transporte de trabalho. O que graças à Deus, nunca me ocorreu.

    O tempo passou. E quando completei a maioridade me alistei logo no exército, por causa do bom salário que pagavam tanto aos cabos como aos sargentos também. Mas sofri bastante para me adaptar com a nova rotina. Principalmente porque eu estaria mais tempo fora de casa. E nas primeiras semanas do inverno, confesso que chorei muito. Pois não via meus irmãos e irmãs há bastante tempo. Mas sempre que dava eu escrevia cartas à eles, dizendo tudo o que eu estava passando, enquanto os meus pais me encorajavam à continuar exclusivamente por causa do dinheiro que eu habitualmente mandava para casa.

    Passado as primeiras intempéries por lá, tive o privilégio de tirar a carta de motorista, tanto de carro como à de caminhão também. Ao mesmo tempo em que já começava a pensar em me mudar para um outro país. O que imediatamente apavorou a minha família, pois caso isso realmente viesse à se confirmar, eles perderiam uma de suas principais fontes de renda. Mas por outro lado, já estava mais do que na hora de nossos caminhos se separarem. Tendo em vista que, eu tinha outros cinco irmãos que poderiam muito bem assumir essa pesada responsabilidade que carreguei por muito tempo em minha vida.

  • No divã da maternidade

    maio 25th, 2026
    Elisa e sua companheira Charlize, cuidando de sua duas filhas: Claire e Emma. Imagem feita em parceria com o ChatGPT.

    Na república de estudantes conheci diversas meninas vindas da Europa. Mas inicialmente, eu não fui tratada com muito acolhimento. Demorei certo tempo até que elas confiassem em mim. Pois todas escutavam diversas notícias horríveis vindas do Brasil. E não às culpo por isso, pois em um país onde temos altos índices de violência e corrupção, acaba ficando no imaginário das pessoas de fora, que somos um povo sem nenhum tipo de moral ou ética precedentes.

    Mas com o tempo, eu provei a minha inocência. E ao longo do curso de artes, elas até vieram até à mim, me pedir desculpas pelo pré-conceito estabelecido de antemão. O que eu aceitei prontamente porque não queria passar minha estadia toda na França, sem ter sequer nenhuma amiga para que me confessar, não é mesmo?.

    Consegui ser aprovada na grade curricular sem maiores problemas. Mas a xenofobia dos professores continuava à todo o vapor. Pois ninguém da cátedra conseguia entender como uma brasileira estava conseguindo pagar o curso todo, tendo em vista que, eu tinha vindo de um simples mecânico do Brasil. E até chegaram ao absurdo, de chamarem a polícia parisiense para revistarem as minhas acomodações na Universidade, para ver se eu estava escondendo de onde eu conseguia o dinheiro para pagar as mensalidades altas de meu curso.

    É claro que não encontraram nada de suspeito em meu quarto compartilhado. E assim, a maioria dos professores tentou me ignorar ao final do curso, vendo se eu desistia por ser tão maltratada assim. O que felizmente não aconteceu.

    Confesso que teve dias em que eu chorei bastante na frente de minhas amigas francesas. Que agora entendiam melhor o que era ser de uma cultura tão diferente das delas assim. E inesperadamente, no dia de minha formatura, acabei sendo acolhida por todos os professores presentes, que agora diziam que eu era de confiança também. Como se minha nacionalidade tivesse sido testada de todas as maneiras possíveis, para que somente naquele período em minha vida, eu pudesse me dar o privilégio de viver entre europeus de renome e destaque acadêmico, que se consideravam superiores à todas as outras raças que viviam fora de suas demarcações territoriais.

    E para a minha surpresa, fui uma das selecionadas para continuar estudando, tendo em vista, toda à minha disciplina e determinação em alcançar os meus objetivos. E assim, quando me dei por mim, já estava concluindo o pós-doutorado, sendo chamada logo em seguida, para compor a cátedra junto com outros professores selecionados da universidade francesa também.

    A notícia chegou logo aos ouvidos de meus pais. Que logo entraram em contato comigo para me parabenizar. Disseram que sentiam muito orgulho de mim, e percebi logo todo o arrependimento de meu pai em sua voz. Mas já era tarde demais. Pois sua filha rejeitada agora tinha alcançado o sucesso, ao qual, ele nunca esperava que um dia uma mulher conseguisse ter. Pois eu agora, tinha uma sala de pesquisa, com uma enorme biblioteca à minha disposição; e ainda por cima, um belo apartamento onde outros professores também residiam com suas famílias, perto do campus universitário também.

    Consegui quitar o apartamento depois de longas prestações. Mas foi lá que conheci Charlize, minha companheira, ao qual, depois de algumas tentativas fazendo inseminação artificial, tivemos enfim, à sorte de ter duas meninas. Fugindo totalmente dos padrões habituais da época, é claro. Se é que me entendem né?.

    Claire e Emma nasceram no mesmo dia. E ainda acredito que foi o dia mais feliz de todas as nossas vidas. Pois naquele momento em diante, sabíamos que teríamos que educá-las para que fossem justas com os outros, independentemente de quem fossem ou de onde vinham. Porque o mundo em nossa concepção, não tinha fronteiras e muito menos apenas uma única bandeira à ser seguida; não é mesmo?.

    Podíamos até viver nessa época, em uma suposta utopia. Mas o que seria dos pais e das mães se não pudessem imaginar um futuro mais justo e coerente para que os seus filhos pudessem viver onde bem entendessem e com quem preferissem também?

    Talvez eu tivesse acreditando em algo impossível naqueles primeiros meses de amamentação, onde Charlize tinha que acordar em plena madrugada para amamentá-las. Ou talvez fosse o medo de que elas pudessem sofrer o que sofremos em vida. Começava aí todo o meu sentimentalismo materno, ao qual eu sempre critiquei em minha própria mãe. Ter medo e até mesmo pânico de que minhas filhas pudessem me abandonar por eu pensar de um modo arcaico, ou simplesmente querer protegê-las de tudo e de todos. Mas isso não seria vida ou seria?. Depois de algum tempo é que percebemos que isso era apenas um novo amor que estavamos conhecendo, chamado: amor de mãe. Aquele que cuida, acolhe, aconselha e jamais priva.

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