Nasci em Braga, Portugal. Aurora e José eram os meus pais. Também tive dois irmãos. Maria das Dores e Zeca, como todos o chamavam na época, tendo o mesmo nome de meu pai, é claro. Fomos criados em meio a muita precariedade em decorrência da guerra que assolava toda a Europa. Do meu pai, pouco se sabe, pois ele nos abandonou quando ainda éramos apenas crianças indefesas. E assim, minha mãe Aurora, teve que nos sustentar. Não digo que foi fácil. Pois ela ia às feiras, todas as quartas-feiras, vender o que se cultivava em casa. E trazia consigo, a quantia certa para que nós conseguíssemos nos manter até o fim do mês, pelo menos.
Com isso, costumávamos passar o dia inteiro brincando nos campos de cultivo de alguns vizinhos nossos. Éramos sempre eu, Maria das Dores e Zeca. Pois sabíamos que mamãe só iria voltar tarde da noite. E assim, brincávamos de esconde e esconde, pique-pega entre outras brincadeiras que já não me lembro mais. Uma vez, acabei caindo em um poço de tanto brincar com os meus irmãos. Mas acabei sendo resgatada por minha mãe que acabou me dando uma surra daquelas por minhas travessuras. Mas pelo menos, passei a cultivar a crença em Nossa Senhora, pois sempre acreditei que minhas preces tinham sido atendidas ali no poço.
Mas nós não parávamos por aí. Pois outra vez, em vez de comer apenas um baguete de pão, resolvi comer um pouco dos doze baguetes de pães que mamãe iria vender na feira, no outro dia. Levando como consequência, outra surra que jamais esqueci. Outra vez, foi quando meu irmão Zeca tentou lançar uma tesoura bem afiada nas minhas costas, onde possivelmente era o seu alvo final do destino. Me lembro que minha mãe também lhe deu uma surra por isso, ao qual, poderia muito bem ter-lhe matado. Mas por sorte, ele aprendeu a lição e assim, passou a cuidar de nós duas com todo o zelo possível.
Eu sempre me dei muito bem com os meus irmãos. Ficávamos esgotados de tanto brincar. Mas aí veio a temível escola e tivemos que começar a estudar se quiséssemos mudar o nosso destino. Foi daí que acabei trocando as surras de minha mãe pelas das professoras do primário. Que sempre faziam questão de pedir que esticássemos as nossas mãos, diante de qualquer erro nosso, para que assim, pudéssemos receber aquelas doídas reguadas, que ainda consigo sentir, devido a humilhação de ter que ser punida diante de meus amigos, aos quais, nunca mais os vi.
