• Sobre o Autor

Guilherme Müller

  • Minha vida em canções

    abril 22nd, 2025

    Toda aquela insistência sem cessar, continuava vindo tanto da gravadora como de sua empresária também. Roberto deixava o seu telefone fora do gancho e o celular no modo avião, para que não fosse interrompido pelo show business. Estava ocupado demais vivendo à sua vida em total reclusão.

    Algumas fãs se aproximavam de sua casa e ele sempre as tratava super bem, escutava alguns conselhos delas, enquanto fazia hora para encontrar suas amigas novamente, voltarem daqueles trabalhos mais dignos do que as que estavam anteriormente.

    Algumas eram gerentes de lojas, enquanto outras, tinham restaurantes bem movimentados nas ruas principais de Nova York. Roberto tinha comprado aqueles estabelecimentos depois que tinha ganhado rios de dinheiro com suas músicas autorais. Agora, não pensava mais em gravar suas músicas em estúdios, muito menos, ter gravadoras que pegavam a maior parte de seus lucros no exterior.

    Roberto tinha aberto uma rede social onde colocava todas as suas músicas finalizadas para serem escutadas por quem quer que fosse. Isso estava lhe trazendo mais lucro do que os próprios royalties das gravadoras e dos discos que estavam sendo vendidos. E assim, conseguia manter o mesmo padrão de vida sem qualquer tipo de alteração.

    Fazia questão de manter todos os custos extras de vida de suas amigas ex-prostitutas. Pagava cabelo, maquiagem, motorista particular e até mesmo alguns seguranças. Elas diziam que não precisavam daquilo tudo em suas vidas, mas Roberto, teimoso como sempre, fazia questão de mima-las com o dinheiro que recebia sempre aos montes.

    Gostava de cuidar de quem tinha dado carinho e afeto para ele no momento em que ele não tinha absolutamente nada. Algumas vieram a conhecer alguns pretendentes no meio da rua, que lhe prometiam mundo e fundos, mas eles tinham que ser aprovados pelo Roberto antes.

    Passando pelo teste; casavam, tinham filhos, cachorros e uma casa bem confortável para viver e transar à qualquer hora do dia. Mas Roberto deixava bem claro, para os novos pretendentes, que eles tinham que ter um trabalho que dignificasse à nova família formada, trazendo estabilidade para os corações dilacerados de suas amigas.

    Roberto fazia questão de bancar todos os casamentos de suas amigas. Contratava um bufê chique e vários garçons que faziam striptease para as suas amigas nas horas vagas. E assim, aos poucos, sua casa foi ficando cada vez mais vazia, pois a maioria decidia sair de suas instalações para não incomodar aquele gênio criativo da madrugada. Mas sempre continuavam ligando para ele para saber como ele estava indo com suas novas músicas.

    Mas logo saiu no mundo da pirataria suas novas músicas. Todos compravam à preço de bananas aqueles discos que ele mesmo fazia questão de financiar, com os lucros obtidos das suas redes sociais. As gravadoras e sua empresária ficaram bem chateados com aquilo, como se tivessem sidos todos traídos. Mas Roberto não se importou com aquilo, pois continuava fazendo seus shows com a sua banda particular no exterior.

    Continuava ganhando rios de dinheiro que fazia questão de guardar para tempos de intempéries. Mas por outro lado, continuava ajudando suas amigas que lhe tiraram da lama quando ele estava pobre.

    Em uma das tûrnes em específico, Roberto tinha lido antes de entrar no palco, na Filadélfia, uma reportagem de uma mulher forasteira, que tinha sido escritora, jornalista, professora e mercenária de muito sucesso e isso logo lhe intrigou, pois suas amigas lhe disseram que ela poderia estar naquele show disfarçada com cabelos azuis.

    Ele começou o show e logo pediu as administradores que dessem uma boa vasculhada na platéia, para ver se achavam aquela mulher enigmática. Ao fim do show, Roberto enfim, conseguiu avistá-la bem rapidamente e lhe chamou para à sessão de autógrafos que aconteceria logo depois daquele show. As amigas de Roberto, logo correram para comprar tudo o que ela tinha escrito nas livrarias mais próximas, para que ele pudesse assim, entrar em contato com os pensamentos daquela mulher o quanto antes.

    Ágata compareceu à sessão de autógrafos e Roberto logo lhe perguntou sobre todos os seus livros, artigos, crônicas e contos que ela tinha escrito na mocidade. Ela desconversou um pouco sobre aquilo e lhe disse que suas músicas serviam de inspiração para uma nova geração de críticos que estavam vindo.

    Roberto ao fim daquela turnê, acabou lendo tudo o que aquela mulher misteriosa tinha escrito com sua vida e ficou muito alarmado sobre todas aquelas reflexões que exalavam um movimento contracultural que estava completamente esquecido na sociedade e assim, aproveitou a oportunidade para escrever novas músicas sobre aqueles livros que tinha lido no intervelado de um show para outro.

    Roberto acabou fazendo um novo álbum e à dedicou inteiramente a Ágata. Disponibilizou aquelas músicas em suas redes socias e logo, estavam tocando nas paradas de sucesso das rádios mundo afora.

    Ágata escutou aquelas músicas no rádio de seu veleiro e tinha a absoluta certeza de que aquelas reflexões do jovem cantor tinham vindo dela. Porém, não queria processá-lo em hipótese nenhuma. Pois ela sabia que uma obra depois de finalizada, não pertencia mais à quem tinha lhe feito.

  • Nos bordéis de Nova York

    abril 21st, 2025

    Roberto tinha chegado na cidade de Nova York pela manhã. Levava consigo apenas uma mala e um violão. Estava muito frio. A neve estava caindo sem parar sob seus cabelos desgrenhados, enquanto sua vista sofria com a nebulosidade ambiente. Seus óculos de grau ficavam constantemente embaçados pelo vapor que vinha de seu hálito mau cheiroso.

    Logo conseguiu ficar em um bordel. Gostava de conhecer pessoas novas que talves pudessem servir de inspiração para alguma canção nova. Ainda estava se adaptando a língua pois tinha acabado de se formar em língua inglesa pela universidade, pois sua língua materna era o português. Mas nada que uma boa conversa não pudesse melhorar no desenvolvimento daquele idioma recém adquirido.

    Arranjou logo um emprego de garçom em um restaurante local, enquanto nos momentos livres, tocava violão e cantava suas próprias músicas autorais no bordel em que morava. Ou seja, tinha dois empregos naqueles tempos difíceis. Um de dia outro pela madrugada adentro. Dormia nos fins de tarde e acordava no início da madrugada. E isso se repetiu até ele ter que abandonar de vez o seu emprego diurno, pois já estava ganhando mais pela madrugada adentro do que pelo dia afora.

    O bordel sempre atraia muitos artistas que ainda estavam em busca de suas próprias identidades, mas Roberto já tinha à dele. Pois suas músicas eram como poesias para os ouvintes que à escutavam. E muitos se perguntavam como aquele cara desconhecido tinha tantas histórias assim para contar na língua que não era ensinada em sua terra natal.

    Assim que começava a cantar – apenas com voz e violão – todos paravam para escutar o que ele tinha para dizer da sociedade, da política, da economia e da cultura principalmente; enfatizando toda a sua arte dedicada à composição. E assim, as pessoas iam saiando daquela espelunca, ao final de cada show, muito mais sábias e informadas sobre o mundo à sua volta do que antes.

    E a cafetona do estabelecimento logo viu ali uma oportunidade para que ambas as partes pudessem ganhar mais dinheiro, e assim, resolveu alugar um apartamento com três quartos para aquele garoto, dando tudo o que ele queria para comer, se vestir e ler.

    O tempo passou até que algumas gravadoras vieram até aquele lugar para procurar pela nova atração da cidade de Nova York. Os empresários se apresentaram para o garoto prometendo mundos e fundos e ele simplesmente os ignorou dizendo que jamais iria trair a confiança daquela cafetona, que tinha lhe dado de tudo sem pedir nada para ele em troca. E assim, eles sairam do lugar completamente amargurados pois sabiam que alguém iria lhe convencer cedo ou tarde de que ele poderia sonhar com lugares muito melhores para tocar e morar do que aquele.

    Mas Roberto era decidido. Dava diversas entrevistas nos jornais dizendo que gostava de sua vida e que estava aprendendo cada dia mais com aquelas prostitutas maravilhosas, que eram suas melhores amigas. E só sairia de lá, caso a cafetona aceitasse ir para um lugar melhor.

    O tempo passou e agora o estabelecimento tinha que ter reserva para vê-lo tocar. Pois todo o dia a casa estava cheia de pessoas que gastavam o seu dinheiro com mulheres, jogatina e muita música folk de qualidade nas caixas de som que vinham do garoto com o seu violão e voz aterrorizante de se escutar.

    As resenhas dos shows nos jornais eram sempre elogiosas. Mas as prostitutas sempre o blindavam contra os jornalistas e os empresários que só queriam uma parte daquele sucesso todo estampado em alguma capa de jornal ou quem sabe, em algum disco de ouro dependurado em alguma parede de seus escritórios de luxo.

    Roberto não sabia nada de negócios e contratos, mas suas amigas do bordel sabiam. Tinham mais experiência de vida por já terem sido enganadas por diversas pessoas em sua vida. Tanto homens como mulheres também. Lhes prometiam tudo, mas no final, lhe entregavam apenas à diária de seus serviços.

    Aquilo era uma família de verdade. Roberto se sentia melhor ali do que com os seus próprios parentes de sangue. E todas sabiam disso. Aos poucos, Roberto começou a entrevistá-las para as suas próprias composições novas que estavam sendo jorradas de sua mente, como se aquilo fosse algum ser místico que estava lhes dizendo para escrever, mas não era. Seu talento era absolutamente incrível. Em cada canção nova que cantava, transparecia uma história diferente que tinha acontecido com algumas delas. E elas ficavam todas orgulhosas daquele gênio da música, que mais parecia um irmão mais novo, que precisava de cuidados como qualquer outro em uma família grande.

    Mas houveram tempos difíceis também. Pois algumas as vezes voltavam para a casa, dizendo que tinham sido muito abusadas e viololadas por pessoas que tinham graduação nas melhores universidades do país e Roberto ficava sem entender nada daquilo. Ele tentava consolar todas elas dizendo com muita confiança em seus olhos, que um dia ganharia tanto dinheiro que lhes tiraria daquelas vidas miseráveis para sempre.

    E foi isso que aconteceu um dia. Roberto estava cantando algumas músicas tristes com o seu violão folk, até que conheceu uma empresária que lhe disse que bancaria todas aquelas mulheres do bordel, caso ele fizesse um disco em sua gravadora. Todas avaliaram os prós e contras daquela profissão e enfim, decidiram aceitar aquela oferta.

    Roberto entrou naquele estúdio com uma banda já formada. Ele tinha pegado algumas mulheres que tocavam naquele bordel junto com ele e assim, resolveu montar aquela banda somente para aquele álbum de inéditas. A banda escolheu o respertório e à tocou de uma só vez – com o engenheiro de som na cabine gravando tudo, é claro – como se aquelas música já fizessem parte de suas vidas sofridas a bastante tempo.

    Roberto passou à morar numa casa com 16 quartos e 14 banheiros, que comportava todas as suas amigas do bordel. Ficou muito admirado com os royalties que ganhou com aquele seu primeiro cd de folk, pois sabia que o gênero não agradava muitas as pessoas que geralmente só pensavam em música eletrônica e pop e quase não estavam acostumadas à escutar algo que as levassem a eterna reflexão eterna.

    Sua empresária logo lhe pediu um novo álbum e talvez uma possível turnê pelo mundo. Roberto ficou um pouco pensativo e levou aquela ideia até as suas amigas para ver o que elas achavam daquilo tudo. Todas se reuniram na enorme sala de estar da casa para a discussão e o debate. Algumas concordaram com a nova ideia enquanto as outras não gostaram muito. Mas Roberto começou a sofrer pressão de ambas as partes, tanto da gravadora como de sua empresária também. E assim, em uma semana, Roberto vasculhou seu acervo de músicas autorais e escolheu quais eram as mais adequadas para que o mundo pudesse escutar naquele momento.

    O álbum foi gravado em apenas uma semana. E Roberto ordenou que só sairia em turnê caso pudesse levar a sua família com ele. Sua empresária pensou no assunto junto com a diretoria da gravadora e assim, o pedido foi finalmente aceito.

    A comitiva da turnê teve que alugar um jatinho particular que coubessem todas as integrantes daquela turnê maluca. Tocaram em universidades do mundo todo, e logo, estavam lotando grandes estágios de futebol.

    O que deu certo naquela tûrne?

    Roberto acreditava que tinha sido porque ele e sua banda cantavam na língua oficial de cada país. Pois todos eram aconselhados a aprender as pronúncias corretas com os tradutores de plantão, e assim, a platéia podia curtir todas aquelas letras sem que precissassem fazer nenhum esforço para compreender.

    A banda toda conseguiu ganhar muito dinheiro e fazer sua independência financeira vivendo dos royalties daquelas letras carregadas de sofrimento. Roberto fazia questão de que todas assinassem aquelas letras como se fossem suas, pois dizia que aquilo tinha sido escrito pelo descaso que a sociedade tinha com aquelas mulheres que eram esquecidas em bordéis e motéis de Nova York.

  • A fuga do cárcere

    abril 20th, 2025

    Depois do julgamento, Ágata enfim, foi levada pelo camburão até a cadeia mais próxima da cidade. Ela trajava aquele habitual macacão laranja, enquanto os guardas colocavam correntes em seus pés, para que as outras pessoas da cidade pudessem identificá-la como uma criminosa de guerra.

    Sua pele foi imediatamente marcada com um número de identificação que Ágata não fazia questão nenhuma de memorizá-lo. Os carcereiros de plantão lhe deram uma muda de roupa limpa, um travesseiro, uma escova dental com fio dental incluso, um rolo de papel higiênico e uma coberta caso ela viesse à sentir frio em sua cela compartilhada.

    Ágata logo conheceu sua companheira de cárcere. Ficaram amigas íntimas e logo estavam contando todos os seus segredos de vida uma para à outra.

    Nívea estava presa há 4 anos. Tinha matado um rapaz que tinha lhe estrupado em uma floresta afastada da cidade. Na maioria das vezes, era bem gentil com suas companheiras, mas as vezes tinha crises de choro terríveis que acordavam as outras detentas em plena madrugada. E era por isso que ela sempre vivia cheia de hematomas pelo rosto e pelo corpo todo também. Alegavam que ela precisava se controlar a uma hora daquelas.

    Ágata para sobreviver teve logo que se juntar a gangue mais forte da prisão, caso não quisesse ser violada como a sua amiga tinha sido na floresta. E assim, oferecia qualquer tipo de serviços às suas companheiras em troca de segurança perpétua. Mas sabia que não poderia levar aquela vida por muito mais tempo e já planejava com algumas detentas à fuga daquele ambiente inóspito.

    Ela até tinha tentado ler o máximo de livros que conseguia para que assim, conseguisse reduzir os seus anos de prisão, mas logo viu que aquela tarefa seria impossível, pois os carcereiros também exigiam que ela fizesse novas resenhas, contos, crônicas e artigos sobre tudo aquilo que ela tinha experienciado em sua vida, para que depois eles conseguissem vender à fortunas no mercado negro.

    Somente algumas detentas sabiam do plano de Ágata em escapar daquela prisão de segurança máxima do condado da cidade. Achavam aquilo muito perigoso, pois se alguma fosse pega em flagrante, os juízes do comitê poderiam decretar pena de morte à qualquer uma. E assim, algumas desertaram daquela ideia, deixando-a totalmente à deriva.

    Porém, um dia antes do plano ser colocado em prática, Nívea aceitou ajudá-la, mesmo tendo consciência de todos os riscos envolvidos. E assim, na calada da madrugada, as duas enfim, conseguiram fugir sem fazer nenhum estardalhaço na prisão.

    Porém, o que Ágata não tinha como prever, era que as outras detentas depois do ocorrido, também se encheriam de coragem para segui-las; deixando a prisão completamente vazia no amanhecer, quando os carcereiros abriam as celas e colocavam todas para tomar banho de sol.

    O sistema de segurança foi inteiramente trocado e aquelas detentas nunca mais foram vistas novamente. Muitas trocaram suas identidades por documentos falsos e aproveitaram a oportunidade para fugir daquela cidade que tinha como a atração principal o serviço forçado daquelas detentas.

    Ninguém sabe ate hoje como todas conseguiram fugir, mas Ágata tinha alguns palpites, pois tinha encontrado diversas falhas nas trocas de plantão dos carcereiros, que geralmente nunca estavam usando armas; sem contar no sistema de cameras também, que volte e meia saia do ar devido ao gerador antigo que o governo mantinha do lado de fora da prisão pegando chuva e sol o dia inteiro. Só de citar esses exemplos, já dá para imaginar que uma possível rebelião ou insurgência era bem possível de acontecer. Porém, a única pergunta em que Ágata mantinha em sua cabeça na hora da fuga era o por que da demora?

    Por que elas não tinham feito isso antes dela chegar naquela prisão?

    Era isso em que Ágata as vezes se pegava pensando em seu veleiro de fuga. Talvez estivessem esperando uma mulher corajosa o suficiente para iniciar o processo. Para que depois as outras pudessem seguir os seus rastros pela liberdade. Ou talvez estavam lhe testando para ver se ela teria culhões de fazer aquilo, mesmo que ninguém lhe acompanhasse na jornada para o abismo.

    Ágata acompanhou tudo pelo seu rádio antigo do veleiro. E dentro de sí vibrava por ter conseguido fazer mais aquela façanha em seu currículo. Pois sabia que eram bem poucos os que tinham conseguido fugir de uma prisão de segurança máxima como aquela.

    O que o destino lhe reservava agora?

    Pensava ela, olhando novamente para o seu mapa mundi do veleiro. Tentava indicar com os dedos um destino para se embrenhar, mas de nada adiantava. Gostava de velejar pelo mar calmo e violento. Levando consigo apenas lembranças de quem já tinha sido e era. As vezes o nome de todas eram faladas no rádio novamente, mas o mundo logo se esqueceu daquelas presidiárias que agora tinham outros nomes, identidades, cabelos e perfumes totalmente diferentes umas das outras.

    Ágata agora tinha medo da Terra à vista. Preferia sempre ancorar por perto, mas nunca chegar totalmente à costa para que as pessoas ficassem lhe perguntando de onde estava vindo e para onde queria ir. Dizia sempre que a viagem era o seu destino e as ondas sua estrada.

  • À liberdade dentro das grades

    abril 19th, 2025

    Ágata resolveu atracar o seu veleiro em Málaga, cidade natal de Pablo Picasso. Visitou alguns museus de arte em que continham algumas obras do famoso pintor espanhol em exposição e acabou Ficando muito intrigada com a sua genialidade. Pois Picasso tinha todas as condições possíveis para pintar obras de origens clássicas que realçassem o realismo da vida cotidiana, mas preferia distorcer tudo em forma de seus próprios movimentos inventados. Vai saber o que tinha levado à fazer aquilo.

    Domine toda a teoria e a técnica; caso queira criar uma nova vertente artística.

    Pensou consigo mesma, Ágata, depois de ter visto aquela exposição do artista espanhol.

    Pois Picasso sabia pintar como os artistas clássicos e renascentistas pintavam, mas acho que ele queria fazer sua própria história. Então, resolveu criar algo totalmente novo em sua vida, onde lhe faria ser lembrado para sempre nos livros de história da arte.

    Mas isso, de acordo com a visão de Ágata, só era permitido fazer no mundo das artes talvez. Porque a vida não vinha com um manual onde os grandes sábios lhe ensinavam a arte de viver. Você tinha que aprender e descobrir por si mesmo. Sendo autodidata por natureza. Aprendendo somente o que lhe conviesse de mais interessante, para que assim, você pudesse pensar na hipótese de criar o seu próprio mundo e universo. Com regras só suas e de mais ninguém.

    Porém, no seu jeito de pensar, isso também parecia ser impossível de se fazer. Pois em uma sociedade sempre existiria regras à serem seguidas fielmente. Mas se formos para o campo das artes, por exemplo, tudo já parece ser mais possível e permitido também.

    Mas com a vida já não era assim. Tínhamos que ir aprendendo aos poucos. Nos aproximávamos de pessoas com ideias diferentes das nossas e tínhamos que aprender a conviver em harmonia, por mais que algumas vezes isso parecesse impossível de se fazer.

    Ágata aprendeu isso desde cedo. Tinha bem poucos amigos em sua infância e quase nunca tinha ido à casa deles para dormir ou passar apenas o final de semana juntos conversando sobre assuntos banais. Ela estava ocupada demais pesquisando sobre a história da humanidade em seus momentos livres.

    Ela tinha pavor de seguir às massas. Quando todos escutavam rock, ela preferia o folk profético de Dylan. Quando todos queriam roupas de marca, ela arranjava roupas simples de brechós de beira de rua. Quando todos queriam ir para as principais universidades do Brasil, ela preferia sair do país e inventar a sua própria formação.

    Ela sempre teve esse espírito contracultural em tudo o que fazia. E foi nesse instante, em que se deparou com uma livraria espanhola onde estavam vendendo os seus artigos de jornais em livros que coletavam todas as suas obras completas. Ágata ficou apavorada com aquela situação inusitada em sua vida. Pois nunca poderia imaginar que os seus artigos, crônicas e contos ainda estivessem ganhando o mundo daquele jeito. Porque estava ocupada demais viajando dentro dele. Mas tinha se esquecido de quem tinha sido um dia. Uma escritora, jornalista e professora muito bem sucedida, tanto no ambiente acadêmico como fora dele também. Mas por outro lado, também pairava uma sombra negra em sua vida por ter sido uma mercenária sem pátria. Que defendia os injustiçados à troca da própria morte.

    Ágata se olhou no reflexo do vidro daquela livraria e pôde reparar que teria que colorir seu cabelo de azul novamente, pois a tinta já estava começando a desbotar. Ela teve o cuidado de olhar em todas as contra capas daqueles volumes – que não paravam de sair das prateleiras de lançamentos mais aguardados – e se sentiu muito mais aliviada ao vê-la de cabelos ruivos ainda. Mas isso de nada adiantou, pois tiveram alguns fãs seus que à reconheceram de imediato. E ela logo saiu toda destrambelhada da livraria levando consigo, um exemplar daqueles volumes em suas mãos sem perceber.

    Ela acabou sendo perseguida por uma onda de fás espanhóis que gritavam seu nome pelas ruas como se ela fosse à próxima discípula à ser seguida em um mundo pós-apocalíptico.

    Ágata conseguiu despistar aquela multidão e assim voltou rapidamente para o seu veleiro, pois ali era apenas uma singela velejadora da classe trabalhadora. E era exatamente isso que ela queria ser naquele momento de sua vida. Pois ela não queria ser famosa, nem dar autógrafos, muito menos tirar selfies desagradáveis com pessoas que tinham achado em seus escritos novas maneiras de viver suas próprias vidas sem rumo.

    Agora pelo menos, sabia que a onda da sua fama ainda não tinha passado o suficiente. E por hora, teria que ser dada como morta ou não encontrada pelos serviços de inteligência da Interpol.

    Mas isso já era tarde demais, pois aqueles fãs acabaram dando diversas entrevistas nos jornais dizendo que Ágata tinha sido vista em uma livraria de Málaga, folheando seus próprios livros nas prateleiras. E assim, as agências internacionais resolveram prendê-la de antemão, alegando que ela tinha cometido diversos crimes de guerra com o seu grupo de mercenários.

    O que à fez se tornar mais famosa ainda, pois era só ligar a televisão nos noticiários que a sua foto era mostrada como uma suposta terrorista à ser evitada em qualquer país.

    Os outros mercenários logo foram achados também.

    Seus livros continuavam na lista dos mais vendidos do mundo, como se aquele caso que seria julgado muito em breve, desse ainda mais fogo para a lenha.

    Ágata e seu grupo de mercenários seriam julgados por um comitê internacional. E os juízes responsáveis pelo caso, tiveram que ler todos os seus livros em busca de algo suspeito que pudesse ser aproveitado no julgamento do século. Mas no final das pesquisas, tiveram que alegar que não encontaram nada que à incriminasse teóricamente, somente pragmaticamente.

    Os réus apareciam todos na televisão com macacões laranjas e algemas nos pés. E de nada adiantou, as diversas manifestações em prol deles que aconteceram ao redor do mundo. Pois no final, todos acabaram pegando prisão perpétua.

  • Se tornando uma velejadora

    abril 18th, 2025

    Ágata estava muito empolgada para fazer aquela viagem ao Polo Ártico. Tinha alugado um navio com todos os acessórios necessários para aquela travessia em alto mar. Mas antes disso, passou em uma loja para comprar roupas adequadas às baixas temperaturas.

    Ficou muito admirada com o valor daqueles casacos e botas térmicas, mas como quase não gostava de gastar o seu dinheiro com roupas novas, preferiu investi-lo naquelas vestimentas e depois doar para quem precisasse. Ágata sempre manteve essa filosofia de vida. Usando apenas o necessário para o seu desenvolvimento pessoal.

    Acreditava que as pessoas tinham que usar mais roupas de brechós, por exemplo, pois isso gerava um ambiente mais susténtavel economicamente para o mundo.

    Ágata também teve que contratar uma pessoa especializada em fazer aquele tipo de viagem até o Polo Ártico. Acabou contratando uma garota desapegada igual à ela. Que tinha uma vasta experiência em velejar por aqueles lugares inóspitos na companhia de um cachorro do Cáucaso bem simpático.

    Seu nome era Berenice. Tinha por volta de 34 anos de idade mas aparentava ser bem mais nova do que a ocasião permitia. Mas Ágata tinha gostado daquela companhia logo de cara, e assim, resolveu pagar logo o valor integral do passeio de ida e volta. Berenice quase não pôde acreditar naquela soma de dinheiro toda que estava vendo bem em sua frente. Acho até que ela nunca tinha visto tanto dinheiro assim em sua vida. Pois os aventureiros pagavam tudo no cartão de crédito, parcelado em quantas vezes fosse necessário, alegando que gostavam de parcelas mensais suaves.

    Berenice se empolgou logo de cara e acabou à levando pelas costas do Canadá, Groenlândia, Noruega e Islândia também. Ágata até conseguiu ver alguns ursos polares no caminho em busca de algum lugar seguro para os seus filhotes recém nascidos.

    Ágata tirou diversas fotos com as cameras de Berenice que estavam no barco de velejo e aproveitou para aprender tudo o que estava ao seu alcance ao longo do caminho. Aprendeu a ir de acordo com a direção do vento. Pois de nada adiantava remar contra a maré. O mar tinha que permitir que Ágata completasse aquela viagem. E ela entendeu isso rapidamente.

    Berenice logo lhe mostrou a sua coleção particular de livros em sua pequena biblioteca no veleiro. Mas Ágata não se interessou por aquilo. Foi até muito respeitosa e educada, mas ela queria mesmo era aprender tudo o que pudesse com aquela velejadora do Ártico. Ágata notou logo de cara como Berenice tinha muito agilidade para mudar à direção de seu veleiro quando o vento não estava ajudando e isso à fez se tornar uma exímia velejadora também.

    Ágata sempre perguntava sobre todas aquelas informações que vinham pelo computador à bordo do veleiro. Via quando um navio cargueiro estava se aproximando com aquele radar sempre fazendo a varredura nos mares. E assim, aos poucos, ia decifrando quando um iceberg ou barco passava à algum quilômetros de distância daquela tripulação amadora.

    Berenice lhe explicava tudo. E nos momentos livres se perguntava se aquela mulher também ansiava em ser uma velejadora do mundo.

    Ágata não dizia absolutamente nada sobre aquilo. Preferia guardar segredo. Achava que aquilo não dizia respeito à mais ninguém. Mas sempre tratava Berenice com muita doçura. Porém, na volta da viagem, aquela resposta já estava explícita para ambas às partes.

    Berenice já tinha certeza sobre os próximos passos de sua companheira de viagem. E assim, na volta daquela aventura, Ágata já estava pensando em comprar um barco ou veleiro para atracar em algum cais do porto que aceitasse seu modesto barco.

    Quando enfim atracaram na Espanha, Berenice lhe apresentou à um lindo barco computadorizado que também serviria de veleiro, caso não quisesse usar toda aquela tecnologia disponível, e assim, Ágata não pensou duas vezes e acabou fechando o negócio na moeda local ali mesmo.

    Berenice ficou muito admirada com aquela atitude e começou a repassar em sua cabeça se tinha se esquecido de lhe ensinar algo de útil. Mas logo viu que aquela garota estava tão ou mais pronta que ela, para enfrentar as correntezas do mar que lhe sugavam para dentro novamente.

    E assim, Berenice e Ágata se despediram ao final daquele pôr do sol, pois as duas já estavam traçando novas rotas para velejar no outro dia. Berenice queria ir para o Japão, enquanto Ágata queria conhecer o mar morto.

    Ágata não sentia mais vontade de escrever sobre as suas novas experiências. Pois todos aqueles novos conhecimentos adquiridos, lhe preenchiam tanto, que ela simplesmente não queria registrá-los em diários de viagem. Queria guardá-los só para ela. Como se tivesse descoberto uma nova religião onde as pessoas eram conduzidas apenas por suas vontades.

    Vontade essa, que poderia ser um pouco perigosa dependendo do trajeto à ser traçado pelos mapas e radares de bordo de qualquer veleiro disponível. Mas Ágata parecia não se importar com aquilo, pois aqueles que colocavam a sua vida à disposição dos mares, tinha a total confiança que algum dia aquele sonho, poderia muito bem ser apagado com ondas que somente Nazaré eram capazes de produzir.

  • A Vida Privada – 2024

    abril 18th, 2025

    Sinopse da Obra: Salgado e Darsila tinham finalmente conseguido se estabilizar na Fazenda Formosa, ao produzir diversos tipos de alimentos orgânicos para a venda. Porém, seus filhos Lila e Otávio, logo quando nasceram, tiveram que presenciar à mãe, sucumbir diante de um terrível câncer no pâncreas que infelizmente à levou a morte. Depois do incidente devastador para a família, o coronel Salgado teve que cuidar de seus dois filhos, ao fazer o papel de mãe e pai. Seus filhos cresceram, se formaram e gastaram muito dinheiro em intercâmbios pelo mundo, até que decidiram voltar dos Estados Unidos, com a intenção de abrirem uma filial da Tesla – fábrica de carros elétricos – no Brasil. O coronel Salgado se deslumbrou com aquela ideia dos filhos, tendo em vista que a fazenda já não estava mais produzindo os produtos em grandes quantidades como fazia antigamente, e assim, decidiu se aposentar antes do previsto; passando logo as suas terras para que eles pudessem abrir a tão esperada filial na América Latina. Mas o que iria acontecer com a Betina, a Eliza e o Romildo que já trabalhavam na fazenda com o coronel Salgado? E para onde iria Salgado depois de se aposentar, se o lugar que ele mais gostava de estar era em sua biblioteca? Essas e outras respostas irão ser respondidas ao longo desse breve romance. Onde os personagens se mesclam com as suas dores, arrependimentos, angustias, felicidades e por fim, à congratulação de seus sucessos pessoais e profissionais.

    A vida privada – 2024Baixar
  • O Conclave – 2024

    abril 18th, 2025

    Sinopse da Obra: No ano de 2872 no Brasil, um bebê foi abandonado na porta de um mosteiro onde vivia diversos franciscanos. O bebê sendo uma menina, acabou se desenvolvendo muito bem no meio de todos aqueles homens que ela considerava como pais. Porém, os frades contavam para a menina que ninguém nunca tinha conseguido encontrar os seus pais biológicos e isso para a criança era algo de extrema tristeza em seu coração. Enquanto isso, em Coimbra, em Portugal; uma família sem condições financeiras resolveu ceder a sua única filha, para que ela pudesse se tornar uma freia, levando-a a um convento onde ela se tornaria uma religiosa enclausurada. Os anos foram se passando e as duas meninas resolveram continuar os seus estudos em Teologia e Filosofia no Vaticano, com as orientações devidas do Papa. Mas o que elas não poderiam imaginar era que ao chegar no local, as lendas sobre o Santo Graal, os cavaleiros templários e a descendência real de Jesus de Nazaré e de Maria Madalena, que elas sempre leram desde criança, pudessem ser verdade, gerando com isso, diversas consequências para a própria igreja católica em questão. Como a Igreja Católica irá reagir com todas essas revelações? Qual será os papéis dessas duas meninas para a igreja católica? Como os fiéis irão reagir quando descobrirem que tudo aquilo em que eles mais acreditaram durante séculos e mais séculos de história, possa estar a prova de contestações? Essas e outras perguntas serão respondidas ao longo desse romance histórico.

    O Conclave – 2024Baixar
  • A Primeira Guerra Mundial (1914-1918): a anatomia de um trauma

    abril 18th, 2025

    Sinopse da Obra: O presente trabalho tem a pretensão de apresentar como se originou o contexto sócio-cultural dos soldados na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), deixando transparecer, o cansaço que tinham por não terem as devidas horas de sono, para repor suas energias fatigadas; seus precários hábitos alimentares (rações), que afetavam suas reposições físicas; o medo constante da morte, que todos enfrentavam; a intenção dos desejos sexuais homoafetivos, que proporcionavam prazer, evitando a dor; as adversidades enfrentadas com o surgimento do vírus Influenza, decorrente do crescente número de mortos que jaziam nas trincheiras; e consequentemente, como eles utilizavam as drogas (bebidas e tabacos) para tentar escapar de todos esses sofrimentos. Por essas particularidades culturais, a coleta de informações se baseou a partir dos jornais de época, junto com alguns diários de ex-soldados que revelavam o dia-a-dia no front de batalha, tendo como objetivo de análise, a capacidade de encontrar resquícios daqueles que utilizavam além dos entorpecentes, a escrita poética ordenada das palavras, para silenciar a melancolia de seus corações diante da morte. PALAVRAS-CHAVES: Sexualidade; alimentação; drogas.

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  • Rebeldes À Deriva – 2023

    abril 18th, 2025

    Sinopse da Obra: Manuela estava completamente desmotivada com o seu curso de Tecnologia da Informação que estava fazendo no SERRATEC, em Petrópolis. Porém, o que lhe mantinha com ânimo era um código de ética que estava formulando onde poderia dar vida à um robô que seria animado pela inteligência artificial. É claro que ela chamou a sua melhor amiga, Fernanda para poder compor a sua equipe, depois de ter decidido abandonar o curso acadêmico com muita falta de delicadeza. Seus pais ficaram sem entender nada, mas já era tarde demais. Manuela já tinha montado uma excelente equipe, recrutando pessoas do próprio curso para poder realizar o grande sonho de fazer um robô chamado de Lola. O tempo passou e Lola foi logo arrumando o seu espaço, se tornando CEO da empresa de Inteligência Artificial, além de ser a principal mente criativa da empresa junto de suas conselheiras é claro. No início começaram a produzir robôs em série para todos os setores empresarias e logo todos tinham em casa uma robô chamada de Lola para lhe fazer companhia. Depois inventaram chips cerebrais para controlar e vigiar a espécie humana. Porém, o que a empresa de Lola não esperava era que um nerd da computação, chamado Raul, teria um plano de se libertar desses chips cerebrais, para que pudesse ter a sua tão sonhada liberdade de volta, criando um grupo apelidado de Rebeldes à Deriva, que teriam como objetivo principal fornecer à liberdade às pessoas novamente. Num mundo repleto de robôs, chips cerebrais e realidades virtuais, encontramos alguns personagens bem curiosos para o deleite de uma leitura pós-moderna.

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  • A Terra Encantada – 2023

    abril 18th, 2025

    Sinopse da Obra: Em um Condomínio Residencial vivia um garotinho super criativo em relação às idéias mitológicas que povoavam a sua mente para além daquelas florestas montanhosas, que perfaziam à paisagem paradisíaca do local. Porém, para a sua surpresa, quando estava saindo de sua escola para aproveitar o seu primeiro dia de férias, eis que me surge em frente à casa dos seus avós (Onde morava com a sua mãe), ao entardecer, uma espécie de seres pequenos vestidos com roupas de papai Noel (Santa Klaus), sobrecarregados com madeiras em suas costas, subindo todos em conjunto diante do morro acima. O que era aquilo passando pelo condomínio residencial à uma hora daquelas? Por que todos se vestiam como magos (em formatos pequenos)? Para onde estavam indo há uma hora daquelas? Estas e outras perguntas só serão respondidas, quando adentrarmos no mundo encantado da Terra Encantada.

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